2. O “Instituto do Louriçal”
1.3. Processo fundacional
Assumindo que a análise da fundação de uma casa religiosa deva salientar a sua natureza processual, consideremos igualmente a presença, nesse processo, de uma série não raro extensa e complexa de sucessivas instâncias. Enquanto acerca da “inceptio”, enquanto “ideia” ou “vontade de fundar”, a indexação a uma data ou momento-chave revelou, no caso do Conventinho, uma exequibilidade duvidosa, já as etapas subsequentes - “receptio loci” (assunção da dotação pela comunidade) e “assignatio” (elevação à categoria de casa religiosa) 355 – são passíveis de nos devolver informações mais precisas, embora nem sempre procedentes ou atestatórias de um percurso linear.
Uma visão panorâmica da fundação do novo Mosteiro do Desagravo implicou uma análise dos primórdios do recolhimento de D. Pedro José de Noronha e de D. Francisca de Assis, marqueses de Angeja, que concebemos como representação da primeira verdadeira dotação, espiritual e material, da futura casa monástica. No plano material, pelo menos até certo ponto, a transição que se operou entre ambos permitiu revelar, mais ainda que continuidade, o carácter solidário. É o que se infere da permanência, até 1790 (ou poucos anos antes), da propriedade do edifício nas mãos dos marqueses de Angeja. Propriedade que irá, portanto, subsistir quer à data da erecção canónica do próprio mosteiro, quer às obras que, a partir de 1780, irão ser feitas já por ordem de D. Maria Ana356. Isto nos leva ainda a supor que, firmado ou não juridicamente, o beneficio do marquês (acrescido do dote de quatro mil reis com o qual D. Francisca de Assis provia à manutenção da ermida) tenha funcionado como efectiva dotação fundacional.
Ao favor material aportado por ânimo da infanta e, possivelmente, também a suas expensas, seriam mais tarde acrescentados os rendimentos da chamada “Quinta d’Água”, propriedade rústica sita Corroios, adquirida justamente no ano em que se dera forma legal à propriedade das religiosas do desagravo sobre o edifício do antigo recolhimento. Cremos, pois, que só em virtude do falecimento do marquês e, portanto,
355 Cfr. José María MIURA ANDRADES, Frailes, monjas e conventos. Las órdenes mendicantes y la
sociedade sevillana bajomedieval, pp. 124-135. Os termos que definem o processo fundacional foram
pelo autor inspirados em M. H. Vicaire. Seguimos aqui a formulação proposta pelo M. Andrades, ainda que sem as nuances e variantes que lhes aplica. Adverte o mesmo que, apesar da existência efectiva destas etapas e da ideia da sua natural sucessão, nada garante que elas se desenrolem segundo uma lógica necessariamente sequencial.
356 Sobre as obras do Mosteiro, ativemo-nos à profusa documentação manuscrita existente na Biblioteca da Ajuda.
da cessação do seu empenho directo, se tenha efectivado a transmissão plena de uma herança, que D. Maria Ana se propusera já anteriormente assumir.
Às questões algo complexas que acompanharam a vertente material da dotação, seguir-se-ia uma concatenação bem mais linear de sucessivos passos tendentes a dar forma definitiva à fundação do mosteiro. Parecendo responder à carta de 1781357, que exortava ao estabelecimento, no local do desacato, de um novo monumento ao seu desagravo, é emitido, com data de 15 de Janeiro de 1782, o breve do papa Pio VI pelo qual se reconhece autoridade apostólica ao mosteiro, se estabelece a transferência de quatro religiosas358 do mosteiro do Louriçal e se determina a observância dos mesmos estatutos pelo qual é regido o primeiro359. Eis, em excerto, os termos em que o faz:
[...] Mariannae Infantis in es ipsomet Loco ubi delictum [...] fuit commissum novum erigatur Monasterim, hinc a praedicto monasterio de Louriçal dilectas in Christo Filias Mariam de Jesu, Mariam de Nostra Domina, Mariam Candidam, et Mariam de Sacra Familia Moniales expresse professas discti Monasterii ad hoc novum Monasterium in Civitate Ulisiponensi erectum seu erigendum una cum iisdem statutis ac Legibus alias ut probatur Apostolica Autorictate confirmatis transferri summo pare desiderit. Nobis propterea humulitater supplicari fuit, ut in praeminis opportune providere, et, ut infra indulgere de Benegnitate Apostoloca dignaremur. [...] Datum Romae apud S. Petrum Sub Annelo Piscatoris diae XV. Jannuarii. MDCCLXXXII. Pontificatus Domini Anno Septimo360.
Decorrido mais de um ano sobre o breve, por via talvez da não conclusão da obra do mosteiro, emanam, um após outro, os diplomas que atestam a conformidade das instâncias chamadas a intervir, configurando uma multiplicação de actos e documentos em que quase sobrepostamente participa Século e Igreja.
357 Cfr. Petição dirigida ao Papa Pio VI solicitando autorização para a fundação da Convento de santa
Engrácia ao Cpo. de Santa Clara, Arquivo da Universidade de Coimbra, Colecção Jardim de Vilhena, Cartas diversas, Cx. XII, capilha 223.
358 Num Termo de Obediência, de 23 de Outubro de 1783, é pormenorizadamente descrito o cerimonial de prestação de obediência das quatro irmãs transferidas do Mosteiro do Louriçal a fim de fundarem o novo mosteiro. (Vd. José do Nascimento BARREIRA (padre), Breve história do Convento do Desagravo.
O “Conventinho” de Lisboa, Lisboa, Editorial Franciscana, 1965, p. 34).
359 Cópia deste documento encontra-se no Arquivo do Mosteiro do Imaculado Coração de Maria, em Lisboa, instituição herdeira do Conventinho (José do Nascimento BARREIRA (padre), op.cit.).
360 Breve do Papa Pio VI para fundação do Mosteiro do Desagravo de Lisboa, fl. 1. Arquivo do Mosteiro doImaculado Coração de Maria de Lisboa. (O texto completo do breve corresponde ao Doc. V do Anexo
Por se achar “acabado de edificar” e a fim de “ser povoado de Religiosas, que professem por Principal Instituto o Culto do [...] Santíssimo Sacramento”, D. Maria I, pelo decreto de 28 de Julho de 1783, autoriza a fundação do mosteiro, declarando ter sido erigido com aprovação e licença régias361.
No encalço deste diploma, surge, datada de 19 de Outubro de 1783, a provisão do cardeal-patriarca D. Fernando I, pela qual se atesta a visita canónica à igreja, mosteiro, clausura e demais dependências, que se considera estarem conformes às determinações do Concílio de Trento e Mandato Apostólico362, e se concede licença para o ingresso das religiosas do Louriçal.
Imediatamente a seguir, uma provisão de D. Maria I, de 20 de Outubro, reafirma o conteúdo do decreto de 28 de Julho. Dessa mesma data (20 de Outubro) é o decreto363 que determina a posse da Coroa sobre o mosteiro e o direito de padroado perpétuo, condição efectivada pelo respectivo auto, passado no mesmo dia. Fica deste modo garantida a protecção régia e “todas as Regalias Prerogativas, e Preminencias, e mais qualidades de que por direito gozão os Padroados da Coroa”364.
Segue-se, a 21 de Outubro de 1783, o decreto do cardeal-patriarca pelo qual são nomeadas a abadessa, vigária, porteira e mestra de noviças (Doc. 6). Nele se especifica que:
Por estar completo o Conv.to do Dezaggravo do SS.mo Sacramento fundado no Campo de S.ta Clara desde Cid.e, e serem transferidas p.ª o mesmo Conv.to algumas religiozas p.ª fundadoras do Mostr.º do Louriçal no Bisp.º de Coimbra, por Autoridade Apostolica, e visto q. o n.º das d.as Religiozas não he sufficiente p.ª se proceder a Elleição canonica da prelada, e mais officiais triennaes, e por ser da Nossa Jurisdição o mencionado Conv.to novam.te edificado conforme as Constituições por q. se governão as mesmas Religiozas. Nomeamos para Abb.ª a M.e Maria Cândida, p.ª porteira a Marianna de Jezus, p.ª Mestra das noviças a M.e Maria da Sagrada Família: cujos cargos servirão por tempo de trez annos, na Conformid.e das Referidas Constituições: E mandamos ás Religiozas lhes obedeção nos seus respectivos empregos.
361 IAN/TT, Desembargo do Paço, Corte, Estremadura e Ilhas, Mç. 2167, doc. 105. 362 AHPL, , Lv. 13, fls. 26 v-27.
363 BA, 54-X-7, fl. 126. Uma provisão régia de igual conteúdo guarda-se no IAN/TT, Chancelaria de D. Maria I, Lv.24, fl.67.
Por fim, a 23 de Outubro, as religiosas eleitas assinam o termo de obediência pelo qual ficam sujeitas à jurisdição patriarcal365, da mesma forma que as demais casas do Desagravo ficaram dependentes não da autoridade provincial (da Ordem Franciscana) mas do ordinário diocesano (casos do Louriçal, Vila Pouca da Beira e Sanguedo) ou arquidiocesano (Montemor-o-Novo).
Não obstante o declínio da modalidade de fundação de comunidades regrais a partir de casas terciárias, particularmente expressiva na sequência de Trento, o Desagravo parece ter sistematicamente ignorado essa inflexão. E ainda que a transição do recolhimento dos Angejas para o Conventinho nos pareça mais suave que nos restantes casos - entre a comunidade embrionária de Maria do Lado ou de Genoveva Maria e os Mosteiros do Louriçal ou de Vila Pouca, a que deram origem -, a inviabilidade ora económica e social ora jurídica inerentes à inexequibilidade de uma fundação monástica deve ter-se em qualquer dos casos verificado. A esses factores, cumpre-nos aduzir, nos casos em análise, a ambiência política e religiosa decorrente dos particulares contornos da relação entre Estado e Igreja verificados na segunda metade de Setecentos, assim como a ideia de que àquelas comunidades primárias subjazeu uma carga de espontaneidade que o seu ulterior “enquadramento” régio fatalmente alterou (ainda que a observância primitiva dos estatutos do Louriçal tenha em muito facilitado essa passagem).
Dando expressão ao processo acima descrito, fizeram a sua entrada no Mosteiro do Desagravo de Lisboa – depois de, a 22 de Maio de 1779, terem ingressado as quatro fundadoras da anterior casa de terceiras franciscanas366 -, as madres Maria Cândida, Maria de Jesus, Mariana de Jesus367 e Maria da Sagrada Família, juntamente com seis noviças368. Sobre o percurso de recepção das fundadoras, vale a pena atentar na circunstanciada e colorida notícia publicada n’O Seculo de 17 de Janeiro de 1905:
365 AHPL, Lv. 13, fl. 26 v-27.
366 Começaram nesse mesmo dia os lausperenes, em que também celebrou D. Manuel, irmão da marquesa de Angeja. Chegaram a ser 15 as recolhidas, vivendo essencialmente de esmolas. (Cfr. Manuel Bernardes BRANCO, O Panorama, Vol. 16, 1866, p. 409). Vd., também, Diário Illustrado, Ano II, n.º 191, 9 de Janeiro de 1873. É de notar que as próprias recolhidas devam ter transitado para o mosteiro, ainda que mantendo o estatuto anterior.
367 O breve de fundação do Papa referenciava, em lugar do nome de soror Mariana de Jesus, o de Maria de Nossa Senhora.
Pouco depois de terminar a sua construcção [do Conventinho] parte das recolhidas do Louriçal installaram-se n’elle, sendo transportadas em coches da casa real e acompanhadas até Lisboa por damas da côrte e por tudo quanto havia de mais distincto no clero e na nobreza. Foi um verdadeiro acontecimento. O apparatoso cortejo poz-se a caminho para Lisboa, descançando na primeira noite de viagem em Leiria, onde houve grandes festejos. A segunda noite foi em Torres Vedras, na quinta do sr. marquez de Penalva369, onde foram recebidas com grandes demonstrações de regosijo, mandando aquelle titular collocar na capella do seu palacio uma lapide commemorativa da passagem por ali das recolhidas, as quaes no dia seguinte entraram em Lisboa, alojando-se nas dependencias do convento. Na capital foram recebidas pela nobreza, clero e povo e no dia immediato tomaram posse do convento, onde houve grandes festas, a que assistiram o rei e a côrte. As referidas festas foram feitas com a pompa usual d’aquellas epocas, não se falando durante muito tempo n’outra coisa.
A estes dados, acrescenta a Gazeta de Lisboa que, à entrada das religiosas do Louriçal, “vierão assistir SS.MM. e AA. celebrando pontificalmente o Excellentissimo Principal Mello na nova Igreja que havia sido benzida, e se tinha celebrado nella pella primeira vez no dia 20” do mesmo mês370.
A este ponto, duas vias de transferência de uma mesma herança – secular e multímoda – se apresentam: uma, representada pela propriedade dos Angeja, informal e gratuitamente cedida ao Instituto do Louriçal; a outra, pelo percurso fundador das religiosas, ao firmar estatutariamente não só a religião observada como a elevação do espaço à categoria de Real Mosteiro e à de depositário, no mais amplo sentido, do testemunho que se visava transmitir.
369 Em 1795, o Marquês de Penalva assumia o cargo de escrivão da Irmandade dos Escravos do Santíssimo Sacramento, sendo tesoureiro D. Antão de Almada. (Cfr. Recibo da Irmandande do Escravos
do Santíssimo Sacramento de Santa Engrácia, CML/GEO MS-Mç 858).
370 Supplemento á Gazeta de Lisboa, n.º XLII, 24 de Outubro, 1783. A chegada das religiosas ter-se-á dado, segundo a notícia, no dia 22 de Outubro, e a entrada no mosteiro, no dia seguinte.