O Programa de Formação Integral da Criança (PROFIC) foi instituído pelo Decreto nº 25.469, de 07 de julho de 1986, e complementado pelo Decreto nº 25.753, de 28 de agosto de 1986, no Estado de São Paulo, no período (15/03/1983-15/03/1987), em que André Franco Montoro se encontrava como governador, e José Aristodemo Pinotti, como Secretário de Educação. Esse programa tinha o propósito de destinar verbas a escolas estaduais e municipais públicas e entidades privadas na condição de conveniadas para que realizassem atividades extraescolares no contraturno. Para além do período destinado à instrução formal, buscava-se incentivar a adesão voluntária das escolas a uma proposta de Educação Integral, em tempo integral.
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Esse programa visava atender crianças de 0 a 14 anos de idade por meio de quatro projetos, definidos adiante conforme a observação de documentos oficiais por Di Giovanni e Souza (1999, p. 80): “a) Formação integral da criança (0-2 anos); b) Formação do pré-escolar (2-6 anos); c) Formação integral do escolar (7-10 e 11-14 anos); e d) Atendimento ao menor abandonado”.
Dos quatro projetos apontados, só foram operacionalizados aqueles que se encontravam diretamente sob a responsabilidade da Secretaria de Educação, ou seja, o de “Formação do Pré-Escolar” e o de “Formação Integral do Escolar”; todos os demais não se desenvolveram, pois:
[...] “Não havia instrumentos precisos de seleção das crianças participantes; via de regra, as professoras indicavam seus alunos a partir de critérios aleatórios e muitas vezes subjetivos”. Uma vez finalizadas as atividades de um turno, o aluno passaria a participar de atividades complementares (artísticas, esportivas, de lazer, pré-profissionalizantes) no turno oposto, nas entidades conveniadas, sendo necessário para a seleção desses alunos apenas o critério socioeconômico e o desempenho escolar para garantir a vaga (FERRETTI; VIANNA; SOUZA, 1991, p.6).
Segundo as diretrizes oficiais do PROFIC, o projeto se desenvolveria por meio de ações intersetoriais, ações conjuntas, ou seja, parcerias entre as secretarias de educação, saúde, relações do trabalho, cultura e esportes e turismo. A primeira coordenaria todas as outras, de forma a combater a subnutrição, morbidade, o analfabetismo, a repetência, evasão escolar, o despreparo para o trabalho, a falta de enriquecimento curricular e de integração escola/comunidade, aplicando medidas necessárias à educação, nutrição, higiene, saúde, ao preparo para o trabalho e para a vida, como condições imanentes ao desenvolvimento da educação integral.
Esse foi o primeiro programa estadual de educação integral no Brasil que lançou mão da gestão intersetorial e de parcerias com o setor público (prefeituras) e o setor privado, para a concretização de seus ideais já na década de 1980. De acordo com Di Giovanni e Souza (1999, p.62), “[...] o Profic buscou deliberadamente parceiros no chamado terceiro setor e no nível mais descentralizado do poder público: o município [...]”.
Ampliavam-se as responsabilidades da Secretaria de Educação com ações que deveriam ser inclusive de outras secretarias de governo, sendo que, além das atividades educativas, aquelas voltadas à saúde também deveriam ser desenvolvidas como forma de melhorar a qualidade da educação.
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Esse programa entendia ser necessário que a escola ultrapassasse sua função pedagógica para além dos limites estabelecidos, como forma de melhorar a qualidade da educação e tornar as oportunidades educativas equivalentes a todas as crianças do estado. A escola passaria, então, a ampliar suas funções além da “instrução dos rudimentos do saber”, passando a incorporar a característica de instituição protetora e cuidadora, pois, segundo Fonseca (1986, p. 171), “[...] a questão de aprendizagem é menos uma questão de técnicas pedagógicas que uma questão do tecido social [...]”.
O programa deixou de lado uma discussão mais voltada para o âmbito curricular e pedagógico e passou a focar primordialmente em questões assistencialistas, buscando justificar sua efetivação e posicionando-se como a resolução dos problemas ocasionados pelas desigualdades sociais imanentes ao modo de produção capitalista.
Segundo Ferretti, Vianna e Souza (1991, p. 9), “na prática, a complementação curricular corporificou-se em atividades como reforço escolar, enriquecimento curricular (excursões, teatro, canto, dança, desenho e pintura, esportes e lazer) e pré- profissionalização, além de algumas aulas de higiene”.
O tempo escolar no total deveria ser no mínimo idêntico ao tempo de trabalho dos pais. Trata-se de uma proposta reparadora das condições impostas pelo modo de produção capitalista, ou seja, pela estrutura social vigente, mantenedora do conformismo populacional a partir de uma estratégia assistencialista, em detrimento de uma educação emancipatória. Para Fonseca (1986),
O PROFIC revela um compromisso social com as crianças mais pobres cujos pais precisam trabalhar e que, portanto, necessitam de uma escola de tempo integral. Coloca como prioridade o atendimento pré-escolar e, embora desviando de sua especificidade escolar, chama a atenção para o problema do aleitamento materno. Rompe com a preocupação exclusiva com a instrução e introduz o objetivo de atender integralmente a criança (FONSECA, 1986, p. 184).
O objetivo não era somente manter as crianças em um lugar seguro enquanto os pais trabalhavam, nem tão somente obter a satisfação destes, mas também impedir que essas crianças se tornassem futuros marginais que viessem a comprometer a ordem social. Ao que parece, há um certo alinhamento com certos ideais que foram materializados nos CIEPs, pois, entre outros aspectos, esse programa se importava primeiramente com os meios de sobrevivência, alegando ser “a vida anterior ao saber” e, portanto, atender essas necessidades primeiramente era condição sine qua non para o aprendizado.
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O que se apresenta como justificativa para a implementação de um programa dessa natureza tinha mais a ver com a realidade observada das famílias que se encontravam na condição de pobreza e miséria do que com elaborações teóricas que fundamentassem sua razão de existir baseadas na realidade. Para Fonseca (1986, p. 172), “Uma certa inconformidade com as injustiças socioeconômicas deram lugar à criação de um Programa sem no mínimo considerar os prícipios teóricos da área educacional”.
[...] No tocante à especificidade da escola, o PROFIC foi alvo de crítica por descaracterizar, no entender dos críticos, aquele que seria o papel específico dessa instituição, ou seja, transmitir o saber, atribuindo aos professores tarefas que não lhes competem ou, ainda, preenchendo o tempo complementar dos alunos nas escolas com atividades que não contribuem para elevar a qualidade do ensino (FERRETTI; VIANNA; SOUZA, 1991, p. 11).
A incorporação do projeto nas escolas foi criticada, uma vez que sua apresentação
acontecia de forma autoritária e sua implantação se dava sem consulta a professores ou pessoas especializadas na área. Outra crítica não menos importante dizia respeito ao momento eleitoral – seis meses para o final de mandato – no qual o estado se encontrava, demonstrando o âmbito político partidário no qual o projeto do PROFIC estava inserido, pois foi lançado no último semestre do governo, que já se encontrava em período de campanha eleitoral. Neste sentido, Di Giovanni e Souza (1999) confirmam esse fato, esclarecendo que:
[...] Não se pode deixar de registrar que, ao final do governo de Franco Montoro, o partido do governo (PMDB) detinha a maior parte das prefeituras do estado de São Paulo, e a maior parte de seus prefeitos estava envolvida na campanha sucessória. Tal fato, embora não tenha tido uma importância crucial na aceitação do Programa, teve, sem dúvida, um peso relativo considerável (DI GIOVANNI; SOUZA, 1999, p. 100).
O processo de adesão facultativa que se deu a implementação do programa não era algo que se materializava conforme as orientações. Isso porque existiam pressões vindas das secretarias de educação e dos diretores sobre os professores para que estes passassem a desenvolver o programa em sua escola.
Para uma reformulação desse porte na educação, haveria de se considerar as pessoas que trabalhariam com essas crianças. Desta forma, o projeto contava com “preparo de recursos humanos adequado” aos objetivos do projeto, envolvendo as faculdades de educação e os cursos de formação para o magistério de 1º grau e a cooperação do Estado com entidades religiosas para tratar dos problemas afetos ao “menor” (FERRETTI; VIANNA; SOUZA, 1991, p. 10).
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O desenvolvimento do programa nas escolas antes mesmo de completar um ano, meses depois de sua implantação, em 1986, já encontrara dificuldades para se manter devido à falta de amparo financeiro do governo estadual às escolas para manutenção das despesas com o PROFIC, conforme apontam Ferretti, Vianna e Souza (1991).
Outro fator também contundente diz respeito ao tempo em que programas como esse levavam para se consolidar e serem absorvidos pelos professores que implementariam todo o processo, detalhe esse que tão logo se encontrou comprometido, uma vez que a principal condição para o funcionamento real do programa não foi garantida. O investimento necessário ao desenvolvimento da proposta parece não ter sido o centro das atenções no planejamento, comprometendo todo o resto, inclusive a construção de estruturas físicas adequadas, que não saiu do papel.
Durante o período em que funcionou, o programa foi se descaracterizando, se reformulando e perdendo força. O número de alunos atendidos foi diminuindo. Na medida em que ocorriam as transições nos cargos de governo e de secretário da educação, o programa passava por uma nova reconfiguração. O PROFIC foi extinto no final do ano de 1993 por questões técnicas e políticas, mas principalmente pela questão do déficit orçamentário destinado à sua execução.
2.4 OS CENTROS INTEGRADOS DE ATENÇÃO À CRIANÇA E AO