2 REVISÃO DA LITERATURA SOBRE PROTEÇÃO, POLÍTICAS SOCIAIS
2.2 PROGRAMA BOLSA-FAMÍLIA
2.2.2 Programa Bolsa-Família e a Condição da Mulher
Abordar o fenômeno da condição da mulher beneficiária do programa bolsa
família, bem com as relações de gênero é compreender que “o conceito de gênero é
usado tanto para distinguir e descrever as categorias mulher e homem, como para
examinar as relações estabelecidas entre eles” (CARLOTO, 2006, p.142), relações
essas baseadas em desigualdades, assimetrias e subordinação, portanto relações
construídas a partir de hierarquias e de poder.
Há que também enfatizar a importância do conceito de gênero, em especial
para análise de políticas, pois este enfatiza a construção social e política de cada
sexo, sua dimensão simbólica que se materializa em divisões sexuais, assimetrias e
hierarquizações reproduzidas institucionalmente, quer no plano macro – pelo Estado,
a igreja e o mercado – quer no plano de micropolíticas, pela família e a escola, por
exemplo. É quando o masculino e o feminino se desprendem de sexo, ainda que o
corpo e a sexualidade sejam referências importantes. Por exemplo, o homem tido
como “afeminado” é socialmente desprezado tanto porque “traiu” a prerrogativa de ser
superior, um homem, quanto porque “aderiu” ao campo dos inferiores, as mulheres.
Sendo o Bolsa Família um programa de transferência condicionada de renda
(PTCR), ele vai demandar algumas atividades para as mulheres que atuam como
principal responsável pela manutenção do programa, atividades essas que, segundo
algumas autoras, fixam papéis tradicionais de gênero.
De acordo com Lavinas (2012, p.33), uma das características desse programa
é identificar as mulheres como as beneficiárias titulares ou nominais da transferência,
na perspectiva de que, “no âmbito das relações de gênero, as mulheres promoveriam
um uso mais eficiente e efetivo de um relativamente pequeno alocado a família,
evitando assim desperdício e usos indevidos”, entretanto na prática cotidiana, o
Estado, a partir de suas políticas sociais reafirma posições de padrões tradicionais de
gênero.
Com essas práticas, o Estado está gerando, para as mulheres pobres,
beneficiárias destes programas, responsabilidades ou sobrecargas de obrigações
relacionadas à reprodução social. Entendendo como elementos básicos de
desigualdades entre homem e mulher a divisão sexual do trabalho e a subutilização
dos tempos sociais femininos, a partir do momento em que o Estado, através de suas
políticas sociais, gera trabalho reprodutivo e subutiliza esses tempos sociais
femininos, ele consequentemente determina um menor tempo dessas mulheres para
o trabalho remunerado, condição essa que, segundo Lavinas (2012), é determinante
para o autonomia das mulheres:
Não existe “efeito BF” na construção de uma percepção valorizante do trabalho remunerado feminino, que, no nosso entender, é central no processo de autonomização das mulheres no âmbito das relações assimétricas de gênero (LAVINAS, COBO, VEIGA, 2012, p.51).
Lavinas, Cobo e Veiga ainda reiteram esse posicionamento ao citar Chant
(2007) sobre pesquisas realizadas por essa teórica em três países em
desenvolvimento, onde é evidenciado que “só renda não é suficiente para operar o
empoderamento das mulheres” ou nas palavras de Chant, “gendered poverty goes
well beyond the question of income” (2007, p.337, apud LAVINAS, 2012, p.51).
Mais do que renda, as mulheres necessitam de inputs, entendidos como meios de desobrigar as mulheres de suas funções domésticas e reprodutivas no âmbito das relações sociais de gênero (LAVINAS, COBO e VEIGA, 2012, p.51).
Sendo assim, Araujo e Scalon vão tecer críticas às políticas sociais atuais
quando estas não consideram as transformações ocorridas nas famílias e nas
relações entre homem e mulher, principalmente considerando esses novos arranjos
familiares e a inserção da mulher no mundo do trabalho.
As políticas sociais pecam por não satisfazerem às novas necessidades das relações sociais em contexto em que homens e mulheres trabalham fora e até a idade madura; não existem mais famílias extensas, o envelhecimento da população é progressivo {.}. A ausência de uma contrapartida social e pública que ofereça redes de segurança e atenção gera um déficit de cuidado, particularmente no tocante a crianças, enfermos e idosos, com impactos especiais sobre as mulheres. Em contexto de precariedade socioeconômica, como no caso brasileiro, tal impacto tende a ser ainda maior. (ARAUJO e SCALON, 2005, p.22).
O programa traz consigo a ideia da maternidade e/ou maternagem quando ele
desenvolve mecanismos que reforçam a histórica associação das mulheres com a
maternidade e as atividades pertencentes à esfera reprodutiva. É importante salientar
que ao direcionar as mulheres ao cuidado vai se valorizando no programa aspectos
ligados à maternidade e à maternagem, percebendo-se, com isso, uma
desvalorização ou um “não lugar” às políticas sociais na área de creches, escolas em
tempo integral e outras políticas que abdicariam das ou desonerariam as mulheres
dos trabalhos relacionados ao cuidado e a esfera da reprodução.
Para Carloto e Mariano,
a mulher a partir de seus papéis na esfera doméstica ou de reprodução, tem sido, portanto, a interlocutora principal dessas ações, tanto como titular do benefício quanto no cumprimento das condicionalidades impostas (Carloto e Mariano, 2009, p?).
Reiterando o dito acima:
O Estado cobra das mulheres pobres a execução de tarefas relacionadas ao cuidado de crianças e adolescentes [...] Igualmente, convoca as mulheres para a participação em atividades extras, como, por exemplo: grupos de geração de trabalho e renda (com duvidosa potencialidade para a melhoria do bem-estar) e grupos de ações educativas, sendo estas via de regra, relacionadas às tarefas reprodutivas. (CARLOTO e MARIANO, 2009, p.902).