5. RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.4. Processo de trabalho dos grupos terapêuticos
a) Observação participante do Grupo de TDAH
O grupo para adolescentes com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) acontece em seis encontros. Há roteiro com conteúdo a ser trabalhado em cada encontro de adolescentes. No grupo de responsáveis há psicoeducação sobre o que é o TDAH, quais dificuldades de desenvolvimento os adolescentes possuem além do trabalho com as cinco atitudes. A comunicação a respeito dos encontros é realizada por meio de Whatsapp.
No dia da observação o grupo começou atrasado, houve algumas dificuldades quanto à organização de um atendimento. O foco do trabalho foi o grupo de adolescentes, sendo que as atividades com os responsáveis terminaram assim que o grupo de adolescentes finalizou os trabalhos.
Quando se leva em consideração a complementariedade, o trabalho das profissionais não são complementares, com destaque para o fato de que o grupo gira em torno do trabalho com os adolescentes, visto que o grupo apenas inicia quando o profissional responsável está disponível para o atendimento dos adolescentes e termina no momento em que ele termina o próprio atendimento. Porém, a despeito disso, os profissionais se reúnem ao final dos grupos para registrar nos prontuários e discutirem o que observaram dos atendimentos aos adolescentes e responsáveis, que corresponde à elaboração do projeto assistencial comum8.
A rotatividade de profissionais que conduzem o grupo de pais compromete o vínculo com os usuários, além de dar descontinuidade no conteúdo trabalhado durante a realização dos grupos. Há roteiro organizado para os adolescentes e deveria haver continuidade de conteúdos para os pais ou pelo menos linha de raciocínio ou conteúdo mínimo para discussão nos grupos. A interdependência existe, porque há necessidade de trabalho conjunto com responsáveis e adolescentes para que haja melhora no tratamento do TDAH, e não é possível que
97 apenas uma profissional faça o trabalho sozinha com os pais e adolescentes. A articulação se expressa nos encontros que as profissionais fazem para a definição dos roteiros que serão trabalhados, na separação dos horários e pareamento das agendas das duas profissionais para que o trabalho seja viabilizado, mas fica comprometida devido à dificuldade de comunicação, de respeito aos acordos e horários estabelecidos, desrespeito ao próprio tempo de trabalho que as profissionais precisam para o desenvolvimento dos temas no grupo de responsáveis8.
Outro aspecto que atrapalha o processo de trabalho é a emenda de férias, licença prêmio sem combinação prévia entre os profissionais que conduzem o grupo. Esses aspectos dificultam o trabalho em equipe, no sentido de que compromete a comunicação das profissionais, a linha de raciocínio de trabalhos, a organização e estruturação dos grupos. A dificuldade de cumprimento dos horários também compromete a adesão dos adolescentes e responsáveis ao grupo. Também dificulta a vinculação com os usuários, a evolução e a adesão ao tratamento. Os responsáveis em sua maioria trabalham e tem horário a cumprir no serviço. Se o horário de início é as 8h30, o não cumprimento desse acordo dificulta, gera ruídos na comunicação entre responsáveis, adolescentes e profissionais responsáveis pela organização do grupo. Há, portanto, indícios de justaposição dos processos de trabalho, com uma aproximação da equipe agrupamento.
Os pontos positivos desse grupo são a disponibilidade de horário das profissionais, local para a realização dos encontros, expertise em conduzirem o grupo e lidarem com as adversidades próprias do contexto de trabalho e ainda assim, fazerem o grupo existir. O público alvo que necessita desse atendimento é expressivo, dado inclusive a existência dos quatro grupos. A elaboração do Plano Terapêutico Singular pelas profissionais após finalização dos grupos também representa um salto qualitativo no atendimento. Essa elaboração também é importante para que o atendimento seja centrado no usuário.
b) Análise do processo de trabalho em equipe de grupo terapêutico aberto.
Os profissionais que compõem a equipe são psicóloga, enfermeira e estagiária de psicologia, que pertencem ao Programa Biopsicossocial. Este grupo
98 tem como caraterística ser aberto em relação ao número de encontros para cada responsável, ou seja, a participação no grupo é aberta. O conteúdo trabalhado no envolve as cinco atitudes e necessidades psicológicas que os participantes têm e que possam tornar o cuidado com os filhos mais difícil. Especificamente no dia da observação, o conteúdo trabalhado foi a necessidade de os responsáveis elogiarem os adolescentes. O trabalho foi feito por meio de elogio entre os próprios participantes daquele dia, com a utilização de um barbante.
Há um livro ata, em que são anotados o conteúdo de cada grupo, as principais falas dos participantes, para que no próximo encontro quem estiver para conduzir o grupo saiba o que foi trabalhado anteriormente, facilita a comunicação entre os profissionais. Não há ordem fixa para o trabalho das atitudes. Após a finalização do grupo, as profissionais se unem, discutem o que elas observaram de cada participante e anotam nos prontuários o que elas perceberam de modificação do comportamento dos responsáveis. Cada profissional também conta como se sentiu em relação ao grupo e como sentiu a dinâmica do grupo. No prontuário, as profissionais lêem as evoluções de cada profissional sobre o caso e também lêem a ficha de entrevista inicial para ver como foi o primeiro encontro do usuário com o serviço. Essa descrição corresponde aos modos como a comunicação acontece no serviço. Portanto o prontuário é importante para que a comunicação e o diálogo entre os profissionais aconteça e permita a melhora do cuidado oferecido pelo serviço.
Como o foco da análise do trabalho não é o conteúdo dos grupos, a ênfase será dada à coesão do trabalho entre as profissionais. A complementariedade pode ser observada na fala, no encadeamento dos raciocínios entre as profissionais durante a realização do grupo. Não há profissão periférica à outra, há interdependência entre a Psicologia e a Enfermagem quanto aos fazeres e saberes, porque há compartilhamento da responsabilidade de condução do grupo. Articulação ocorreu por meio dos acordos quanto às dinâmicas realizadas durante o grupo, do respeito ao tempo de fala de uma profissional para a outra8.
A comunicação e o diálogo entre as profissionais favorecem o bom andamento do grupo, o início e o término dos trabalhos sem atraso. Outro ponto é que favorece o bom clima organizacional, visto que há espaço para que elas
99 comuniquem o que sentiram durante a realização do grupo. A comunicação do motivo da falta de uma das profissionais no último encontro aos usuários favorece a confiança e o vínculo entre eles, além de contribuir com a própria adesão ao tratamento e com a comunicação dos usuários às servidoras, caso precisem faltar algum dia de grupo8. Há indícios de equipe integração dos processos de trabalho das profissionais envolvidas na condução deste grupo.
Embora existam vinte e quatro grupos no serviço, a estrutura e funcionamento deles organizam-se basicamente em grupos abertos e grupos fechados, por isso a escolha de descrever apenas um grupo de cada. Procurou-se não fazer relação entre existência de grupo fechado associado com o trabalho em equipe interação, e existência de grupo aberto com equipe agrupamento, até porque o trabalho em equipe não existe somente nos grupos terapêuticos.