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CAPÍTULO 4 – A TRAJETÓRIA DE VIDA DOS PROFESSORES INVESTIGADOS

4.2. Professor Ailson: “O multi-instrumentista é esse cara aí, esse cara que sabe se

O segundo colaborador escolhido para narrar a sua história está inserido no contexto da Escola Especializada. A partir de conversas com colegas de curso que tiveram aulas de instrumento com esse professor, percebi a sua afinidade com o tema desta pesquisa e decidi entrar em contato para solicitar a sua participação. Como mencionado anteriormente e por ter sido o segundo professor a ser escolhido a sua entrevista foi a segunda a ser realizada.

O Professor Ailson não possui formação acadêmica superior, entretanto, fez vários cursos de instrumento com professores renomados nacional e internacionalmente. Ao iniciar a entrevista, ele definiu as cordas (violino, viola, violoncelo e contrabaixo acústico) e as percussões como seus instrumentos principais. No entanto, no decorrer do seu discurso apareceram ainda teclado, guitarra, cavaquinho, flauta doce, contrabaixo

elétrico e canto como instrumentos que utiliza tanto na performance quanto na docência. Além disso, afirmou ter crescido em um lar onde todos eram envolvidos com música: seu pai, sua mãe, seus avós, seus irmãos. Desse modo, seu interesse pela música vem desde criança, ele contou que ainda muito pequeno percebeu que um amigo fazia percussões com materiais não convencionais, como potes de margarina e tampas de panela, e surgiu nele a vontade de fazer a mesma coisa, sempre buscando materiais que possuíssem a sonoridade o mais parecido possível com instrumentos convencionais. Essa brincadeira foi tomando uma proporção maior e, juntamente com seu amigo, o Professor Ailson começou a reunir outros colegas da rua e formaram uma bandinha com instrumentos reciclados.

Nesse mesmo período da sua vida, em um dia enquanto brincava na oficina do seu pai, ele contou que se deparou com um violão antigo, sem cordas que estava largado em meio ao ferro velho e já naquele momento surgiu a vontade de estudar aquele instrumento. Segundo a sua fala, durante os primeiros anos de estudos musicais ele já perpassava por vários instrumentos diferentes, nesse período por exemplo, ele já aprendia violão com o seu pai, praticava noções percussivas junto aos amigos da rua e logo começou a transferir seu conhecimento de violão para a guitarra e a inseriu no projeto de banda com instrumentos reciclados.

Na sua adolescência surgiu a oportunidade de estudar música de uma maneira mais formal, no bairro onde morava iniciou-se um projeto social destinado ao ensino de instrumentos de orquestra para os adolescentes da região, sua mãe o matriculou nas aulas e nesse momento deu início à sua carreira como violoncelista.

Durante toda a sua narrativa foi possível perceber que o seu envolvimento com a música sempre foi diversificado, perpassou por diversos tipos de instrumentos e vários tipos de repertório, desde o universo erudito e popular. Além disso, o Professor Ailson relatou que sempre que aprendia algo novo começava a ensinar para os seus amigos próximos o que permitia unir seus conhecimentos da música erudita com a sua prática na música popular. Essa característica nos confirma as premissas do Rauber (2017) quando se refere que a aprendizagem do multi-instrumentista é mista e ele é capaz de relacionar os conhecimentos aprendidos em um instrumento a outro.

Esse projeto social do qual fez parte foi o responsável por abrir muitas portas em sua carreira. A partir de então, o professor Ailson teve a oportunidade de estudar com professores na Paraíba e participar da primeira orquestra jovem vinculada a Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN. Além disso, ainda adolescente começou a

participar de projetos ministrando aulas de violoncelo e a retirar dessas aulas o seu próprio sustento. Posteriormente, surgiu a oportunidade de prestar concurso para a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte - OSRN, onde obteve aprovação e exerce atualmente a função de violoncelista.

Entretanto, apesar de ter uma carreira estabilizada no ramo da Música Erudita, o Professor Ailson nunca deixou de lado a sua prática e os seus estudos autodidatas na Música Popular. Em seu projeto com os amigos da rua, por ser o único que estudava formalmente, começou a fazer arranjos e a ensinar um pouco da notação musical aos seus colegas e isso despertou ainda mais a sua vontade em estudar os conceitos musicais:

A questão dos arranjos, das estruturas musicais, como eles não ‘tinha’ orientação, eu ia passando o que eu aprendia e cada vez eu fui me interessando em pesquisar mais sobre música, né. Na música erudita era a minha base e eu conseguia fazer um mix com a música popular. Eu viajava nos dois universos, na música popular e na música erudita (Professor Ailson, abril de 2018).

Essa sua disposição em estudar música em toda a sua abrangência promoveu diversas oportunidades de atuação em sua carreira. Por exemplo, em um determinado momento, o tecladista da banda que integrava precisou se ausentar do grupo e, por já conhecer os arranjos, Ailson passou a substituir o colega. De acordo com o seu relato, por ser o arranjador da banda, ele já conhecia as vozes de cada instrumento muito bem e era capaz de tocar as canções em qualquer um deles. Ele relatou que, muitas vezes, precisou criar arranjos de cordas ou de instrumentos de sopro e ele mesmo os executava no teclado. Essa experiência foi narrada como “bastante enriquecedora” para a sua carreira, pois, além de criar os arranjos para cada instrumento, ele acabava passando os seus conhecimentos para os colegas, o que mantinha a preocupação em fazer música com qualidade:

Então essa banda foi um laboratório muito importante ‘pra’ mim na música popular, onde eu via tudo acontecer, eu via como eu orientava, eu via o contrabaixo, o que o contrabaixo fazia, o que o teclado fazia, o que a bateria fazia... E tinha um colega nosso que ele tinha um pouco de dificuldade de memorizar [...] aí eu disse: ‘rapaz, será que você consegue ler? ’. Aí eu desenvolvi uma escrita musical que ele conseguia entender. Era uma misturada de cifra e notação musical, era uma coisa assim mais ou menos, porque na realidade eu queria que ele ingressasse na notação musical porque era muito mais prático pra ele, mas como ele era limitado eu comecei devagarzinho com cifra, aí fui, e no final da história ele conseguiu alcançar (Professor Ailson, abril de 2018). Essas experiências o levaram a estudar música cada vez mais e a forma erudita era a fonte de busca para o domínio de todos os conceitos que ele precisava obter. Em sua

fala, foi possível perceber que a sua prática é movida pela vontade de fazer música com perfeição, e para ele, todos os detalhes da música são importantes:

Por que erudito quer dizer o que? Em busca da perfeição. Então eu tenho que ser o mais perfeito possível aqui quando eu escrever tonalidades, compasso, tudo. [...] E chegou um ponto que a coisa ficou muito séria, aí eu tive que estudar mais ainda, estudar harmonização, improvisação, comecei a estudar contraponto, comecei a estudar muita coisa, né, na música erudita (Professor Ailson, abril de 2018).

Além da atuação em orquestra e em banda, o Professor Ailson também fez diversos shows pela cidade, gravou discos com compositores regionais, nacionais e internacionais, sempre caminhando nessa perspectiva de unir a música popular e a música erudita. Para ele, ambas sempre foram extremamente importantes e dedicava a sua atenção igualmente às duas.

Com o passar do tempo, o passou a ser chamado para fazer parte de projetos sociais voltados para o ensino de música. Então, simultaneamente à sua carreira como performance popular e erudito, ele também começou a desenvolver a sua carreira docente, ministrando aulas em um projeto social na zona norte da cidade. Esse projeto era voltado para o ensino de música erudita com instrumentos de orquestra, apesar disso, após um pedido de seus alunos, ele começou a inserir arranjos de músicas populares no repertório e a sua prática passou a ser conhecida dentro da cidade. A partir de então foi convidado por amigos para fundar um outro projeto social de ensino de música onde começou a inserir arranjos de música popular para orquestra. Esse diferencial trouxe a oportunidade de viajar pelo mundo representando o Brasil em diversos festivais de música e levar a Música Popular Nordestina tocada por uma orquestra de jovens.

Entretanto, apesar de gostar de atuar como professor desses jovens, ele revela a desmotivação em relação a burocracia em relação à esse tipo de projeto e por isso surgiu a vontade de criar a sua própria escola de música.

Além de todas essas experiências com performance e ensino, o Professor Ailson relatou que também foi o primeiro professor de música dos seus três irmãos e que tocaram juntos em uma banda durante alguns anos de suas vidas. Foi possível perceber a sua euforia e o seu orgulho ao falar que seus irmãos também seguiram a carreira musical e são bem-sucedidos em suas atuações.

Outra experiência descrita por ele foi a participação em grupos musicais que atuam em eventos formais como casamentos e formaturas. De todas essas tarefas relatadas, a docência foi a que ele declarou ter mais felicidade em exercer e, em um

determinado momento da sua carreira, o Ailson se deu conta que estava trabalhando de domingo a domingo e se cansava das várias tarefas paralelas, pois muitas delas começaram a atrapalhar o rendimento das suas aulas. Foi então que ele decidiu sair dos projetos que integrava e junto com os seus irmãos criaram a própria escola de música. Inicialmente esse projeto começou na garagem da sua casa e hoje em dia a escola possui uma sala de teoria, uma sala estúdio para as aulas de instrumentos e um espaço utilizado para os recitais. Todos os anos, muitos alunos dessa escola são aprovados em cursos técnicos e superiores na Universidade Federal, além deles, muitos se tornaram líderes de ministérios de música, de grupos musicais ou atuam com performances em diferentes contextos musicais.

Hoje, o Professor Ailson atua em sua escola de música ministrando aulas de diferentes instrumentos, faz arranjos para orquestra e banda, e também atua como violoncelista da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte.

4.3. Professor Artur: “Eu me divirto muito tocando instrumentos musicais. E eu