O plano de aula também figura como uma possibilidade de planejar o encaminhamento do processo de ensino-aprendizagem e, conforme destaca Libâneo (2013), ele se constitui em uma unidade mais detalhada, que visa a realização prática dos objetivos
estabelecidos no plano de ensino anual. A intervenção didática por meio do plano de aula se deu em uma segunda unidade escolar, no ano de 2019.
A segunda escola campo também está situada na região Norte de Goiânia e recebe as crianças de um dos bairros mais populosos dessa região administrativa. Atende aos Ciclos I, II e III, nos turnos matutino e vespertino. Possui ampla área externa e infraestrutura adequada, porém, o ambiente de sala de aula apresenta mobiliário um tanto gasto, mas suficiente ao atendimento das dinâmicas acadêmicas. As turmas são organizadas por letras e variam, na sequência, entre: A, turmas de 1º ano; e I turmas de 9º ano.
Nesta segunda unidade escolar, as crianças também se mostraram muito receptivas e carinhosas. São amigáveis, participativas e possuem liberdade para se posicionarem sobre os conteúdos. São crianças que cursam o 5º ano vespertino (turmas: E1 e E2), e possuem entre 10 e 11 anos, sendo que algumas delas têm 12 anos completos, por terem ficado retidas em uma das fases do Ciclo. Elas apresentam proficiência satisfatória em Língua Portuguesa e estão em processo de aprimoramento da linguagem verbal escrita.
A reinserção em campo, nesta unidade escolar, foi mais pontual e concentrou-se no processo de observação participante, com intervenção específica da pesquisadora nas aulas, em quatro ocasiões, quais sejam: a) na contação de história da literatura infantil “Nina no Cerrado”; b) em uma aula de visualização de imagens do Cerrado; c) no encaminhamento da atividade com os desenhos geográficos; e d) no encaminhamento da autoavaliação. Saliento que em todas essas ocasiões houve a presença e a participação ativa da professora Flor de Pequi.
A figura 18 (p. 165), reproduz alguns dos objetivos específicos propostos na Unidade do plano de ensino – o Plano de Aula – voltados ao processo de encaminhamento da mediação didática sobre a temática do Cerrado, e que foram explorados na pesquisa a partir dos desenhos geográficos elaborados pelas crianças. O Plano de Aula completo da professora Flor de Pequi está disposto no Anexo 5 (p. 259).
Figura 18 – Unidade do plano de ensino – Plano de Aula (mediações didáticas sobre a temática do Cerrado)
PLANO DE AULA
Ciclo II, turmas E’s Ano letivo: 2019
Previsão: Última semana de setembro e todo o mês de outubro Profª. Flor de Pequi
Objetivos Específicos
Conhecer o Cerrado, suas especificidades, características e riquezas; Desenvolver uma consciência crítica de preservação do Cerrado brasileiro; Analisar criticamente a quantidade de queimadas realizadas no ano de
2019, suas motivações e impactos ambientais no nosso lugar. Metodologia
Pesquisas, desenhos, exposições;
Intervenção da pesquisadora Fabiana (UFG) nas atividades com desenhos. Avaliação
Os alunos serão avaliados quanto à participação nas aulas, interesse pelo tema, realização dos trabalhos propostos e oralidade nas discussões.
Fonte: Flor de Pequi, 2019.
As aulas de intervenção didática se deram entre 23 de setembro de 2019 e 18 de novembro do mesmo ano. O contexto de encaminhamento da mediação didática acerca da temática do Cerrado se deu durante um período delicado, no qual havia um intenso processo de retirada da cobertura vegetal da Amazônia e de outros domínios morfoclimáticos, como o Cerrado. Além disso, um grave processo de queimada desses ambientes, especialmente da Amazônia, colocou o Brasil no centro do debate ambiental, em nível nacional e internacional. As crianças estavam atentas a estas notícias e sempre participaram dos debates que, de algum modo, envolviam o assunto.
A discussão a respeito do Cerrado somou um total de nove aulas, sendo a maioria delas, cinco, desenvolvidas diretamente pela professora regente da turma e observadas pela pesquisadora. Apenas nas quatro últimas aulas houve uma participação da pesquisadora nas atividades, conforme definido nos encontros de planeamento realizados entre a professora Flor de Pequi e a pesquisadora, tendo em vista que o principal objetivo da pesquisa passa pela
compreensão do processo de mediação didática encaminhado por um/a professor/a pedagogo/a.
O encaminhamento didático do conteúdo, portanto, foi iniciado a partir do processo de regionalização do território brasileiro, com foco na região Centro-Oeste e no processo de uso e ocupação do Cerrado. Flor de Pequi fez o uso do livro didático, tomou como referência o conceito de paisagem para problematizar as diferenças entre as paisagens do Cerrado e do Pantanal. Em uma das aulas sobre a temática, encaminhou uma atividade com imagens sobre o sofrimento dos animais típicos do Cerrado, em função do desmatamento.
Explorou a espacialização do Cerrado em temporalidades distintas e aprofundou a discussão sobre os animais típicos, com uso de mapas do manual didático, mapas impressos e mapas em formato digital, exibidos com o auxílio do Data show. Fomentou uma atividade de busca por erros da divisão política do país através da comparação entre um mapa sobre os animais em extinção e a atual divisão política do Brasil. Trabalhou com o uso de questões sobre o Cerrado e encaminhou a correção das atividades de modo dialógico com as crianças, sempre intervindo de modo a corrigir algum equívoco. Ao final da quinta aula, uma das crianças sugeriu que a professora conduzisse um trabalho sobre a situação dos animais por meio de desenhos, o que foi muito bem recebido pela professora.
Nas quatro últimas aulas relacionadas ao tema, houve a participação da pesquisadora, primeiro com a contação de história, posteriormente, com a revisita às imagens da literatura infantil de modo articulado às discussões colocadas por Flor de Pequi sobre frutos do Cerrado na sala de vídeo. Na penúltima aula, as crianças iniciaram a produção dos desenhos geográficos sobre as paisagens do Cerrado e, na quarta e última aula, as próprias crianças realizaram uma autoavaliação da aula, nos mesmos moldes do que foi realizado com as crianças do 4º ano.
Os desenhos geográficos resultantes tanto da proposta encaminhada pela pesquisadora sobre as paisagens do Cerrado, quanto da proposta de uma das crianças sobre o sofrimento dos animais em extinção, estão dispostos em diferentes seções deste estudo (com exceção dos capítulos 3 e 4) sendo que a análise desse processo se dá de modo articulado aos resultados obtidos nas intervenções realizadas com as crianças da primeira escola campo em 2018, no capítulo 5.
As figuras 19 e 20 (p. 167, 168) ilustram alguns momentos do processo de produção dos desenhos geográficos. Nesse movimento, destaca-se o cuidado dado pela professora Flor de Pequi quanto ao uso dos materiais, ao traço e pintura dos desenhos, na orientação dada às
crianças em relação ao capricho na execução da atividade e quanto a sua devolução, já que não foi possível concluí-la totalmente em sala. Os materiais (papel para desenho A3, lápis de cor e giz de cera) foram disponibilizados pela professora; algumas crianças optaram pelo uso de tinta, material de uso pessoal delas.
Além disso, ressalto que a opção pelo uso da literatura “Nina no Cerrado”, nesse novo contexto de mediação didática, se deu como possibilidade de levar as discussões e o conteúdo sobre a paisagem-lugar-Cerrado através da literatura, e para possibilitar a formação de desenhos geográficos oriundos de criações imaginárias que refletissem os conhecimentos internalizados pelas crianças sobre o tema, de forma mediada pela palavra outra (BAKHTIN, 1997).
Nesse sentido, destaco que embora houvesse um planejamento que atendesse aos propósitos da pesquisa, havia, da parte da professora Flor de Pequi a necessidade de atendimento aos objetivos propostos no Plano Anual, e as atividades específicas estabelecidas no calendário escolar, por essa razão a literatura foi o único recurso que decidimos (Flor de Pequi e a pesquisadora) utilizar para, de forma conjunta, pensar o processo de intervenção didática, com as turmas do 5º ano.
Vejamos, então, um dos momentos de criação dos desenhos geográficos da paisagem-lugar-Cerrado:
Figura 19 – Produção dos desenhos geográficos sobre o Cerrado
Fonte: Pesquisa de campo, 2019. Autoria: Queiroz, 2019.
Ao observar o processo de criação dos desenhos geográficos, chama a atenção o destaque que a criança, em evidência na figura 19, direciona para a representação de Buritis. Esta espécie, embora não seja popularmente conhecida, como o pequizeiro, guarda aspectos de uma fitofisionomia peculiar, a das Veredas, cujo conteúdo foi internalizado, a partir da
mediação didática, sendo mobilizado, com certa frequência, por algumas crianças em suas produções, como observado na figura 19 (p. 167).
Tais criações, são representativas da paisagem-lugar-Cerrado, portam o Buriti como um tipo de espécie que se associa às áreas alagadas, se diferenciando das espécies de galhos retorcidos, mas que também é Cerrado, e se vincula a dimensão da forma da paisagem-lugar Veredas. Esse fato, revela um conteúdo geográfico dos desenhos, que no campo da Geografia Acadêmica é discutido nas teorias da Geografia Física.
A figura 20, traz a completa e interesse representação do referido desenho geográfico, elaborado pela criança Araçá Amarelo. Vejamos:
Figura 20 – Desenho geográfico sobre as paisagens do Cerrado (criação de Araçá Amarelo)
Fonte: Pesquisa de campo, 2019. Autoria: Queiroz, 2019.
Como vemos, ao observar a figura 20, diferentes elementos são mobilizados na criação do desenho geográfico da criança Araçá Amarelo, que, se analisados a partir das contribuições de Passos (2003) identificamos um conjunto de “formas” que caracterizam um setor determinado da superfície terrestre, o Cerrado, pois nessa concepção (Geografia Física), os elementos podem ser analisados em função de sua forma e magnitude, resultando em uma classificação específica.
Ademais, resta pontuar que do ponto de vista pedagógico, houve o atendimento das orientações encaminhadas pela professora, tanto no capricho na representação da paisagem-lugar-Cerrado, como no zelo com o trabalho, que não apresenta qualquer dano. Além disso,
são verificados indícios acerca de um processo de mediação cognitiva da criança. O desenho reproduz elementos da paisagem-lugar-Cerrado, evidenciados, particularmente, na literatura “Nina no Cerrado”, com destaque para a fauna e a flora, apontando os aspectos significados e apreendidos pelas crianças, relativos à temática trabalhada durante as aulas.
Por fim, o último espaço de diálogo deste capítulo, logo em seguida, revela uma reflexão que perpassa pela avaliação das professoras a respeito de todo o processo, de modo a compreender em que medida a participação na pesquisa possibilitou, a elas, o domínio dos instrumentos de que trata Sforni (2015), ou seja, dos meios para atingir os objetivos de aprendizagem pretendidos.
4.4 Narrativa avaliativa do processo de pesquisa e intervenção didática na ótica das