Como apontado anteriormente, tomo como orientação metodológica, para interpretar os textos de registro de experiência, a Abordagem Hermenêutico-Fenomenológica Complexa, conforme Freire, M. (2010, 2012 e 2016). Os procedimentos para a interpretação desses textos, conforme Freire, M. (2010:24) passam pela
textualização, tematização (operacionalizada pela identificação de unidades de significado e por procedimentos de refinamento e ressignificação) e ciclo de validação constituem o que entendo como rotinas de organização, interpretação e validação, traços distintivos da abordagem hermenêutico-fenomenológica.
Dessa forma, considera-se a textualização como ponto de partida, passando pelo refinamento e, depois, para outros refinamentos e por ressignificações. Voltando para o texto inicial e, depois, para outros refinamentos e ressignificações até chegar à definição de temas e subtemas que possam ser as unidades mínimas de significado. Essas inda e vindas, do texto inicial, passando pelos refinamentos e ressignificações, até chegar aos temas e suas subdivisões, caracteriza o ciclo de validação da pesquisa.
O caminho percorrido para chegar aos temas e subtemas decorrentes da interpretação dos textos das estagiárias pode ser conferido no Quadro 23. Na primeira coluna, apresento um fragmento do registro textual de um dos 15 textos que revelam a experiência vivenciada pelos alunos em seu primeiro encontro com a Complexidade. A própria AHFCC sugere que os textos sejam mantidos no mesmo formato original como foram recebidos, já que é o momento de olhar para a experiência do outro. É o momento da Textualização. Freire, M. (2012: 186), com base em Ricouer, adverte que é o momento de olhar o ―texto originalmente escrito ou a transcrição do texto originalmente oral preservam o discurso, convertendo-o a um formato único que o torna acessível à memória individual e coletiva‖. Desse modo, após a textualização, o material poderá ser lido e relido inúmeras vezes, ser objeto de interpretações, reinterpretações e reflexões, permitindo, assim, compreender, de maneira cada vez mais profunda e reveladora, o(s) significado(s) subjacentes às escolhas lexicais literais constantes no original, como pode ser visto no seguinte quadro:
Ação Texto da estagiária Ana Texto da estagiária Bia Texto da estagiária Cláudia Textualização26 O autor Edgar Morin, aborda a
necessidade da reforma do Quadro 19 – Caminho percorrido para a interpretação
(Fonte: autoral)
No Quadro anterior, na primeira linha, apresento a textualização (Freire, M. 2012:91), que se refere ao registro textual em que a experiência dos alunos com a Complexidade se traduz nas próprias palavras dessas estagiárias. Na segunda linha, foram selecionadas as primeiras unidades de significado das experiências contidas nesses registros textuais. Freire, M. (2012:192) adverte que essas são as unidades em que se revelam sentidos relacionados ao fenômeno que está sendo pesquisado. Já na terceira linha, aparecem os primeiros refinamentos e ressignificações que, segundo Freire, M. (2012:192), constituem um procedimento que permite identificar unidades que posteriormente serão confrontadas para achar a essência do texto.
Freire, M. (2012:192) aponta que é necessário fazer diversos refinamentos e ressignificações para que a interpretação possa levar o pesquisador aos temas e subtemas.
26 Todos os textos apresentados mantiveram o registro original escrito pelas estagiárias
Nesse sentido, apresento novos refinamentos e ressignificações dos textos, elucidados no seguinte quadro:
Ação Texto da estagiária Ana Texto da estagiária Bia Texto da estagiária Cláudia Novos
Quadro 23 – Novos refinamentos e ressignificações (Fonte: autoral)
No Quadro anterior, nas duas primeiras linhas, apresento as leituras que permitiram com que eu fosse lendo os textos e procurasse novos refinamentos e novas ressignificações (Freire, M. 2012:192) com o intuito de fazer um movimento em que possa identificar e reconhecer, partindo da textualização, o que pode ser descartado e confrontado posteriormente. Freire, M. (2012:193) declara que os refinamentos e as ressignificações podem ser repetidos diversas vezes, ―tantas quanto forem necessárias, para confirmar interpretações e estabelecer cruzamentos‖ (Freire, M. 2012:192). Após ter realizado alguns refinamentos e ressignificações, comecei a descobrir as primeiras abstrações, que me permitiram chegar às unidades mínimas de significado (terceira linha do quadro anterior).
Outras abstrações foram sendo feitas, com esse ir e voltar para o texto, de forma que pudesse chegar até ao início da substantivação dessas abstrações. Isso será mostrado no seguinte Quadro:
Ação Texto da estagiária Ana Texto da estagiária Bia Texto da estagiária Cláudia
Quadro 24 – Primeiras abstrações do texto (Fonte: autoral)
Freire, M. (2010, p. 24) destaca a importância de identificar temas e articulá-los após diversas leituras dos registros textuais. Dessa forma é que as abstrações das orações vão dando lugar aos substantivos que permitirão interpretar o fenômeno a ser pesquisado. No quadro anterior, apresentei dois movimentos de abstração e como, nos dois registros textuais, vão surgindo os substantivos para indicar os temas e subtemas. No próximo Quadro, apresento a relação que foi feita entre os registros textuais e o primeiro confronto entre essas abstrações:
Ação Texto da estagiária Ana Texto da estagiária Bia Texto da estagiária Cláudia Abstrações, temas e
Freire, M. (2010:25), no quadro de rotinas de organização e interpretação, aponta para
―novas releituras e maior refinamento com possibilidade de confirmação/descarte das unidades de significado e/ou articulações definidas anteriormente‖. Após essas leituras e descartes, as abstrações, ao serem confrontadas, aparecem para o pesquisador, obtendo substantivos que revelem a essência do texto. Nesse sentido, no Quadro 26, realizei o confronto entre os três registros textuais e escolhi os substantivos que podem ser os temas e subtemas da minha interpretação. Apresento, dessa forma, os temas e subtemas no Quadro 27:
Temas Subtemas Sub-subtemas Sub-sub-subtemas
REFORMA EDUCAÇÃO Amor
conhecimentos
ESTÍMULO CRÍTICA
REFLEXÃO
Engessamento Preparação
Saberes Desafios
SABER APRENDIZAGEM
TOTALIDADE
Separação Fragmentação
Quadro 20 – Temas e subtemas do registro textual: encontro com a Complexidade (Fonte: autoral)
Percebo, ao interpretar, ir e voltar aos textos, refinar e ressignificar, reler as tematizações, até achar temas, que a AFHC propõe uma interpretação não linear que me permite ir e voltar aos textos. Sinto como se um elemento fosse decorrente de outro, ou como se a textualização fosse um elemento que propiciasse uma ação. Posso representar essa rotina de organização e interpretação, conforme a minha visão e experiência da seguinte forma:
Figura 7 – Uma leitura experiencial do ciclo de validação (Fonte: autoral)
Esta leitura, da figura acima, que faço da rotina de organização e interpretação de Freire, M. (2010:25) é uma rotina que permite ir e voltar ao texto, ao fazer novas leituras do texto original. Vejo que há um cíclico recursivo, que tem, como início, o texto, passa pela textualização, pelas primeiras unidades de significado, volta à textualização, descobre o refinamento e ressignificação e volta ao texto. Parece que, ao movimentar uma das peças, movimenta-se toda a rotina de organização e interpretação, permitindo entender o fenômeno e chegar até os temas, para voltar ao texto novamente, a fim de rever toda a interpretação.
Após apresentar e metodologia da pesquisa, apresento a interpretação dos textos coletados.
CAPÍTULO 3
CENTRO E ESFERAS, ESFERAS E CENTROS: O ESTÁGIO EM TEXTOS E SIGNIFICADOS
Un conocimiento no es tanto más pertinente cuanto más informaciones contiene o cuanto más rigurosamente organizado está en forma matemática; es pertinente si sabe situarse en su contexto y, más allá, en el conjunto con el cual está relacionado (Morin, 2011a:151).
Denomino o presente capítulo Centro e esferas, esferas e centros: o estágio em textos e significados, porque apresento, aqui, como o estágio foi ressignificado para/pelas estagiárias, cujas narrativas me permitiram ler e interpretar os textos produzidos e, assim, descrever e interpretar os fenômenos da pesquisa. Destaco que a minha descrição se articula com a interpretação dos registros, já que, como mencionado em outros momentos, fui eu o professor e o coordenador de curso que propôs a mudança no estágio. Apresento a seguinte figura para retomar a metáfora da pesquisa, que é olhar para o humano, uno e múltiplo que está interpretando textos de experiências de estágio.
Imagem 3 – Centro e esferas, esferas e centros: o estágio em textos e significados (Fonte autoral)
No presente capítulo descrevo, primeiro, a minha experiência na interpretação;
posteriormente, apresento os comentários sobre a interpretação e, por último, identifico os temas, subtemas e sub-subtemas.