4. O Pânico na TV: enquadrado e enquadrante 91
4.2. O Pânico na TV nas edições analisadas
4.2.2. Programa 2: O dia da Playboy de Mônica Veloso
Bonitinhos e bonitinhas, diretamente dos estúdios da Rede TV! vai começar agora o programa que não é horário de verão mas faz você perder a noção das horas. A partir de agora está no ar o Pânico na TV!
Esta convocação, assim como a do primeiro programa, não está relacionada com o que vai ser a temática recorrente da edição. Ela tem caráter mais factual, uma vez que faz referência ao horário de verão no primeiro domingo em que ele entrou em vigência no ano de 2007. Porém, e a partir disso, a convocação faz uso do factual associando-o à capacidade que o programa tem de entreter ou de confundir, de fazer perder a noção das horas.
O tema da edição, o assunto a que sempre se referiam ou anunciavam que “já...já...” os telespectadores veriam, fica guardado para o final da saudação-sumário de Emílio Surita e é também factual. Vejamos:
Muito boa noite, (assovios, palmas e ovação da platéia) querido telespectador. (Bola: Aê!...) Muito obrigado a vocês. Muito obrigado a vocês, Muito obrigado a você. Hoje um programa magnífico, eu diria. (Bola: Ótimo.) (Sabrina Sato:
Sério?) Vocês vão ver a Festa de Canela. Vesgo e Sílvio descobriram um novo gás. (Bola: Que que é isso?!) Você vai ver como os cantores estarão se apresentando hoje aqui no Pânico. (Bola: ai, ai, ai…) Tem o Baixas Horas. (assovio) Mendigo e Quietinho acabaram de chegar de Búzios. (Bola: beleza, hein?) As garotas de Búzios nesse final de semana prolongado. Um Vô Num Vô inédito muito bacana. E o presidente aqui está. (assovio) Ele foi conferir o lançamento da revista de Mônica Veloso. (Sabrina: Olha…) E ela também ficou brava com os nossos políticos (Bola: Ficou, ficou.) (Sabrina: Sério?) Tá muito bacana. Está no ar (Gluglu: Aêêê…!) mais uma edição do Pânico na TV.
Mais uma vez o quadro “Vesgo e Sílvio” aparece em destaque nesta apresentação. Além destes, também foram privilegiados o “Baixas-Horas”108, O “Vô Num Vô”, com as garotas de Búzios, e o tema da edição: o lançamento da revista Playboy cuja capa traz Mônica Veloso. Ao anunciar o tema, Surita acrescenta uma promessa: a de que iremos vê-la “muito brava” com os políticos do Pânico na TV (Presidente Muvê-la109, Bob Jeff, e o deputado Clô).
Apesar de não na mesma ordem, todos os quadros citados na saudação-sumário estiveram presentes na “escalada”. Além destes, o sumário editado anunciou também o “Meda”, com Christian Pior e Robaldo Ésperman “agitando” a Oktoberfest. “Agito” e “aventura” (vide os atores de filmes de ação citados) complementam a promessa da edição, que estará cheia de “absurdos”.
Loc em off com entonação exagerada:
Esqueça as perigosas aventuras de John Rubble, toda a frieza de Chuck Norris, a sagacidade de Charles Bronson e veja hoje no Pânico na TV. Mendigo, Mano Quietinho e o Vô num Vô desta vez nas praias de Búzios. Meda. Christian Pior e Robaldo Ésperman agitando a Oktoberfest. O presidente Mula e sua turma de políticos no lançamento da Playboy de Mônica Veloso. Eles não desistem. Serginho Gosma e o Papito Xupla curtindo a noite no show do cantor Frank Aguiar. Vesgo e Sílvio no Festival da Música Nacional em Canela. E mais um carro no Lance Perfeito.Tudo isso e mais alguns absurdos hoje, no Pânico na TV.
Assim como na edição passada, os três primeiros blocos foram dedicados a merchandisings, anúncio das atrações do programa e do tele-leilão que promovem. No quarto bloco, também desproporcionalmente maior que os demais (1 hora e 34 minutos), as atrações começam a ser apresentadas. O “Vô Num Vô”, como anunciado, mostrando as garotas de Búzios ocupou 13’30’’. Outro quadro, com a mesma proposta – a de exibir
108 A atração “Baixas Horas”, apesar de anunciada, tanto na saudação de Emílio quanto na “escalada” não foi ao ar.
109 Assim como aconteceu na edição passada, o ator que interpreta o Mendigo, personagem mais comum nas gravações ao vivo, estava fazendo outro personagem para se enquadrar na temática do dia: O Presidente Mula.
corpos femininos em trajes de praia – ocupou 15’00’’ e não havia sido anunciado: o “Dô Num Dô” em Ibiza. O que vemos é uma montagem, com poucas novas cenas, deste quadro
tal como foi exibido na edição anterior110. Uma das poucas novas cenas incluídas mostra
uma interessante fala de Christian Pior que, ao pedir para uma mulher de biquini dar uma voltinha, diz:
Dá uma voltinha. Turn around. Pára [quando a voltinha põe em close as nádegas da mulher]. Pára que a audiência aumenta. 9 pontos, 10 pontos, 11 pontos, 12 pontos, 15 pontos, 16 pontos, Emílio!
Esta fala nos reforça a idéia de que o Pânico na TV não se incomoda em literalizar a lógica televisiva de que faz parte. Além disso, o tom de bate-papo geral também se reforça, com Christian Pior se mostrando em diálogo direto com Emílio – mesmo com aquele estando em Ibiza (em uma atração gravada e editada) e este no estúdio para o programa ao vivo. O tom de euforia de Christian parece também sugerir como ele, um bom funcionário, está fazendo seu trabalho a contento do patrão.
A atração de maior duração foi “Vesgo e Sílvio” (19’41’’). Eles foram à cidade de Canela (RS) para cobrir o Festival da Música Nacional, levando um tipo de gás (o hexa-cloreto de enxofre) que engrossa a voz, e pedindo para os cantores presentes cantarem após inalarem o tal gás.
Outra atração anunciada foi o “Meda” na Oktoberfest. Este quadro, que ocupou 12’37’’ do quarto bloco, se resumiu a Christian Pior e Robaldo Ésperman interpelando, com zombaria, as pessoas nesta festa de Blumenau. Ou, nas palavras de Christian Pior, que em determinado momento da “matéria” se aproxima da câmera, como que para estabelecer um contato “direto” com o espectador, e diz:
É tão bom zoar os outros... E ainda ganhar por isso...
Como última atração do quarto bloco, a mais alardeada ao longo do programa, aparece a “cobertura” que os políticos do Pânico fizeram da festa de lançamento da Playboy de Mônica Veloso. Esta atração, diretamente ligada à pauta da época e, em
110 Nosso Programa 2 foi ao ar no domingo 14 de outubro de 2007, em um final de semana prolongado pelo feriado do dia 12 (sexta-feira). Percebemos que uma atração anunciada, o “Baixas Horas”, não foi ao ar e uma não anunciada, o “Dô Num Dô”, entra no ar com uma base muito parecida com a que havia sido exibida no Programa 1. Acreditamos que, devido ao feriado, a produção não teve como terminar a edição da atração anunciada e retransmitiu, com poucas diferenças, uma atração já apresentada.
especial, da semana, nos chamou a atenção pelo intrincado jogo que promoveu entre informação, entretenimento e política, além de se questionar sobre critérios de celebrificação. Por isso, trataremos esta atração com mais cuidado em nossa análise de enquadramento.
No quinto bloco do programa, a apresentação de uma promoção nos despertou interesse. Trata-se do Pânico no Navio. Emílio explica que os programas que vão ao ar em janeiro não são ao vivo e serão gravados em um navio. Depois de anunciar as atrações que se darão durante estas gravações, convoca o público para entrar em contato com a agência de turismo que está organizando o cruzeiro. As pessoas interessadas podem comprar os pacotes para participar do cruzeiro e das gravações. Mas não é só isso, uma cabine para duas pessoas será oferecida, conforme explica Emílio:
Só que é o seguinte. Só que é o seguinte. A gente vai dar uma cabine para um telespectador. (Sabrina: Ah é?) Então é o seguinte. Para você ganhar uma cabine com um acompanhante, você tem que convencer um famoso a fazer a Dança-do-siri. (Bola: É isso aí.) Certo? Nós vamos escolher a pessoa mais importante.Você vai lá e convence. (Bola: É isso aí.) Você encontra alguém na rua e grava. Depois você manda pra [email protected]. O endereço pode baixar no You Tube, você manda lá o link ou a foto. (Bola: É isso aí.) Você pode mandar tudo pra [email protected]. A pessoa que nós considerarmos a mais
famosa, fazendo a dancinha do siri, (Bola: Boa. Boa) vai com a gente pro Pânico
na TV.
Ficamos em dúvida quanto a veracidade da promoção, pois logo após anunciá-la, Emílio se despede da platéia e diz para aqueles que têm vontade de participar nas transmissões ao vivo:
Se você quiser vir aqui como essa galera, temos um e-mail que é [email protected]. Você manda [email protected]. Você pode vir aqui como essa rapazeada. E depois tem um detalhe: nós pagamos um jantar para vocês. (Bola: É isso aí. É isso aí) (Sabrina rindo: Ah é…). E nós pagamos no Fasano (Sabrina rindo: pagamos…) (Bola: é outro padrão. É outro padrão) Abraço para o Roberto Fasano, para a equipe do Fasano, esperando-nos nesse belíssimo restaurante. Agora vamos todo mundo pra lá (Bola: Vamos embora. Vamos jantar.). Gente, muito obrigado pela audiência (Bola: Valeu, rapazeada) (Sabrina: Tchau, gente…) … Valeu.
A promessa de jantar no Fasano, sabemos que é falsa. Não só por ele ser um sofisticado e caro restaurante paulistano, mas também pela risada de Sabrina, que funciona como um claro marcador da ironia do que está sendo dito. Porém, a promoção para participar do Pânico no Navio, independentemente de ser falsa ou verdadeira, nos chamou
a atenção por alguns motivos. Primeiro, por se dirigir a um público familiarizado com e-mails, links, You Tube, etc e por incitá-lo a produzir conteúdo. Segundo, pelo tipo de conteúdo que se pede para que o público produza: perseguição a famosos no intuito de convencê-los a dançar a Dança-do-siri. Algo que o programa faz, lembremo-nos da campanha “Dança, Galvão. Dança a Dança-do-siri”. Por fim, pela declaração da existência de uma hierarquia entre famosos que segue critérios que eles, do programa, escolhem.
Nosso Programa 2 pôs em destaque: a exposição de corpos femininos, a ridicularização do outro – populares ou famosos –, a aderência à pauta pública e o convite para que o público produza conteúdo seguindo um modelo do próprio Pânico na TV.