3 COSMOPOLÍTICA RELIGIOSA: COMPREENSÃO E REGULAÇÃO DA VIDA NAS RUAS
3.1 CONSTITUINDO-SE COMO RELIGIOSOS
3.1.3 PROJETO AMOR: FALAR COM DEUS
O Projeto Amor é uma iniciativa da Igreja Batista, que realiza uma atividade de acolhida para pessoas que vivem nas ruas. Às sextas-feiras tais pessoas são recebidas nas instalações da igreja, onde podem banhar-se, ganhar uma troca de roupa limpa, alimentar-se e receber orações. Aqueles que manifestam interesse em buscar internação são identificados por um membro da igreja, que se encarrega de procurar vagas em comunidades terapêuticas ou casas de acolhida. Embora a Igreja Batista não possa ser classificada como uma denominação pentecostal, o que fica evidente no modo peculiar como acolhe as pessoas que vivem nas ruas, é que seu trabalho se aproxima de tal segmento, à medida que fazem com eles parcerias para abrigar os que vivem nas ruas e por serem interpretados por estes mais ou menos em uma linha de continuidade, tanto com os evangélicos pentecostais quanto com os carismáticos. De tal maneira, é possível afirmar que a Igreja Batista compõe o quadro de expansão evangélica sobre a vida nas ruas.
Conheci-os na praça Raposo Tavares. Por volta das oito da noite, depois que duas instituições religiosas já tinham estado na praça, eles chegaram para entregar o restante dos alimentos que não haviam sido consumidos na igreja mais cedo. Fiz um contato rápido com o grupo e combinei de fazer uma vista na semana seguinte. Este encontro possibilitou a identificação dos padrões de construção religiosa desse grupo feitos na interface com pessoas que vivem nas ruas. A atividade de acolhida de moradores de rua cria e mobiliza um número significativo de sujeitos que encontram naquela prática um modo de vivenciar sua fé religiosa.
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A acolhida, o banho, a alimentação e a oração garantem a legitimidade para que, ao final do encontro, eles possam se reunir e, em mais uma atividade de oração, proferir eles próprios as suas preces com o sentimento de que fizeram o melhor para Deus, o que também os credenciam perante o divino para pedirem o que precisam. Também a minha presença neste espaço possibilita compreender a construção de alguns pressupostos religiosos.
Antes de ir embora, dialogando com Walter, um dos membros do projeto, falo a ele sobre minha pesquisa e meus interesses em conhecer as motivações deles para a realização daquele trabalho. Ele, então, me fala: “você quer saber o que nos motiva? Aguarda só um momento”. Vai até o carro estacionado próximo de onde estávamos e volta com um exemplar do Novo Testamento106 e me entrega. “Está vendo? É isso que nos motiva, o que nos impulsiona é o Evangelho de Jesus Cristo”. De fato, tal atividade, como uma típica igreja cristã, busca seus fundamentos na mensagem bíblica e especialmente nos Evangelhos, que são a parte bíblica em que se concentra a vida e as mensagens de Cristo. Seria, portanto, para obedecer aos ensinamentos ali presentes que tal projeto seria desenvolvido.
Intitulado Projeto Amor, esta atividade pretende colocar em prática este princípio segundo uma interpretação religiosa, o que faz com que ele venha acompanhado de uma exigência de mudança de vida e conversão religiosa. É o amor que os impulsiona a acolher
moradores de rua, mas é o amor que traz consigo uma série de regras de conduta, as quais
eles próprios esforçam-se por viver. O objetivo final é que as pessoas ali acolhidas igualmente passem a praticar seus princípios e regras morais, entre as quais a conversão religiosa, o batismo, o abandono de práticas consideradas pecadoras, como o consumo de drogas e a frequência à igreja.
Minha presença na atividade também é objeto de elaboração religiosa e o modo como fui interpelado possibilita identificar alguns pressupostos de sua crença. Ao saberem que eu era universitário, a primeira pergunta lançada a mim foi se eu sou ateu, logo depois de afirmar que isso seria muito frequente nas universidades. Minha resposta foi negativa. A seguinte pergunta indaga se eu frequento alguma igreja. Respondo que não e digo que, embora minha formação seja católica, não frequento nenhuma instituição religiosa. Segue então o seguinte comentário de quem não quer entrar em picuinhas religiosas: “o importante é acreditar, o que salva as pessoas não são denominações religiosas, mas a fé”.
O primeiro pressuposto desta pergunta é a cisão que ela concebe entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que não acreditam. Está inscrito também o pressuposto da
106 Segunda parte da Bíblia, na qual estão os Evangelhos, os quais narram os feitos de Jesus Cristo, sua paixão,
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crença no Deus cristão. No fundo era sobre isso que eu era interpelado. Esperavam de mim uma resposta. Receavam por uma réplica negativa, dado o fato pressuposto de que na universidade muitos seriam ateus. Também não esperavam um retorno que indicasse prática de alguma religião não cristã. Além disso, a crença não se apresenta apenas como uma questão religiosa, mas também uma questão moral, por meio da qual se analisa o caráter da pessoa e se toma decisões a respeito dela. Claramente, a afirmação a respeito da importância da pertença a alguma religião distingue e hierarquiza os que creem dos que não creem.
Não é possível saber se uma possível declaração ateia teria colocado maiores obstáculos em minha participação, ainda assim ficou visível que minha experiência religiosa – ainda que pregressa – e certo conhecimento da linguagem religiosa cristã me ajudaram na administração desta relação. Depois de examinadas as minhas bases religiosas e morais, segui acompanhando tal atividade de maneira cooperativa e bastante serena. Acolhiam-me com respeito e alegria e aceitavam uma leve cooperação minha com as atividades semanais. Parece-me que a compreensão do que eu fazia ali jamais se deu por completa, dado o diminuto conhecimento das pesquisas acadêmicas, especialmente as etnográficas. Ainda assim, havia uma representação sobre mim de alguém que de alguma maneira se podia confiar, provavelmente porque me viam como diferente de outros acadêmicos e professores, embora eu não possa precisar ao certo qual o grau dessa diferenciação. Isso se tornou evidente especialmente em uma situação com o filho de um dos realizadores do projeto. Um garoto de uns quinze anos mais ou menos estava acompanhado de um colega de escola ajudando nas atividades de acolhida. Durante a conversa com eles surgiu a informação de que eu era professor de sociologia. O filho do líder da igreja então afirma para o seu colega: “nem todo professor de sociologia é louco”.
Após a partida de todos os moradores de rua, os membros do Projeto Amor se reúnem em sala para fazerem uma oração de encerramento. Convidaram-me para participar, o que me possibilitou observar, de outra maneira, como a atividade de acolhida às pessoas que vivem nas ruas contribuía com sua constituição religiosa. Seguindo a Bíblia e os Evangelhos, fontes de inspiração para eles, estariam fazendo a vontade de Deus ao acolher e ajudar
moradores de rua. A oração funcionava como uma forma de ritualização da atividade de
acolhida, de conexão dela com o divino e como uma oportunidade para apresentar preces a Deus para melhorar algum ponto da vida pessoal.
Antes de iniciar a oração, Ernesto, um dos membros do projeto me explicou que ali fariam uma oração diferente das que eu conhecia na Igreja Católica. Ele me disse que não “é aquela coisa de reza, aquela coisa repetitiva. Nós oramos, conversamos com Deus,
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diretamente e livremente”. De fato, o encontro parecia bastante descontraído e pouco formalizado. Sou apresentado a eles entre uma prece e outra. Várias pessoas que trabalharam nos bastidores para servir a alimentação aparecem agora. Uma das moças, me dizem, faz um trabalho de faculdade sobre o tema, assim como eu. Em roda, as diferentes pessoas apresentavam seus pedidos. Uma jovem faz um pedido por seu “coração”, sugerindo dificuldade em um relacionamento, um adulto para que o inventário dê certo e outro ainda para que o filho formado possa encontrar trabalho em sua profissão. Outro faz pedidos de sorte no trabalho e benções para o casamento que se aproxima. Um dos homens, trajado de roupa social, faz uma prece mencionando os pedidos de cada um deles.
Assim como na atividade da Pastoral de Rua, também aqui havia satisfação pelo trabalho realizado. Assim, a moradia nas ruas possibilita que eles possam se constituir como cristãos, seguidores do Evangelho, diferentes dos ateus, engajados na própria salvação, crentes em Deus e convictos de terem feito o que deveriam para que possam suplicar ao próprio Deus que atendessem suas preces, lhes ajudando em sua vida pessoal. A mensagem bíblica, da forma interpretada por eles, lhes pedia que praticassem o amor, que vivessem uma vida condizente com o que acreditavam ser a vida religiosa, acolhendo moradores de rua e buscando meios para a conversão deles. Também lhes permitiam se sentirem íntimos do Deus que acreditavam e, sem muitos formalismos, falar diretamente com ele dirigindo os seus pedidos.