CAPÍTULO III - METODOLOGIA 103
1. Uma pesquisa qualitativa de referencial crítico 103
1.3 Procedimentos para interpretação dos dados 117
Os dados, compostos pelo que se registrou a partir das observações das aulas, aliados aos registros resultantes das entrevistas semiestruturadas, foram organizados a partir da adaptação de uma perspectiva trazida por Smyth (1989;; 1992) e Liberali (2004, 2012) para o trabalho com a formação docente sob um viés crítico e colaborativo. Essa escolha se deu devido ao caráter questionador que trouxe para o meu estudo. Segundo Smyth (1989), em uma abordagem reflexiva crítica que leve à ação, se o professor quer descobrir a natureza das forças que o restringem e, a partir de então, trabalhar na direção de mudanças em sua prática, ele precisa se engajar em quatro formas de ação no que se refere à sua forma de ensinar. Para dar cabo de tal visão, o autor toma as ideias de Paulo Freire (1970) como base. Essas quatro ações são: descrever (O que eu faço?), informar (O que isso significa?), confrontar (Como vim a agir dessa maneira?) e reconstruir (Como
eu poderia fazer as coisas de modo diferente?). Faço, portanto, as seguintes perguntas direcionadoras para a análise dos dados, adaptadas de Smyth (1989;; 1992), para o fim desta pesquisa:
ü Descrever: o que a professora-participante faz em sala de aula?
ü Informar: qual o significado do que ela faz em termos de teorias de ensino e aprendizagem de língua estrangeira e visão de formação crítica e cidadã da criança?
ü Confrontar: quais são os valores veiculados pela professora, os valores relacionados à minha própria prática e aqueles referentes às teorias? E como estão todos estes confrontados/conflitados?
ü Reconstruir: Como essas práticas podem ser revisitadas? Como essas análises e reflexões afetam a mim como professora-formadora? Como o objetivo principal a que me proponho é reconstruir minha prática de formadora de professores de inglês para o EFI, coloco as perguntas acima com ênfase naquilo que posso depreender das aulas observadas e das entrevistas semiestruturadas com a professora para pensar no que podem contribuir para a formação de professores. Desse modo, procuro questionar as forças que restringem o trabalho de professores de inglês para EFI em geral e de seus próprios formadores. Para tal, destrincho cada uma dessas ações a seguir.
Ao descrever, o pesquisador relata a aula dada sem haver a preocupação com interferências de opiniões pessoais ou críticas. Esse é um momento importante, pois irá trazer ricos detalhes em termos do que ocorreu, segundo a visão de um participante, no evento observado. Em minhas análises, essa visão é trazida pela transcrição pormenorizada das aulas, pois, segundo Smyth (1989), é importante relatar eventos concretos da prática do professor.
Na fase denominada “informar”, busca-se fazer uma relação entre as descrições e as teorias que subjazem ao discurso ou à ação observada. Nesse sentido, Liberali (2012) alerta para que as práticas não sejam rotuladas na fase do “informar”. No entanto, ressalto que, em minha análise, ao ressignificar as categorias de Smyth (1989, 1992) e Liberali (2004, 2012), trago termos de abordagens de ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras com o intuito de informar
teoricamente o que subjaz a prática da professora e não de rotulação. Para Smyth (1989), por sua vez, “informar” é a fase de descoberta de princípios pedagógicos mais abrangentes que estão informando a ação do professor, de forma consciente ou não. Logo,
O que os professores estão tentando fazer nesse processo é mover a sua prática do domínio do místico, tal como era, para uma situação em que eles sejam capazes de começar a ver através da discussão com os outros a natureza das forças que os levam a operar da maneira que o fazem e como podem ir além de intelectualizar as questões para ação concreta de mudança (SMYTH, 1989, p. 6, tradução nossa).
Por sua vez, na fase do “confrontar”, segundo Smyth (1989), o professor tem a possibilidade de questionar as teorias que descobriu sobre suas ações. Essa fase é importante porque permite visualizar que as práticas docentes são resultado de um processo histórico de valores que as moldam e de normas culturais a respeito das quais não se tem consciência sem essa reflexão. Revelam-se, nesse sentido, os anseios e desejos, a partir desses valores, de quem está envolvido no processo. Pode-se, então, perceber as forças sociais e institucionais que se manifestam por meio de elementos além da sala de aula. Abre-se espaço para problematizar o ensino e a aprendizagem para a formação de professores. Nesse momento, são contrapostos dados gerados pela observação de aulas e pelas entrevistas semiestruturadas com reflexões sobre minha prática e com princípios teóricos.
Na fase tida como “reconstruir”, Smyth (1989) aponta para a possibilidade de o professor ser capaz de identificar histórica e socialmente as forças que o restringem e partir para a ação, iniciando mudanças no mundo de tal forma que se distancie da visão de que as realidades de ensino e aprendizagem são imutáveis, pelo contrário, “são essencialmente contestáveis” (SMYTH, 1989, p. 7, tradução nossa). Nesse sentido, ao pensar na formação docente, é possível vislumbrar outras formas de ações possíveis para a sala de aula. Ou, ainda, pensar nas implicações contextuais e sociais do que se faz, principalmente enquanto quem forma os professores de inglês para o EFI, bem como os discursos que o formador veicula e que são restringidos por uma visão hegemônica e monolítica de língua, cultura e disciplinas escolares fragmentadas. Desse modo, compartilho da ideia de que “ser reflexivo, portanto, significa mais do que ser meramente especulativo;; significa começar com a realidade, vendo as injustiças, e começando a superar a realidade ao reafirmar a importância do aprendizado” (SMYTH, 1992, p.300, tradução nossa).
Como mencionado anteriormente, ressignifico o olhar de Smyth (1989;; 1992) e de Liberali (2004, 2012) para essas macro-categorias. Por isso, nesta pesquisa, as fases descrever, informar, confrontar e reconstruir revelam-se sobrepostas e articuladas na análise de cada aula apresentada em interlocução com as entrevistas. Logo, no capítulo IV, de forma conjunta, trago a descrição das aulas observadas de modo pormenorizado ao longo da análise, busco informar ao compreender quais teorias de ensino e aprendizagem de língua estrangeira e visões de formação crítica e cidadã podem ser depreendidas das ações descritas, confrontando-as com os valores da própria professora deste estudo de caso, com o auxílio das entrevistas, com as teorias e com minha própria prática. E, ao buscar a reconstrução, faço um percurso de reavaliação de minhas interpretações iniciais, refletindo a respeito das implicações dessas análises para o contexto de ensino em questão e para minhas visões enquanto professora-formadora, inclusive com alguns exemplos concretos. Além disso, após a análise dos dados, no capítulo V, proponho reconstruções por meio de práticas concretas para sala de aula, como resultado dos deslocamentos vividos por meio da pesquisa. Assim, reitero que não pretendo reformular ou invalidar as aulas da professora. Na realidade, a intenção é buscar atender ao objetivo central da pesquisa, que é o de reconstruir/ressignificar minha prática enquanto formadora de professores. Posteriormente à conclusão da tese, haverá o retorno da análise feita dos dados e das reconstruções para a formação de professores à professora-participante e à escola.
No que diz respeito à visão acerca da linguagem, da língua inglesa, da cultura e da ideia de transdiciplinaridade, entendo que elas podem ser tidas como representações, as quais, segundo Hall (1997), só podem ser analisadas em práticas discursivas situadas, o que pretendo desenvolver com este trabalho. Para o mesmo autor, nos estudos culturais, a representação se define como a produção do significado através da linguagem. Assim, não há um significado estabelecido, final, tido como verdadeiro, somos nós quem construímos esses significados e que fazemos as coisas significarem. Daí advém a importância das fases estabelecidas para os procedimentos de análise dos dados gerados e das categorias a seguir pensadas para a compreensão desses dados, revelando minhas próprias representações e as da professora-participante.
Analisar os dados de um estudo qualitativo é uma tarefa de interpretação subjetiva. Portanto, de acordo com Cohen et al (2011), há um encontro reflexivo entre o pesquisador e os dados, o que são, na realidade, interpretações de um encontro social.
Conforme Lankshear e Knobel (2008), para analisar dados verbais, é preciso categorizá-los. Assim, “a análise de categorias envolve a organização sistemática dos dados em agrupamentos iguais, similares ou homogêneos” (ROSE e SULLIVAN, 1996, p. 232 apud LANKSHEAR;; KNOBEL, 2008). A pesquisa qualitativa é dirigida para a produção de categorias descritivas. A análise dessas categorias configura-se como um processo interativo. Em primeiro lugar, tem o objetivo de identificar relações semânticas e de outros tipos entre os dados e, posteriormente, identificar relações lógicas entre as categorias.
Desse modo, foram usados para a organização dos dados gerados, as macro-categorias descrever, informar, confrontar e reconstruir. E os dados produzidos são analisados a partir de categorias teórico-analísticas predefinidas pelo referencial teórico adotado nesse estudo. Nesse sentido, as teorizações de Kalantzis e Cope (2012[2008]) sobre paradigmas educacionais se mostram conceitos fundamentais. Tomo, pois, como base, as dimensões criadas pelos autores para descrever diferentes orientações ou pensamentos filosóficos no campo educativo, a saber, as categorias da mimese, síntese e reflexividade (ou nova aprendizagem), a fim de tratar das visões sobre o processo de aprendizagem, principalmente. A essas dimensões, atrelo outros conceitos importantes para meu estudo, que são as categorias ligadas à transdisciplinaridade e a visões de língua e cultura. É importante destacar que outras categorias a posteriori surgiram a partir da organização dos dados, sendo estas incorporadas às previamente delineadas ao longo da análise. Entre elas, por exemplo, encontram-se conceitos relacionados a objetivos, temas e propósitos constitutivos da organização e planejamento didáticos, propostos por Ramos (2002), entre outros.
As ideias de Ramos (2002) a respeito do processo de ensino e aprendizagem como um todo, incluindo a composição de conteúdos e procedimentos em sala de aula, são importantes para a organização e análise dos dados gerados pela observação das aulas da professora-participante porque ajudam a pensar no que está além do objeto de estudo propriamente dito em uma sala de
aula. Logo, a autora fez um deslocamento de um pensamento racionalista que se volta apenas para necessidades e habilidades para passar a trabalhar “com as questões o quê ensinar, para quem e para quê” (RAMOS, 2002, p. 62). Na verdade, ela está rompendo com um ensino transmisso e conteúdista, ou seja, aquele que parte de tópicos e acaba por trabalhar conteúdos estruturais ou funções comunicativas sem uma articulação com propósitos sociais mais amplos e práticas orientadas pela transculturalidade, como aqui defendo, o que seria, então, mais coerente com um olhar para a sala de aula a partir de temáticas. Logo, compartilho do que essa autora adotou e que chama de meta-jargões What for? e What?, bem como a ideia de um tema para o curso ou aula, trazendo também implicações para as ações pedagógicas e enfatizando os “conhecimentos sistêmico, textual e de mundo” (RAMOS, 2002, p. 65).
Portanto, no capítulo IV, cada aula observada e selecionada para a análise é organizada em uma tabela conforme essas ideias de Ramos (2002), nomeadas como “tema, o quê? e para quê?”. Por sua vez, no processo de discussão de cada aula, são utilizadas as categorias que se encontram no quadro a seguir, um resumo dos que já foram apresentados anteriormente, ao longo da tese, como pilares que embasam este estudo.
Quadro 7: Categorias de análise de dados
Mimese Síntese Reflexividade
Repetição de
conhecimentos que são transmitidos ao aluno pelo professor;;
Há fatos de conhecimento já definidos no mundo e, portanto, no currículo;; Usa-se a mesma abordagem para todos os alunos (one size fits all);; Visão tecnicista de aprendizagem;;
Cultura por assimilação (COPE;; KALANTZIS, 2000;; KALANTZIS;; COPE, 2012[2008]). Atividades centradas no aluno;; Reconhecimento das diferenças individuais dos aprendizes;;
Integração social;;
Estratégias para aprender a aprender;; Multiculturalismo supercial (COPE;; KALANTZIS, 2000;; KALANTZIS;; COPE, 2012[2008]).
Os espaços de aprendizagem são flexíveis;;
As relações entre professor e aluno e entre alunos são horizontalizadas;;
O aluno é co-construtor do conhecimento junto a seu professor;;
Acolhimento e tratamento da diversidade e dos problemas sociais;;
Participação cívica;;
Pluriculturalidade e transculturalidade (COPE;; KALANTZIS, 2000;; KALANTZIS;; COPE, 2012[2008];; COX;; ASSIS- PETERSON, 2007).
Disciplinaridade Interdisciplinaridade Transdisciplinaridade
Especialização e fragmentação do conhecimento;; Disciplinas isoladas;; Descontextualização (SANTOS, 2010).
Interlocução entre duas disciplinas ou mais;; Troca de conhecimento (SANTOS, 2010).
Atravessa e ultrapassa as disciplinas de forma que as mesmas se ligam umas às outras dentro de um todo mais abrangente do conhecimento e das relações humanas, acatando a diversidade (SANTOS, 2008;; 2010).
Pode ser vista, na prática, enquanto ações criativas, intuitivas, lúdicas e desafiadoras, trazendo o inesperado e a resolução de problemas. A postura transdisciplinar do professor é ética, apresenta cuidado e escuta sensível. As atividades propostas, por sua vez, têm como foco o desenvolvimento humano e a preocupação com a alteridade (MORAES, 2015).
Quatro dimensões da transdisciplinaridade: ecossocial e planetária;; psicofísica, corporal, emocional e cognitiva;; criativa e estética;; política (NAVAS;; MOARES, 2015).
Língua como sistema Cultura assimilacionista
Língua como meio de comunicação
Multiculturalismo superficial
Língua como participação social e Translinguismo
Transculturalidade
A língua é um código estável, regido pela norma padrão;;
Repete-se o modelo do falante nativo culto para se atingir fluência tanto no que diz respeito à gramática quanto à pronúncia
(CELCE-MURCIA, 2001;; BROWN, 2007);;
Cultura vista enquanto assimilação (COPE;; KALANTZIS, 2000);;
Visão monolítica de língua e de cultura
(CANAGARAJAH, 2013).
A língua é vista como meio / instrumento de comunicação;; O indivíduo adquire estratégias de comunicação em situações semelhantes à realidade para poder usar a língua quando precisar
(WIDDOWSON, 1991;; ALMEIDA FILHO, 1993);; A cultura é trazida com a língua usada em contextos autênticos, portanto, culturas diferentes são apenas justapostas - multiculturalismo superficial
(COPE;;KALANTZIS, 2000).
Língua é discurso e usada pelo falante na prática social, sendo ideologicamente marcada;;
A língua possibilita a participação cidadã, a resistência a discursos monolíticos e hegemônicos e acata a pluralidade linguística e cultural e as multissemioses na prática pedagógica. Translinguismo (BAKHTIN/VOLOCHINOV,2014[1929];; CANAGARAJAH, 2013;; GARCÍA;; WEI, 2014);;
Caminha para a transculturalidade (COX;; ASSIS-PETERSON, 2007).
Abordagem Tradicional Abordagem Comunicativa Pedagogia do Translinguismo
Em uma abordagem de visão tradicional (audiolingualismo;;
gramática e tradução), tem- se procedimentos
metodológicos repetitivos, focados na estrutura da língua de forma dedutiva e descontextualizada do uso. Há ainda uma preocupação com a pronúncia perfeita que imita o nativo idealizado da língua-alvo (WILLIAMS;; BURDEN, 1997;; CELCE-MURCIA, 2001). Considerando a abordagem comunicativa em seus primóridos, as práticas metodológicas priorizam a importância do conteúdo para usar a língua em contexto;; exercícios repetitivos que levem o aluno a adquirir a língua enquanto instrumento de comunicação;; aceitação de erros;; questões afetivas do aluno (ALMEIDA FILHO, 1998).
A pedagogia do translinguismo acredita em práticas de sala de aula que possibilitem ao aluno mobilizar seu repertório linguístico como um todo e em uma visão plural. Ou seja, a língua materna e a estrangeira, a língua de sua família, de sua escola, de sua comunidade em atividades que sugiram desafios e resoluções de problemas. Nesse sentido, as multissemioses têm um papel importante porque permitem ao aluno usar sua criatividade e intuição por meio da fala, do visual, do escrito, do gestual e assim por diante (GARCÍA;; WEI, 2014). Tais práticas são também fortemente indicadoras de transdisciplinaridade (MORAES, 2015).
Fonte: Autoria própria
É importante destacar novamente que essas categorias não devem ser vistas de modo estanque, mas sobreposto. Em outras palavras, em um momento de aula pode haver indícios de uma perspectiva ao mesmo tempo disciplinar, inter e transdisciplinar;; uma visão de língua pode apresentar a coexistência de perspectivas de inglês como sistema, meio para comunicação e participação social, como se pode ver mais detalhadamente na análise no próximo capítulo. Ao mesmo tempo em que visões miméticas estão atreladas a disciplinares, estruturais e à cultura assimilacionista;; visões da síntese ligadas à interdisciplinaridade, à abordagem mais
comunicativa e ao multiculturalismo superficial;; o olhar da reflexividade, por sua vez, é correlacionado à transdiciplinaridade, ao translinguismo e à transculturalidade, portanto, à diversidade de pontos e vista.