O professor como pesquisador

No documento O diário de bordo como instrumento de reflexão crítica da prática do professor (páginas 45-48)

1.4 PROFESSOR COMO PROTAGONISTA, UMA TENTATIVA DE APROXIMAÇÃO

1.4.1 O professor como pesquisador

Autores estrangeiros como, por exemplo, Donald Schön, John Elliott, Kenneth Zeichner, Henry Giroux e António Nóvoa têm nos indicado a relevância da discussão a respeito da pesquisa realizada pelos professores da educação básica atrelada a sua ação profissional, pesquisa esta que parte do pressuposto ação-reflexão. A autora brasileira Menga Lüdke (2007)

defende que a possibilidade da pesquisa pelo professor poderia conferir ao mesmo “um

poderoso veículo para o exercício de uma atividade criativa e crítica” (p. 31) além de

configurar-se em um instrumento para questionar e propor soluções para os desafios nascidos de sua prática profissional, advindos do interior da escola ou exteriores a ela.

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Pimenta (2002), Ghedin (2002), Libâneo (2002)

12 Schön (2000), Elliott (1986), Zeichner (1993) , Giroux (1997), Stenhouse (1996) Freire (1996);

Essa ideia, do professor como pesquisador, foi retomada na Inglaterra, no final dos anos sessenta do século passado, e teve como referência o trabalho desenvolvido por Lawrence Stenhouse no Scholl Councils Humanities Project, que visava à melhoria das condições de aprendizagem dos alunos, especialmente dos considerados médios e abaixo da média. Antes dele outros pesquisadores já haviam indicado a relevância da pesquisa de professores relativa à sua prática como um aspecto relevante para a educação, conforme nos esclarece Diniz- Pereira (2002).

Stenhouse (1996) acreditava que todo educador deveria assumir uma postura de experimentador do cotidiano e transformar sua prática e sua sala de aula em laboratório. Segundo ele, a técnica e os conhecimentos profissionais podem ser objetos de dúvida, isto é, de saber e, conseqüentemente, de pesquisa. Ao defender a proposição do professor- pesquisador, o autor considerava que o professor deveria ter pleno domínio da prática pedagógica e para que isso se efetivasse o único caminho seria a investigação.

Elliott (1986) é considerado um dos maiores seguidores das ideias de Stenhouse. Seus trabalhos estão baseados nos pressupostos desse autor e apontam para a importância da pesquisa feita pelos professores como oportunidade de se buscar estratégias de mudança e transformação. O professor trabalha a partir da realidade concreta, do conhecimento já existente, elabora então suas hipóteses-ação e almeja relacionar teoria, prática e o contexto. Nessa perspectiva do professor pesquisador, os problemas de pesquisa só podem advir da prática. O objetivo principal não é só resolver o problema, mas compreender e melhorar a atividade educativa, de forma crítica e comprometida.

Ao tratar do professor-pesquisador, Dickel (2007) explicita que a pesquisa pode ser a possibilidade do professor se apropriar e responsabilizar pela direção de seu trabalho, e ainda, a possibilidade de comprometimento na busca de uma sociedade mais igualitária. Por isso, o professor-pesquisador trabalha no sentido de instigar em seus alunos a capacidade de

inventar um mundo alternativo (p.34). Desta maneira, a autora aponta que a perspectiva do

professor-pesquisador deve superar a preocupação somente do que acontece no interior das escolas, no sentido de uma visão romantizada da mesma, para desafios mais abrangentes, relacionados com as questões de justiça social.

Freire (1996) defende que a pesquisa é parte preponderante da docência, considera a relação entre elas como indissociável e destaca a necessidade da formação dos educadores contemplar essa premissa. A relação ensino-pesquisa traz em seu bojo a proposição de educação emancipatória. Segundo o autor, ao indagar sua ação pedagógica pode o educador caminhar em direção ao ensino transformador. Em suas palavras,

Fala-se hoje, com insistência, no professor pesquisador. No meu entender o que há de pesquisador no professor não é uma qualidade ou uma forma de ser ou de atuar que se acrescente à de ensinar. Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O de que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma, porque professor, como pesquisador (FREIRE, 1996, p. 32).

Esteban e Zaccur (2002) corroboram desse pressuposto quando propõem que a formação do professor-pesquisador seria a possibilidade de se instituir uma mudança na concepção de formação de professores ora vigente: formação em que prática e teoria se configuram como momentos dissociados, que não permitem o estabelecimento de relações entre os mesmos. Segundo as autoras, a formação de professores-pesquisadores permitiria a articulação entre teoria e prática e colocaria o questionamento como ponto central do processo de formação.

As autoras discutem também que é primordial que os professores se preparem para observar,

questionar e redimensionar seu cotidiano (p. 21). Enfatizam que esse movimento só pode se

concretizar por meio do constante diálogo prática-teoria-prática. A prática aponta necessidades, já a teoria ajuda a compreendê-las, em um movimento de interpretação que favorece o estabelecimento de alternativas que, por sua vez, geram novas práticas. Esse é um movimento circular que retroalimenta a teoria e a prática e que motiva a ampliação dos conhecimentos anteriores.

Ao tratar do professor-pesquisador somos impelidos a discutir acerca da pesquisa-ação – também reconhecida com as denominações: investigação na ação, pesquisa colaborativa, práxis emancipatória, entre outras. A pesquisa-ação seria o espaço de atuação do professor- pesquisador, ou seja, a pesquisa-ação é a problematização/investigação que o professor- pesquisador faz de sua própria prática profissional, seja no âmbito da escola, seja no âmbito da sala de aula. Lewin (apud DINIZ PEREIRA, 2002) destaca que “o caráter participativo, o

impulso democrático e a contribuição para as ciências sociais e para a transformação da sociedade” (p.12) são as características essenciais da pesquisa-ação.

Um dos seus papéis primordiais é desmistificar o lugar da pesquisa, dando reconhecimento e superando o lugar de menos-valia dedicado às pesquisas realizadas pelos professores.

Segundo Zeichner (2007) “professores são tradicionalmente vistos como sujeitos ou

consumidores da pesquisa feita por outros” (p.213). Um outro ponto relevante, segundo o

autor, é que os professores tendem a considerar as pesquisas feitas nos meios acadêmicos como desvinculadas da realidade das escolas e com pouco valor para a prática cotidiana. Ainda de acordo com sua opinião, a pesquisa feita pelos professores poderia ser reconhecida como mais próxima dessas realidades e por isso seus resultados poderiam ser melhor utilizados e contribuir para as mudanças necessárias.

No documento O diário de bordo como instrumento de reflexão crítica da prática do professor (páginas 45-48)