III. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
3.4. Análise da avaliação
3.4.3. Aumento de capacidade da empresa
3.4.3.3. Problemas internos
Os exemplos abaixo tratam de problemas internos da empresa, noticiados nas notícias sobre a Tele_A e, como seria de se esperar, não descritos nos press releases. Esses exemplos mostram que a prosódia de Atitudes negativas em um texto sobre a
empresa podem não trazer uma avaliação negativa à empresa, mesmo que a notícia seja sobre ela.
O excerto 127, que descreve os motivos da demissão de uma executiva, mostra informações fornecidas na notícia sobre a empresa que não constam nos press releases correspondentes.
127. Tele_A manda demitir S.P. da direção da Telos (título) (...)
S. P., que foi Secretária Nacional de Previdência Complementar no governo Fernando Henrique Cardoso, estava envolvida no processo de venda da Tele_A, empresa patrocinadora do fundo de pensão. Como patrocinadora, a empresa tem assento no fundo de pensão dos funcionários. Ela surpreendeu o mercado de telecomunicações na última segunda ao afirmar, publicamente, que o fundo de pensão estava disposto -- e tinha dinheiro em carteira-- para comprar o controle da Tele_A. Segundo fontes do setor, o motivo mais provável da demissão seria exatamente o vazamento da operação de compra da Tele_A por parte da Telos. Apesar da existência do interesse, o assunto vazou antes da hora.
Também pesa contra S. P. sua péssima relação com os atuais dirigentes da Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, que eram representantes dos bancários na época em que estava na Secretaria de Previdência Complementar. Como superintendente da Telos, S. P. nomeou o ex-ministro da Previdência W. O. para a direção da Tupi, o que provocou atritos com a Previ, que também é acionista da empresa. (notícia sobre a Tele_A)
O excerto acima fornece dois motivos que justificariam a ação da empresa de demitir a executiva, a declaração da intenção de compra do controle da Tele_A e o relacionamento com os dirigentes da Previ. Esses motivos são apresentados em uma relação lógica de extensão, pelo uso da expressão também pesa contra.
A capacidade da empresa de executar a ação de mandar demitir, expressa no título da notícia, é evidenciada no texto (Como patrocinadora, a empresa tem assento
no fundo de pensão dos funcionários.). Essa ação da empresa pode ser avaliada, dessa
forma, com base em dois conceitos diferentes: o primeiro, a sua capacidade legal de executar a ação, o que está relacionado a uma Atitude positiva de Julgamento: Sanção social; o segundo, está relacionado à imagem possivelmente negativa de quem demite, o que pode expressar uma Atitude negativa de Julgamento: Estima social junto aos leitores, que pode ser reforçada pelo uso do processo mandar, que pode trazer uma imagem de prepotência à empresa. No título do press release, essa atitude negativa é evitada pelo enfoque dado à contratação do novo executivo e a omissão da ação de demissão (Telos tem novo diretor superintendente e, no texto, Ele assume o cargo em
A primeira justificativa apresentada para a demissão é indicada em 128:
128. Ela surpreendeu o mercado de telecomunicações na última segunda ao afirmar, publicamente, que o fundo de pensão estava disposto -- e tinha dinheiro em carteira-- para comprar o controle da Tele_A.
Em 128, temos uma relação lógica de causa-efeito entre a declaração da executiva e a reação do mercado de telecomunicações. O participante mercado tem, na oração, a função de Experienciador de um processo mental, expresso por surpreendeu. A executiva, que nessa oração tem a função de Fenômeno, é avaliada negativamente por uma Atitude de Julgamento: Sanção social, com base no conceito de que uma profissional não pode fazer algo que surpreenda o mercado – em outras palavras, deve obedecer a autoridade.
Podemos observar aqui que a autoridade do Experienciador é uma função importante na avaliação; em uma comparação, uma ação de um executivo que surpreendesse a concorrência poderia ser avaliada positivamente. Outra função importante para a avaliação negativa é expressa na Circunstância de Maneira (publicamente), que mostra como a declaração foi feita – destacada na notícia pela colocação dessa circunstância em um sintagma preposicional encaixado, expressando uma avaliação negativa pela inadequação da maneira como a declaração foi feita. No exemplo 129, a declaração é avaliada negativamente pela forma de referência utilizada em vazou.
129. Apesar da existência do interesse, o assunto vazou antes da hora.
Na oração acima, temos duas bases de avaliação diferentes, contrapostas pelo uso do disjuntivo apesar. A executiva poderia ser avaliada positivamente por ter dado uma informação verdadeira, mas a inadequação de seu ato traz uma avaliação negativa nessa oração pela forma de referência de sua declaração (vazou) e pela circunstância de tempo (antes da hora). Essa primeira justificativa parece, assim, ser baseada no conceito de que a empresa deve apresentar uma voz única; caso um indivíduo da corporação aja em dissonância com a empresa, ele se sujeita a ser excluído desta.
A segunda justificativa apresentada para a demissão da executiva a avalia negativamente de forma explícita, como mostrado nos exemplos 130 e 131:
130. Também pesa contra S. P. sua péssima relação com os atuais dirigentes da Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, que eram representantes dos bancários na época em que estava na Secretaria de Previdência Complementar.
131. Como superintendente da Telos, S. P. nomeou o ex-ministro da Previdência W. O. para a direção da Tupi, o que provocou atritos com a Previ, que também é acionista da empresa.
Nos exemplos acima, a executiva é avaliada por sua relação com os dirigentes de uma acionista da empresa. Essa relação recebe o Epíteto de péssima em 130 e é referenciada como atritos em 131, sendo avaliada negativamente com base no conceito de que o relacionamento com um acionista deve ser bom – outra forma de “respeito à autoridade”.
O excerto 132 apresenta o histórico dos problemas financeiros da controladora da Tele_A, também uma informação não fornecida no press release.
132. No começo da semana, surgiram rumores de que Telmex preparava uma nova oferta para comprar a Tele_A. O magnata mexicano C. S., controlador da Telmex, tinha em julho do ano passado US$ 1,7 bilhão em dívida da MCI. A proposta seria trocar as ações da empresa americana na Tele_A pela amortização da dívida.
A W.C. decretou moratória em 2002 por conta de um escândalo contábil de US$ 11 bilhões que levou ao indiciamento criminal do ex-presidente da empresa B. E., na Justiça dos EUA. O caso foi considerado uma das maiores moratórias da história dos EUA. (notícia sobre a Tele_A)
Desse excerto, temos o exemplo 133.
133. A W.C. decretou moratória em 2002 por conta de um escândalo contábil de US$ 11 bilhões que levou ao indiciamento criminal do ex-presidente da empresa B. E., na Justiça dos EUA.
A moratória implica em uma demonstração da redução de capacidade da empresa, pois esse é um instrumento legal, utilizado por empresas em dificuldades. O julgamento negativo de sanção social aqui está na circunstância de causa, expresso pelos termos escândalo e indiciamento criminal.
É de se observar que, nos dois exemplos acima, que tratam da demissão da executiva e dos problemas legais da controladora, há uma prosódia negativa, criada por diversas palavras e relações que se espalham por todo o excerto. Entretanto, como essas avaliações negativas não estão atribuídas à Tele_A, elas podem não trazer uma avaliação negativa à empresa. Dependendo da interpretação do leitor, é possível argumentar que todas essas avaliações negativas da executiva e de suas ações poderiam
até mesmo trazer uma avaliação positiva à ação da empresa na notícia, pelas justificativas oferecidas pela notícia, com base no conceito da “capacidade” da empresa de resolver os seus problemas.