O PROCESSO NA VISÃO DE VILLALVA (2008)

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 41-0)

A linguista portuguesa defende que a formação de siglas é um processo distinto da acronímia. Para ela, a acronímia é, assim como a formação de siglas, um processo de redução, mas o seu domínio de intervenção é uma sequência de palavras. De acordo com a autora,

[...] em termos práticos, a acronímia consiste na criação de uma palavra a partir do(s) grafema(s) que se situa(m) no início das palavras que integram um título ou uma frase. A forma resultante é foneticamente realizada como um contínuo, e não como uma sequência de sons independentemente articulados (VILLALVA, 2008: 60).

Villalva ressalta que as propriedades gramaticais dos acrônimos, de um modo geral, “são herdadas das propriedades da palavra que constitui o núcleo sintático da expressão que está na sua base” (p. 60). Como exemplo, cita ONU (Organização das Nações Unidas), que é um nome feminino porque

“organização” é um nome feminino. Havendo desencontro, este pode ser causado pela perda de identidade entre a expressão de base e o acrônimo ou também pelo fato de o masculino ser o valor de gênero não marcado.

Outra informação apresentada pela autora diz respeito a empréstimos.

Para ela, muitos dos acrônimos disponíveis em português são empréstimos e principalmente anglicismos, como ocorre, por exemplo, em laser (light

42 amplification by simulated emission of radiation). Villalva estabelece, assim como outros autores, que a acronímia é um processo utilizado para a denominação de organizações, empresas e instituições, apesar de não ocorrer exclusivamente nesse domínio. Também nesse caso, segundo a linguista, encontram-se denominações formadas em outras línguas, porém empregadas em português, por se tratar de empresas ou organizações estrangeiras relevantes em Portugal ou no Brasil, tal qual ocorre em Fiat, para Fabbrica Italiana di Automobili di Torino.

Além desse aspecto, Villalva afirma que

[...] muitas das organizações internacionais ou fenômenos globalizados cujo nome é formado por acronímia com base numa expressão gerada numa língua que não o português podem ser designadas por esse acrônimo original ou por um outro acrônimo, formado com base na tradução portuguesa da expressão inicial (VILLALVA, 2008: 61).

Isso pode ser verificado em Nato (Northern Atlantic Treaty Organization) e Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), por exemplo.

Outra questão importante abordada na análise da linguista portuguesa é que, na passagem de língua para língua, há, por vezes, siglas que se transformam em acrônimos, como acontece em VIP (very important person), pronunciada letra a letra em inglês e como palavra, com epêntese de [ɪ] final, em português. A autora faz a ressalva de que esse fato também pode ocorrer em português, em que uma mesma sequência pode ser realizada como acrônimo ou como sigla, como ocorre em ONG, para Organização Não Governamental.

43 Após uma explanação a respeito dos acrônimos, Villalva passa a tratar especificamente das siglas, uma vez que, como já mencionado, a autora distingue esses dois processos. Para ela, “a formação de siglas também é um processo de redução de uma sequência de palavras, de um título ou uma frase, consistindo na sequencialização do primeiro grafema de cada uma dessas palavras ou radicais, separados ou não por um diacrítico” (p. 61) (a.C., para antes de Cristo, ou PR, para Partido da República). A realização fonética das siglas é soletrada. Da mesma forma que os acrônimos, as siglas identificam frequente, mas não exclusivamente, instituições, empresas e organizações.

De acordo com Villalva, há que se distinguir os empréstimos que resultam da adaptação da base ao português, como IMF (International Monetary Fund) e FMI (Fundo Monetário Internacional), dos casos em que a base original é preservada, como em CD, para compact disc.

Por fim, a autora salienta que as siglas podem ser ambíguas. Como exemplo, cita APL, que pode designar Administração do Porto de Lisboa, Associação dos Produtores de Leite ou Associação Portuguesa de Linguística.

Conforme Villalva, “a polissemia12 é uma propriedade de muitas palavras, geralmente resolvida pelo contexto, mas a proliferação do uso de siglas não deixa, em muitas circunstâncias, de ser geradora de situações de dificuldade de comunicação” (p. 62).

12 Villalva faz uso do termo polissemia. No entanto, julgamos que, nesses casos, o fenômeno em questão é o da homonímia, uma vez que tais formas não apresentam qualquer relação de significado.

44 3.4. O PROCESSO NA VISÃO DE SANDMANN (1988)

Tratando dos tipos especiais de formação de palavras, o autor parte da abreviação para explicar os acrônimos13. Ele os divide em três grupos, conforme a pronúncia para cada um dos elementos que os constituem e o tipo de formação.

O primeiro grupo é constituído por palavras formadas pelas iniciais das palavras-base e essas iniciais são soletradas: CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) e PT (Partido dos Trabalhadores).

O segundo grupo é constituído, assim como o grupo anterior, por palavras formadas pelas iniciais, com a distinção de que a pronúncia é a de uma palavra normal porque assim o permite a sequência de segmentos: CIP (Comissão Interministerial de Preços) e Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social).

O terceiro grupo é formado pelas chamadas “palavras silábicas”, pois não são formadas pelos segmentos iniciais, mas por grupos de sons das palavras-base: Funai (Fundação Nacional do Índio) e Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste). Abaixo, em (03), apresenta-se um quadro-resumo com a tipologia das siglas conforme Sandmann (1988):

13 Sandmann (1988) emprega apenas o termo “acrônimo”.

45 (03)

Tipo Formação Pronúncia Exemplo

1 letras iniciais soletrada PT (Partido dos Trabalhadores) 2 letras iniciais de “palavra

normal”14

Por fim, o autor salienta que existem formações que se diferenciam um pouco do tipo-base ou que são constituídas pela mescla dos três grupos enunciados anteriormente. Como exemplo, cita Unif (Unidade Fiscal), em que foram conservadas as duas primeiras sílabas do primeiro componente e o segmento inicial do segundo. Outro exemplo é Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes), em que EM e BRA, formados de acordo com o que foi postulado para o terceiro grupo, unem-se à palavra filme.

No próximo capítulo, abordaremos pesquisas relevantes que trataram do processo de formação de siglas no português brasileiro. Os trabalhos resenhados serão: Abreu (2004), Abreu (2006), Abreu & Rosa (2006), Rosa (2009b) e Abreu (2009). Cabe, no entanto, para encerrar este capítulo, relativizar uma informação amplamente destacada: a de que siglas são formadas na escrita. Se, por um lado, esse é o meio em que a maior parte das siglas se origina, por outro, há vários casos, sobretudo de eufemismos, oriundos da fala, a exemplo de CDF (cu de ferro) e FDP (filho da puta), em que a preposição participa da formação dos produtos. No entanto, não é apenas

14 As expressões que estão entre aspas na tabela foram empregadas assim por Sandmann (1988, p. 147).

46 nessa esfera que encontramos siglas sem respaldo na escrita. Tal é o caso de DR (discussão de relação), muito utilizada recentemente e nascida na fala.

47 4. PESQUISAS SOBRE A SIGLAGEM NO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Este capítulo expõe trabalhos acadêmicos (dissertação de mestrado, tese de doutorado e artigos científicos) bastante relevantes no que tange ao processo da Siglagem no português brasileiro. Na ordem, expõem-se as análises de Abreu (2004), Abreu (2006), Abreu & Rosa (2006), Rosa (2009b) e Abreu (2009). A última seção do capítulo aborda o fenômeno contemporâneo conhecido como “siglas reversas”.

4.1. O PROCESSO NA VISÃO DE ABREU (2004)

Em dissertação de mestrado intitulada Um caso de morfologia improdutiva no português do Brasil: a formação de siglas e de acrônimos, Abreu, na seção destinada à Introdução, distingue siglas de acrônimos. Para a autora, a sigla deve ser considerada “um caso especial de abreviatura em que intitulativos ou locuções substantivas são reduzidos às suas letras iniciais ou não, constituindo uma palavra” (p. 13). O acrônimo, por sua vez, deve ser considerado “um vocábulo formado pela reunião de letras, geralmente iniciais, de um intitulativo ou de uma expressão” (p. 13).

No que se refere à grafia das siglas, Abreu assevera que o emprego de pontos, modernamente, foi eliminado. Quanto ao emprego de maiúsculas e minúsculas, afirma que as siglas em cuja pronúncia ocorre a nomeação de letras são escritas apenas com maiúsculas: SMTU; UTI. Já os acrônimos, cuja pronúncia não nomeia letras, devem ser escritos apenas com a inicial

48 maiúscula se tiverem mais de três letras: Unesco; Inca. Apresentando três letras, o acrônimo será grafado com maiúsculas: CUT; ITA15.

Abreu afirma, além disso, que siglas e acrônimos apresentam flexão de número, que pode ser indicada pelo aspecto gráfico. Essa indicação de plural é feita pelo acréscimo do <S> minúsculo, como se vê em ONGs e CDs. Isso significa que siglas e acrônimos adquirem as mesmas características de um nome da língua, já que o acréscimo de <S> é o procedimento mais comum de flexão de número em português.

Outra peculiaridade explicitada pela autora é o acento gráfico, cujo emprego não é comum no que tange às siglas e aos acrônimos. Uma vez que siglas e acrônimos são formados por meio de um processo intencional, o emprego do acento poderia deixar o significado do termo mais opaco do que já seria originalmente. A sigla LBA (Legião Brasileira de Assistência), por se tratar de uma oxítona terminada em <A>, deveria receber acento gráfico. “A grafia da sigla com acento LBÁ dificultaria a retomada do significado por parte do usuário, já que, na palavra constituinte do intitulativo, não há acento nessa vogal” (p. 16).

No levantamento de problemas da pesquisa, a autora constata que não há possibilidade de se proceder à análise de siglas através de morfemas, uma vez que não existem critérios para decompor um acrônimo em unidades menores de som e significado, vindo daí o estatuto de processo não-morfêmico, como apontamos no Capítulo 2. Além disso, o acrônimo não possui base e afixos que permitam a comparação entre os elementos formadores.

15 Nesta tese, no que toca à grafia das siglas, adotamos a convenção exposta por Abreu (2004).

49 Cada formação de sigla é única dentro de um contexto determinado, já que seus constituintes – as letras – assumem um sentido em cada formação.

Outro problema levantado é que as unidades componentes da sigla não seguem ordenação específica, a não ser, na maior parte das vezes, aquela determinada pelos constituintes do sintagma original e a forma como estão alinhados:

“Em algumas formações, porém, ocorre na sigla o acréscimo ou a supressão de um constituinte do sintagma original, o que complica o quadro dessas formações, ao retirar o caráter de sequência que corresponde a uma formação sintagmática” (p. 39).

Para explicitar os problemas levantados, a autora cita, como exemplos, as formações MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), FMI (Fundo Monetário Internacional) e CVM (Comissão de Valores Mobiliários), nas quais a letra <M> aparece como [ˈẽ.mɪ] em posição inicial, intermediária e final, respectivamente. No primeiro caso, significa “movimento”; no segundo,

“monetário”; no terceiro, “mobiliários”. Como se pode notar, o significante [ˈẽ.mɪ] é o mesmo, mas o significado é opaco.

Já que não se podem decompor as formações acronímicas em unidades mínimas de som e significado, nem estabelecer comparações entre suas partes, nem estabelecer uma ordem que os constituintes da sigla pudessem seguir, a solução encontrada por Abreu é a proposição de que sigla é, na verdade, lexema.

Segundo Aronoff (1994), o conceito de lexema é separacionista, ou seja, lida com som e significado como sistemas independentes, ao contrário do conceito

50 de morfema, que está baseado na unidade de som e significado. Um lexema é um signo com forma e sentido, integrante de uma das categorias lexicais maiores, a saber: nomes, verbos, adjetivos/advérbios.

Na verdade, o lexema não é a soma de unidades de som e significado indissociáveis como a forma livre para os estruturalistas, antes sim, é um signo no sentido saussureano (ABREU, 2004: 40).

Como observa Abreu, a morfologia, de acordo com Aronoff (1976) e Aronoff & Anshen (1998), ocupa-se das palavras potenciais, e o léxico, por sua vez, ocupa-se das palavras existentes. O léxico lista o que não pode ser descrito por uma regra, o que é, portanto, excepcional. As palavras primitivas, por não terem estrutura morfológica, constituem um exemplo, uma vez que não se pode predizer seu significado, pois “não são derivadas, não provêm de outra existente na mesma língua e representam a arbitrariedade do signo” (p. 41). É o caso, segundo Abreu, da palavra “bola”, que tem uma forma particular, constituída por uma sucessão de sons, e também um significado particular. A união de significante e significado constitui um signo em português. A ligação entre forma e sentido é arbitrária, visto que não existe razão para que essa forma linguística particular seja associada a esse significado particular. Sendo assim, as siglas também devem estar inseridas no léxico, já que elas não têm estrutura morfológica e seu significado não é previsível. Além disso, também não podem ser descritas pelas chamadas Regras de Formação de Palavras (RFPs), nos termos, por exemplo, de Aronoff (1976) e Basilio (1980).

Abreu também faz considerações a respeito da relação entre a formação de siglas e a produtividade. Define-se produtividade lexical como a medida em que um determinado afixo é empregado na criação de novas palavras na língua. Produtividade, então, é “a formação de palavras novas por determinada

51 regra, que é chamada Regra de Formação de Palavras” (ARONOFF &

ANSHEN, 1998: 242). Por meio dessa regra, uma dada base receberia um determinado afixo e não outro por conta de (i) a regra só se aplicar a um tipo específico de base; (ii) o resultado da nova formação ter o significado previsto pelo falante; e (iii) ocorrer o “bloqueio”, ou seja, “a não ocorrência de uma forma devido à simples existência de outra” (ARONOFF, 1976: 43; ARONOFF

& ANSHEN, 1998: 239).

Como se viu, a produtividade das formações morfológicas está representada pelas RFPs. Basilio (1980), porém, estabelece que as regras que analisam itens lexicais chamam-se Regras de Análise de Estrutura (RAEs).

Basilio importa-se não apenas com os processos produtivos de formação de palavras, mas também com a verificação da estrutura de formas que há na língua e que não resultam de processos produtivos. O estabelecimento de RAEs é necessário, nas palavras de Basilio, “para que possamos solucionar os casos em que os falantes podem analisar a estrutura interna de palavras formadas por elementos morfológicos improdutivos” (BASILIO, 1980: 59). No que concerne às siglas, Abreu afirma que não configuram um processo produtivo através do qual o usuário possa relacionar elementos conhecidos e decifrar o significado. São, entretanto, criadas propositalmente, “com uma composição que varia de acordo com a intenção do criador e que não toma por base os elementos morfológicos das construções produtivas ou mesmo daquelas cuja estrutura é reconhecível” (p. 44). Por isso, as siglas são opacas e intencionais, mesmo que sejam frequentes. “A sigla foge do cânone morfológico por não ter raiz/sufixo/prefixo e porque não pode se prever a sigla que surgirá de um certo intitulativo” (p. 44).

52 Abreu defende que o conceito de frequência também está relacionado à quantidade de uso. As siglas originam-se de processos não produtivos, todavia são frequentes. Assim, a autora assevera que o termo “frequência”, em sua análise, deve ser encarado como ambíguo, pois pode ser relacionado ao número de vezes em que uma dada sigla aparece e também à quantidade de siglas que podem ser vistas hoje.

Outro ponto abordado na análise de Abreu diz respeito à noção de palavra, termo de definição complexa. Na análise, a pesquisadora emprega a proposta de Matthews (1972; 1991) e, como já afirmado, considera as siglas lexemas, uma vez que têm classe (a de nomes) e, como tal, têm gênero e, caso não funcionem como nomes próprios, número singular e plural. Como lexemas, as siglas podem originar novas palavras. No entanto, constituem um caso especial de lexema, pois, em princípio, não apresentam raiz, sufixo ou prefixo e, mesmo assim, possuem informação gramatical e lexical.

Outra questão importante levantada pela autora é o fato de o processo de formação de siglas ser marcado pela intencionalidade do criador.

Diferentemente do que ocorre nos processos de morfologia produtiva, as siglas são geradas de forma não intuitiva. Além disso, ao contrário da maioria das formações morfologicamente complexas, as siglas apresentam significado opaco, porque este só pode ser determinado pelo conhecimento prévio do usuário.

A semelhança das siglas com palavras primitivas – aquelas que evidenciam a arbitrariedade do signo – se dá, segundo Abreu, pelo fato de as siglas apresentarem significado opaco. Não se pode prever, por exemplo, que a sigla ANP esteja relacionada à Agência Nacional do Petróleo, pois não há

53

“regra capaz de exprimir como associar essa sequência sonora a esse significado” (p. 48).

Nas siglas, o bloqueio, nos termos de Aronoff (1976), ocorre não pela existência de outra forma concorrente, como na morfologia produtiva, mas por conta de uma formação inaceitável para os usuários, embora possível na estrutura. Há a necessidade de que uma nova formação acronímica conjugue

“som e sentido que se harmonizem com as intenções dos interlocutores, sem criar situações cômicas, embaraçosas e ambíguas” (p. 50). Como se nota, o bloqueio improdutivo resulta da intencionalidade. Como exemplo, Abreu cita as siglas CRM (Conselho Regional de Medicina) e Coreme (Comissão de Residência Médica), “em que, para se evitar a ambiguidade, já que pertencem à mesma área, optou-se por estratégias diferentes de formação” (p. 51).

No que diz respeito à indicação de categorias gramaticais, as siglas podem flexionar-se em número, como já tivemos oportunidade de ressaltar.

Com relação ao gênero, as siglas, normalmente, seguem o primeiro nome do intitulativo a que se referem, como ocorre em “o BNDES” (Banco Nacional de Desenvolvimento Social). A sigla, no entanto, pode sofrer variação de gênero quando o leitor-falante-ouvinte perde a noção da origem do acrônimo e de seu significado, como ressalta Villalva (2008). A sigla Cefet, por exemplo, significa Centro Federal de Educação Tecnológica e não é incomum que se ouça alguém dizendo algo como “Ele estuda na Cefet”.

Como as siglas permitem que novas palavras sejam criadas a partir delas, passam a ter o comportamento de palavras primitivas, como vimos.

Dessa forma, existe um lugar na morfologia para os derivados de uma sigla. Já

54 lexicalizada, a sigla passa a servir de base ao vocabulário que vai sendo gerado.

Abreu indica que, para petista, por exemplo, seria possível a aplicação da RFP e da RAE, uma vez que “nomes terminados em –ista podem ser analisados como sendo formados pela adição do sufixo –ista a uma base nominal” (p. 55). Nesse caso, o leitor-falante-ouvinte, como conhece o sufixo -ista, é capaz de interpretar a estrutura, mesmo não conhecendo a palavra petista e não tendo noção do radical pet-.

Nas conclusões da dissertação, a autora ratifica a ideia de que as siglas, por serem formações imprevisíveis, devem ser armazenadas no léxico, pois a morfologia só dá conta das palavras potenciais complexas. As siglas apresentam estrutura interna não analisável em raízes e afixos, ou seja, não apresentam características da morfologia produtiva.

Abreu aponta, ainda, que há uma intencionalidade determinante no processo criador, e as siglas são formadas a fim de atender a uma vontade do usuário. A formação de siglas, portanto, não reflete padrão algum estabelecido, nem estabelece uma conexão entre forma e sentido. Essa arbitrariedade aproxima essas formações das palavras primitivas da língua.

O aspecto da intencionalidade poderá originar sempre combinações arbitrárias. Sendo assim, ratifica-se que “não há como estabelecer regras (RFPs e RAEs) capazes de prever a formação desses nomes, que funcionarão como nomes primitivos” (p. 59).

55 4.2. O PROCESSO NA VISÃO DE ABREU (2006)

Em artigo intitulado “Focalizando a Morfologia Improdutiva: um estudo sobre siglas”, Abreu (2006) discute, pela perspectiva da morfologia, o processo de formação de siglas no português brasileiro. Na análise, a autora emprega sigla e acrônimo como sinônimos. A questão teórica central no trabalho é a ideia de produtividade lexical, já definida em 4.1. Voltando à distinção entre RFP e RAE, de Basilio (1980), Abreu observa que, se não estiver relacionada a uma RFP, a RAE permite exprimir que um falante pode reconhecer resultados de formações improdutivas.

As siglas são frequentes no português atual; contudo, o conceito de produtividade focalizado anteriormente não se aplica à morfologia das siglas como se aplica ao restante das formações. [...] Pode-se observar a frequência de siglas e constatar que elas surgem nos mais variados contextos, mas também se pode atestar a improdutividade morfológica, retratada no seu processo de formação. Assim, o conceito de frequência pode ser relacionado à quantidade de uso, mas não a uma previsão quanto à formação de palavras (ABREU, 2006: 12).

Como já visto no capítulo anterior, em (03), Sandmann (1988), com base no tipo de formação morfológica e na pronúncia, dividiu os acrônimos em três grupos. Ao contrário do autor, Abreu (2006: 14) considera apenas a formação (não a pronúncia). Essa determinação possibilita gerar seis tipos de formação, como se vê abaixo, em (04):

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Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística)

Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes S/A)

3 Letras iniciais ligadas por uma preposição por extenso.

PC do B (Partido Comunista do Brasil) 4 Letras iniciais + elemento que

Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica)

6 Sílabas ou segmentos de sílaba.

Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores)

Como se pode perceber na tabela exibida em (04), o primeiro tipo é

Como se pode perceber na tabela exibida em (04), o primeiro tipo é

No documento Universidade Federal do Rio de Janeiro (páginas 41-0)