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O que preocupava Cícero, o romano prático, era o fato de haverem os gregos criado dificuldades para o seu próprio programa relativamente ao doctus orator. Nos capítulos XV-XXIII do terceiro livro de De oratore, apresenta-nos ele uma história da filosofia desde o começo de seu próprio tempo, procurando explicar como vieram os filósofos profissionais a criar uma separação entre a eloquência e a sabedoria, entre o conhecimento prático e o conhecimento que professavam seguir pelo seu próprio mérito. Antes de Sócrates, o saber fora o preceptor de como viver retamente e falar bem. Mas com Sócrates veio a cisão entre a língua e o coração. Era inexplicável que, de todas as pessoas, tivesse sido o eloquente Sócrates quem desse início à cisão entre pensar sabiamente e falar bem: "(...) quorum princeps Sócrates fuit, is, qui omnium eruditorum testimonio totiusque judicio Graeciae cum prudentia et acumine et venus- tate et subtilitate, tum vero eloquentia, varietate, copia, quam se cumque in partem dedisset omnium fuit facile princeps (...)"
Mas depois de Sócrates, as coisas, na opinião de Cícero, agravaram-se. Os estoicos, a despeito de recusarem praticar a eloquência, foram os únicos de todos os filósofos a considerá-la virtude e sabedoria. Para Cícero, sabedoria é eloquência porque somente pela eloquência pode o conhecimento ser aplicado ao espírito e ao coração dos homens. Era o conhecimento aplicado que obcecava o espírito de Cícero, o romano, como depois observou o espírito de Francis Bacon. E para Cícero, como para Bacon, a técnica de aplicação do saber dependia, como o método romano de construção com tijolos ou blocos, da possibilidade de repetição uniforme e de segmentos homogêneos de conhecimento.
Se se introduz uma tecnologia numa cultura, venha ela de fora, ou de dentro, isto é, seja ela adotada, ou inventada pela própria cultura, e se essa tecnologia der novo acento ou ascendência a um ou outro de nossos sentidos, altera-se a relação mútua entre todos eles. Não mais nos sentimos os mesmos, nem nossa vista e ouvido e demais sentidos permanecem os mesmos. A interação entre os nossos sentidos é permanente, salvo em condições de anestesia. Mas qualquer sentido pode, quando elevado a alta intensidade, atuar como um anestésico para os outros sentidos. O dentista se utiliza agora do "audiac" — indução de ruído — para eliminar a sensibilidade. A hipnose funda- se no mesmo princípio de isolar-se um sentido a fim de anestesiar os demais. O resultado é uma ruptura da relação normal entre os sentidos, uma espécie de perda de
identidade. O homem tribal, analfabeto, vivendo sob a intensa pressão da organização auditiva de toda experiência, está, como se fosse, em estado de transe.
Platão, no entanto, que, à Idade Média, afigurava-se apenas o escriba de Sócrates, pôde, enquanto escrevia (4), voltar as vistas para o mundo não-alfabetizado e sobre ele assim pronunciar-se:
Levaria muito tempo para repetir tudo o que Thamus disse a Theuth em louvor ou crítica às várias artes. Mas quando chegaram às letras da arte da escrita, isto, disse Theuth, tornará os egípcios mais sábios e dar-lhes-á melhores lembranças; é um remédio específico tanto para a memória como para o espírito, ao que Thamus replicou: Ó engenhosíssimo Theuth, o pai ou inventor de uma arte nem sempre é o melhor juiz da utilidade ou inutilidade de suas próprias invenções para os que delas se servem. E, nesse caso, vós que sois o pai das letras, fostes, movido pelo amor paternal por vossos próprios filhos, levado a atribuir-lhes uma qualidade que não têm; pois essa vossa descoberta criará o esquecimento na alma dos estudantes, porque eles não se servirão da memória; confiarão nos caracteres escritos e exteriores e não se lembrarão de si mesmos. O específico que descobristes é um auxiliar não para a memória, porém para a reminiscência, e vós dais a vossos discípulos não a verdade, porém tão-só a aparência de verdade; eles serão ouvintes de muitas coisas e nada terão aprendido; darão a impressão de ser oniscientes e, em geral, nada saberão; serão uma companhia fastidiosa com aparência de sabedoria, sem a sua realidade.
Platão não revela aí, nem em qualquer outro lugar, nenhuma consciência de como o alfabeto fonético havia alterado a sensibilidade dos gregos; nem teve disto consciência ninguém em seu tempo ou depois. Antes de seu tempo, entretanto, os criadores de mitos, equilibrados entre as fronteiras do mundo oral da tribo e o das novas tecnologias de especialismo e individualismo, haviam tudo previsto e tudo disseram em poucas palavras. O mito de Cadmo diz como esse rei, que havia introduzido, na Grécia, a escrita fenícia ou o alfabeto fonético, havia semeado os dentes do dragão, e deles brotaram os homens armados. Isso, como acontece com todo mito, é uma formulação sucinta de todo um complexo social que se desenvolvera num período de séculos. Mas foi somente em anos recentes que a obra de Harold Innis desvendou inteiramente o mito de Cadmo. (Ver, por exemplo, The Bias of Communication e Empire and Communications.) O mito, à semelhança do aforismo e da máxima, é característico da cultura oral, pois, até que a alfabetização privasse a linguagem de sua ressonância multidimensional, cada palavra era em si própria um mundo poético, uma "divindade momentânea", ou uma revelação, como parecia aos homens não-alfabetizados. Em Language and Myth, Ernest Cassirer examina esse aspecto da consciência humana antes da alfabetização, ao analisar o alcance e a extensão dos estudos atuais sobre as origens e desenvolvimento da linguagem. Ao fim do século dezenove, inúmeros estudiosos de sociedades não-alfabetizadas começaram a alimentar dúvidas quanto ao universalismo, ou natureza a priori, das categorias lógicas. Hoje em dia, quando a função da alfabetização fonética na criação das técnicas de enunciar proporções ("lógica formal") é muito conhecida, há ainda os que supõem, e, entre eles, até mesmo alguns antropologistas, que o espaço euclidiano e a percepção visual de três dimensões
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constituem evidências universais da espécie humana. A ausência de tal espaço na arte primitiva é considerada por tais estudiosos como devida à falta de habilidade artística. Cassirer, referindo-se à ideia da palavra como mito (a etmologia de mythos indica que este vocábulo significa "palavra"), diz (pág. 62):
Segundo Usener, o nível mais distante até onde podemos chegar na busca da origem dos conceitos religiosos é o das "divindades do momento", designação que dá às imagens nascidas da necessidade ou do sentimento específico de um momento crítico (...) imagens que ainda trazem a marca de toda a antiga volatilidade e gratuidade de tais momentos. Mas parece que as novas descobertas, que a etnologia e a religião comparada colocaram à nossa disposição durante as três décadas posteriores à publicação do trabalho de Usener, nos capacitam a dar mais um passo à frente.