4 CULTURA
4.2 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO ESCOLAR POMERANA (PROEPO) E SEUS
4.2 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO ESCOLAR POMERANA (PROEPO) E SEUS
melhorias na educação de suas crianças. Segundo Hartuwig (2011, p. 123), o Proepo passou por várias reformulações e alterações de títulos, a saber: “A interferência do dialeto Pomerano na Alfabetização”; “Dicionário para escolas bilíngues”; “Dicionário para uma escola bilíngue” e “Projeto Pró-Pomerano”.
Depois de passar por várias mudanças, criou-se, em 2004, o Projeto de Educação Escolar Pomerana (Proepo), que a partir de 2005 se tornou intermunicipal e passou a acontecer em conjunto com as secretarias dos municípios de Laranja da Terra, Santa Maria de Jetibá, Pancas, Domingos Martins e Vila Pavão. Segundo Küster (2015), em 2007, o Proepo deixa de ser um projeto e passa a ser um programa de longa duração.
Figura 9 – Mapa com a demarcação dos municípios contemplados pelo Proepo
Fonte: Hartuwig (2011, p. 144).
Segundo Dettmann(2014, p. 51),“[...] o trabalho com a língua pomerana na educação infantil é articulado e consolidado nas diferentes áreas do conhecimento de acordo
com o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil [...]”. Já no Ensino Fundamental:
Nos anos iniciais do ensino fundamental, o programa segue o modelo da educação infantil, ou seja, a partir de Projetos Norteadores e também é desenvolvido de forma interdisciplinar integrado ao currículo instituído em consonância com os eixos temáticos. Nos anos finais do ensino fundamental a língua pomerana é assegurada em Lei, como disciplina obrigatória na grade curricular, e é ofertada em uma aula semanal de 50 minutos. Possui proposta pedagógica específica elaborada coletivamente entre os professores do programa (DETTMANN, 2014, p. 52).
O principal objetivo do Proepo é “valorizar e fortalecer a cultura e a língua oral e escrita pomerana”, (HARTUWIG, 2011, p. 148). Tendo como objetivos específicos:
I- Introduzir uma educação intercultural bilíngue (pomerano e português); II- Desenvolver nos alunos a habilidade de leitura e escrita na língua pomerana;
III - Compreender a importância da preservação da língua pomerana como veículo de transmissão cultural dos descendentes; IV - Proporcionar aos alunos acesso aos conhecimentos universais a partir da valorização da sua língua materna e saberes tradicionais; V - Valorizar a língua pomerana como elemento fundamental da identidade sócio-cultural no ambiente escolar, promovendo a auto-estima dos alunos; VI - Trabalhar a importância da língua pomerana e o modo de vida camponês como fatores de identidade étnica e cultural (HARTUWIG, 2011, p. 155).
O Proepo possui uma proposta que trabalha em favor da valorização e fortalecimento da cultura pomerana, e isso é de extrema importância para o processo de ensino e aprendizagem.
Para a concretização do Programa, se fez necessário pensar também na formação de professores nativos e aptos não só na fala, mas também na escrita que não se faz comum, já que o pomerano no Brasil é uma língua oral, segundo Tressmannn (2011).
Dessa forma, os professores se capacitavam da seguinte maneira:
No curso de formação, ministrado por etnolinguista, são realizados encontros quinzenais em que os professores se familiarizam com a escrita pomerana, estudam sua gramática descritiva bem como temas da sociologia e da antropologia social, e planejam atividades de ensino. Nos cursos são estudados: história da língua, gramática descritiva (noções de fonologia, morfologia, semântica e sintaxe), políticas linguísticas; são tratados, ainda, temas capitais da antropologia e da sociologia, como ritos de passagem, o conceito de cultura, o etnocentrismo, processos sociais, grupos sociais (categorias sociais, estereótipos), instituições sociais. Além dos cursos de formação, é tarefa do etnolinguista orientar os professores no que concerne aos conteúdos das aulas de Língua Pomerana a serem ministradas em sala de aula pelos mesmos/as, a partir da realidade sociocultural dos educandos.
Os planejamentos das aulas que serão aplicadas pelos professores nas escolas ocorrem semanalmente. Ademais, são ministradas palestras nas escolas, cujos temas enfocam aspectos da história da antiga Pomerânia, da
imigração, da língua pomerana e assuntos concernentes à cultura pomerana e ao Proepo (TRESSMANN, 2011, p. 31-32).
Pensar na formação de professores para dar andamento a uma educação de qualidade, em concordância com os aspectos culturais e da vida dos grupos tradicionais, é pensar no avanço e no respeito às diferenças. Professores capacitados para o exercício do trabalho conseguem desenvolver com firmeza e amparo suas atividades e assim contribuir para o desenvolvimento dos alunos.
Antes da implementação do programa, os pomeranos enfrentaram grandes desafios educacionais, já que não obtinham nenhum amparo, e a educação que deveria ser emancipatória, por outro lado desempenhava um papel repressor, tradicional e de exclusão social e cultural, pois:
Dentre as dificuldades mais preocupantes em relação à escolarização desses estudantes, destacavam-se: o alto índice de reprovação, professoras que não falavam Pomerano, subestimação da capacidade de aprendizagem dos alunos pomeranos, exclusão dos alunos das práticas escolares por não serem compreendidos em sua língua e nem compreenderem a língua portuguesa levando essas crianças a serem extremamente tímidas (KÜSTER, 2015, p. 41).
O Proepo foi uma conquista para os pomeranos, além de contribuir para o enriquecimento da tradição, promove um sentimento de pertencimento, já que “a valorização da língua materna nas escolas reflete aspectos positivos, principalmente porque preserva o sentimento de orgulho da criança em relação à sua língua materna e de seus pais [...]” (KÜSTER, 2015, p. 139). Além disso, o Programa promove o aprendizado oral e escrito da língua e contempla aspectos que vão além dos muros da sala de aula, pois:
[...] nota-se também que a aula de língua pomerana vai para além do espaço da sala de aula, como nas atividades do mural, e também nas comemorações e eventos realizados na escola, na qual a professora envolve as crianças com apresentações em língua pomerana, tais como, músicas, teatros, dentre outros (DETTMANN, 2014, p. 136).
O Proepo representa um ganho significativo para as famílias pomeranas, já que por vezes as gerações anteriores vivenciaram uma realidade escolar da qual não queriam que seus filhos fossem submetidos. É importante destacar que a educação é um direito, assim como a liberdade de expressão e a emancipação do conhecimento. Por isso, é importante o reconhecimento de estratégias que contribuam e mudam a realidade da vida de muitas pessoas.
A pesquisa nos permite assentir que o Proepo pode ser considerado um ato de liberdade de culturas tradicionais e locais porque cria estratégias de defesa à cultura tradicional, entendida por seus membros como culturas em movimento e não estanques em tradições, mas culturas contextuais onde a memória histórica é o elemento norteador básico (HARTUWIG, 2011, p. 175).
O Programa aqui em questão comprova o quanto a educação pode contribuir não só para o conhecimento científico, como também para o crescimento pessoal. A contextualização da realidade do aluno na escola faz com que o ambiente seja receptivo e mostra que cada indivíduo tem o direito a uma educação de qualidade, principalmente que respeite a diversidade cultural e corrobora para emancipação dos indivíduos. Para entendermos a atuação do programa no município de Laranja da Terra, passaremos aos procedimentos metodológicos, onde narramos os caminhos científicos percorridos neste estudo.