As possibilidades de disseminação do conhecimento produzido no âmbito da ciência em condições de tempo reduzido e de espaço ampliado, possíveis pelo desenvolvimento das TIC, favorecem indubitavelmente os processos inerentes à comunicação científica. No entanto, há práticas na própria comunidade científica que no contexto contemporâneo tornam-se obstáculos para o efetivo aproveitamento do que o desenvolvimento tecnológico pode propiciar.
Suber (2004) cita que, ao contrário do livro, as publicações científicas permitiam que o pesquisador conhecesse com maior rapidez trabalhos recentes de outros pesquisadores. O autor podia compartilhar novas pesquisas rapidamente, com maior amplitude e, principalmente, podia estabelecer a prioridade perante outros cientistas que pudessem estar trabalhando sobre o mesmo problema. Os editores publicavam e o autor tinha a recompensa da disseminação do conhecimento por ele produzido. Para poder comercializar a publicação científica impressa, os editores instituíram um método que ainda perdura: a cessão dos direitos de autor do pesquisador
para a editora. Com o tempo, os lucros pelas publicações aumentaram, porém os autores continuaram a tradição de escrever em troca do impacto e não de dinheiro.
Como os custos e os recursos financeiros para desenvolver a maioria das pesquisas científicas no mundo provêm de fundos públicos e os resultados devem ser divulgados, principalmente, por meio da publicação em periódicos científicos, entendesse que essa publicação feita por empresas privadas que só permitem a difusão da ciência mediante o pagamento de subscrições é um contrassenso.
No âmbito propiciado pela TIC, os direitos de acesso às publicações científicas, diferente da obra impressa, dependem da aquisição de licenças. O editor pode exigir acordos pay-per-view e limitar o número de vezes que a publicação é acessada, ou pode retirar publicações formalmente disponibilizadas ou estabelecer a aquisição de jornais em pacotes forçando às bibliotecas a manter subscrições de publicações que não são de seu interesse.
Elas são dependentes de editores digitais não só para os periódicos originais, mas também para a indexação e catalogação das revistas acadêmicas. Como podem adicionar e excluir títulos de periódicos a partir das indexações do periódico, os editores têm enorme poder para moldar a aparência e a disponibilidade da pesquisa. Por isso, as bibliotecas podem fornecer apenas um acesso limitado, ao invés do antigo acesso livre aos periódicos em sua coleção. (HESS E OSTROM 2003, p. 137, tradução nossa29)
O poder que os editores têm, portanto, é consequência também da cessão dos direitos de autoria do pesquisador para a editora. A publicação é atrelada ao que a legislação vigente, a lei de Copyright (sua equivalente no Brasil a Lei nº 9.610 de 19/02/98) estipula. Isto é, uma legislação que atende necessidades impostas para outro contexto social surgido a partir da imprensa com tipos móveis de Gutenberg. Apesar do desenvolvimento tecnológico que permitiu o surgimento da tecnologia digital e da Internet, as principais instituições do direito de propriedade intelectual, lembra Ronaldo Lemos (2005), praticamente continuam inalteradas.
A proteção legal no Brasil independe de registro e estabelece que o uso, o reuso e a disseminação da produção intelectual só podem ser feitos com o consentimento expresso do autor. Essa proteção dura o tempo que o autor viver e se estende aos seus herdeiros por mais 70 anos após sua morte. Concluído esse período, a obra cai em domínio público e pode ser utilizada sem autorização, porém desde que não fira os direitos morais do autor.
29 They are dependent on digital publishers not only for the primary journals but also for the indexing and cataloging of scholarly journals. Because they add and delete journal titles from journal indexes, publishers have enormous power to shape the appearance and availability of research. Hence, libraries are able to provide only limited access, rather than the previous open access to journals in their collection.
No contexto da produção científica, segundo a Lei de Direitos Autorais, Lei n° 9.610/98, capítulo IV, art. 46, incisos II, III e VIII, respectivamente, é lícito:
a) a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista, desde que feita por este, sem intuito de lucro;
b) a citação em livros, jornais, revistas ou qualquer outro meio de comunicação, de passagens de qualquer obra, para fins de estudo, crítica ou polêmica, na medida justificada para o fim a atingir, indicando-se o nome do autor e a origem da obra; c) a reprodução, em quaisquer obras, de pequenos trechos de obras preexistentes, de
qualquer natureza [...].
É evidente que as imposições legais vigentes não favorecem a dinâmica da produção e disseminação do que a comunidade científica produz no contexto propiciado pelas TIC, considerando que nesses processos a condição de tempo e a amplitude do alcance desse conteúdo são elementos vitais para a alimentação do fluxo informacional necessário ao próprio desenvolvimento da ciência.
Nesta ciência tão institucionalizada, não existe praticamente lugar para o gênio isolado, capaz de dar conta de uma descoberta científica do início ao fim. A ciência atual é fundamentalmente um trabalho coletivo, em que pesquisadores e grupos de pesquisa trabalham sobre resultados já obtidos por seus pares, e tem como objetivo acrescentar um tijolo a mais em um vasto edifício. (MARCONDES E SAYÃO, 2002, p.445)
Como exposto, a legislação vigente que rege os processos de produção, uso e disseminação da produção intelectual no mundo, no contexto da publicação científica no ciberespaço, constitui-se em um obstáculo. Assim, na procura por alternativas que permitam efetivá-los em condições legais, a comunidade científica encontra nas licenças flexíveis Creative Commons uma arquitetura libertária. O pesquisador, ao poder, principalmente, reter os direitos de autoria da sua produção científica, garante o direito de escolher as formas de disseminação desse conteúdo. Formas que no âmbito da ciência devem considerar o acesso amplo e irrestrito a um conhecimento essencial ao desenvolvimento da humanidade.