Para uma navegação segura, toda embarcação de grande porte deve, quando aliviada de carga comercial, reestabelecer as condições de estabilidade, que lhe permitam enfrentar os elementos – mormente ventos e correntes – sem colocar em risco sua capacidade de navegação e sua estrutura. Esta estabilidade é alcançada a partir do preenchimento de reservatórios específicos com água do ambiente em que se encontra, dando-lhe “lastreamento”. A massa de água empregada, em termos de peso, habitualmente representa 30% da capacidade de carga da embarcação.
Todavia, a água empregada nesta ação – e, eventualmente, o sedimento a ela associado – pode carrear consigo grandes concentrações de organismos os mais variados, incluindo desde bactérias e vírus até larvas de crustáceos e moluscos e ovos ou juvenis de peixes. A consequente descarga desta água em outros locais, dentro da rota de navegação, acaba servindo como vetores no processo de contaminação biológica – ou bioinvasão, introduzindo organismos exóticos1 em
cadeias tróficas até então estáveis. Muitas vezes estes organismos acabam aproveitando-se de determinadas estratégias ou de condições ecológicas propícias para inserir-se nesta cadeia, provocando sérios desequilíbrios, que repercutem não apenas na questão ambiental, mas chegam a comprometer muitas atividades econômicas. Ainda sobre estas invasões, não se pode ignorar que muitos destes “invasores” apresentam algum grau de patogenicidade ou nocividade, intensificando ainda mais os riscos à natureza e ao ser humano.
Para contornar este que se tornou um dos maiores desafios de gestão de recursos naturais em escala global, entidades e órgãos de todo o mundo têm se empenhado para estabelecer regras e meios para prevenir ou atenuar estes riscos para as águas costeiras mundo afora. No Brasil, a Autoridade Marítima –
1 Sobre esta definição, importante contribuição dá o artigo 2º, III, da Instrução Normativa IBAMA 141/2006:
“Art. 2º.(...)
III - fauna exótica invasora: animais introduzidos a um ecossistema do qual não fazem parte originalmente, mas onde se adaptam e passam a exercer dominância, prejudicando processos naturais e espécies nativas, além de causar prejuízos de ordem econômica e social;”
Marinha do Brasil – em conjunto com as autoridades sanitária e ambiental, tem trabalhado a fim de apresentar possíveis soluções para minimizar os danos causados ao meio ambiente em função da captação, descarga ou da troca da água de lastro em locais considerados impróprios ou não autorizados. Dentre as ações estratégicas, destacam-se os esforços de Gestão de Água de Lastro, o controle e o monitoramento do deslastro e, principalmente, o estabelecimento de normas regulamentadoras relacionadas ao tema pela Autoridade Marítima.
Visando otimizar o gerenciamento da água de lastro dos navios que aportarão ao Complexo Estuarino de Paranaguá, é proposto o presente Programa de forma a possibilitar a verificação e o acompanhamento do cumprimento da NORMAM-20 da Diretoria de Portos e Costas, Norma da Autoridade Marítima para Gerenciamento da Água de Lastro.
Por outro lado, cabe aqui uma ressalva: como preconiza a mesma instrução normativa, quando apresenta o arcabouço jurídico que determina as competências dos agentes envolvidos, fica claro que à Autoridade Portuária não cabe cumprir qualquer ação fiscalizatória. Sendo assim, o presente Programa deve, na medida das possibilidades, contribuir para a estruturação de instrumentos de gerenciamento e controle, ficando a cargo da Autoridade Marítima, no caso, à Capitania dos Portos do Paraná, a execução dos procedimentos fiscalizatórios. Neste sentido, propõe-se que na condução do Programa seja incluída uma avaliação dos organismos que possam provocar, nos portos de destino, riscos de desequilíbrio ambiental ou de contaminação.
11.2. Objetivo
Em relação ao Complexo Portuário da Baía de Paranaguá, a melhor forma de contribuir neste processo, como preconizado na NORMAM 201, compreende a
ampliação dos procedimentos listados nos subprogramas de monitoramento das comunidades planctônicas e bentônicas, de forma a identificar a ocorrência de organismos considerados invasores ou exóticos ao Complexo Estuarino de Paranaguá. Ademais, deverá prever ensaios nas amostras de água em busca de organismos patogênicos como bactérias e vírus. Desta forma, permitirá à Autoridade Marítima nortear os procedimentos para captação de água utilizada como lastro para embarcações que estejam saindo dos domínios do CEP.
11.3. Metodologia
O planejamento das ações exigirá discussão entre a Autoridade Portuária e o IBAMA, já que a implementação deste tipo de Programa ainda passa pela fase de desenvolvimento e ajuste. Entretanto, deverá considerar as medidas já propostas no Programa de Monitoramento da Biota Aquática (item 3), aproveitando os esforços amostrais para a identificação de organismos que possam caracterizar a efetiva bioinvasão do CEP.
Outra ação que deverá ser contemplada, mediante anuência do IBAMA, é a definição de pontos amostrais e a avaliação da ocorrência de organismos que possam, na eventualidade de coletados no processo de lastreamento dos navios, colocar em risco as regiões para onde seguem as embarcações. Neste grupo de organismos, deverão ser prioritariamente contemplados aqueles que apresentem características ecológicas sugestivas de provocar impactos em outros locais para onde sejam levados pelo processo. Também deverão ser incluídos registros de
1 NORMAM 20, capítulo 2, item 2.3.3:
i) o Agente da AM deve, sempre que dispuser de informações fornecidas pelos órgãos ambientais, de saúde pública, ou ainda, de universidades e instituições de pesquisa, comunicar às agências marítimas a respeito de áreas sob a sua jurisdição, onde os navios não deverão captar Água
de Lastro devido a condições conhecidas (por exemplo, área ou áreas conhecidas por conter eventos de florações, infestações ou populações de organismos aquáticos nocivos e agentes patogênicos). Quando possível, o Agente da AM informará a localização de qualquer
área ou áreas alternativas para a captação ou descarga de Água de Lastro, bem como as áreas onde realizam-se dragagens. Tais informações, futuramente, estarão consolidadas em um Plano de Gerenciamento da Água de Lastro dos portos;” (grifo nosso)
outros organismos, mas neste caso de patógenos, tais como vírus e bactérias, os quais poderiam contaminar as águas e provocar problemas de saúde pública.
11.4. Cronograma
Programa/Ações de implantação Meses
01 02 03 04 05 06 07 08 09 10 11 12 Definição da metodologia com discussão
conjunta com o IBAMA
Prazo a ser definido pelo IBAMA Contratação de equipe habilitada
Contração do(s) laboratório(s) de apoio Preparação da equipe (mobilização)
Definição malha amostral e freqüência de coletas Inclusão das ações de monitoramento no escopo do Programa de Auditoria Ambiental
Execução das amostragens
Análises laboratoriais e emissão de laudos Elaboração de relatórios técnicos
12. PROGRAMA DE AUDITORIA AMBIENTAL