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Antes de Riegl o património abarcava apenas os monumentos históricos e artísticos, tanto escritos como edificados, como refere Ferreira de Almeida.

Hoje deparamo-nos com a posição inversa de uma profusão de objectos que integram as múltiplas categorias de bens ou conhecimentos patrimonializáveis, que o autor refere como “Complexo de Arca de Noé”.

De facto se nos reportarmos à antiguidade deparamo-nos com uma acepção de bem patrimonial (ainda que o termo não tivesse sido identificado), quando nos referíamos a um objecto detido por um indivíduo concreto ou abstracto (o Estado). Era assim um conceito jurídico e individual que previlegiava a sucessão e a multiplicação de bens. O património dever-se-ia multiplicar significando maior poder.

Com a revolução Francesa, esse mesmo poder individual exclusivo é recusado como modelo. Por um lado, inicia-se um período de destruição e reconfiguração do mesmo, enquanto recusa da representação do antigo regime. Por outro, inicia-se um “programa” de nacionalização que ao mesmo tempo, o protegia e vendia, mas contruía uma nova identidade nacional.

Este sentido vai ser mais tarde retomado, no séc. XIX, numa Europa que procura estabelecer os seus limites e encontrar a sua identidade num mundo que a todo o momento se expande e obriga a uma introspecção e “reconhecimento” social mediante as outras culturas. O período romântico de negação dessa globalização mediada pela industrialização vai agudizar a retoma dos valores nacionais, antigos, do passado, numa confrontação clássica entre conservadorismo e liberalismo. Curiosamente o património serve ambas as partes.

Fig. 10 Salão literário em 1834. J. P. A., 1838.

A atitude de olhar para cada país e alimentar a cultura nacional é simultaneamente um estímulo ao conhecimento desse mesmo património, à sua utilização na educação da população, na fruição como comportamento civilizador, ou na ascenção de uma burguesia inclinada ao conhecimento e divulgação das artes e ciências, em clubes, salões, tertúlias e museus.

John Ruskin vai intervir neste debate da arquitectura com o seu livro “Sete lâmpâdas da arquitectura”, apresentando as sete ideias que deveriam presidir à pressecução de uma boa arquitectura, e ao estabelecimento de uma reacção face à evolução do mundo industrializado burguês, com o fim de “detener el proceso de destrución, y de costrucción, sin sentido” deste novo mundo. Assim inserida num raciocínio que aborda as questões sociais e laborais, Ruskin critica o restauro e a destruição da arquitectura como um mal na medida em que constitui uma “ruptura do tempo histórico”(SÒLA-MORALES:2003:92), pelo que se constituiu como acérrimo defensor dos monumentos. Inclui, dentro da sua definição de património, a arquitectura doméstica, reportando-o a uma dimensão social, como repositórios da memória colectiva, numa nova dimensão que se acresce ao conceito patrimonial, que Choay denomina de ‘memorial’.

Fig. 12 e 13 Compositions in masonry and iron, from E. E. Viollet-le-Duc, M. Entretiens sur l”Architecture (Paris, 1863)

A atitude de França é dominada por uma centralização dos poderes consultivos na Comissão dos Monumentos e por uma doutrina que, efectivamente, priveligia o restauro face à conservação22, tendo como protagonista Viollet-le-

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Duc. O seu restauro, dito estilístico, assenta na recuperação das formas perdidas (das quais já não existe informação), inacabadas ou que se encontram muito degradas, de modo a restabelecer o seu edifício, dentro da unidade lógica da construção gótica, de modo coerente com a sua estrutura e com os conhecimentos previamente adquiridos. Para isso faz-se socorrer dos mais avançados e exaustivos métodos de levantamento e registo das preexistências, como a fotografia e o levantamento in situ. A pretensão de alcançar um todo coerente levou facilmente a que se adulterasse o edifício. Adicionando mais elementos aos existentes, ou subtraindo elementos que se julgassem desfasados e não coerentes, de acordo com a lógica, abstracta, gótica. A atitude de completamento, de aperfeiçoamento, de restabelecimento de todo o esplendor dos edifícios vem falsear muitos dos conteúdos inerentes aos objectos de restauro. Vem produzir novos objectos e fazer com que se percam os antigos. Esta lógica de completamento em estilo, foi muito difundida, e apreciada por ter provocado uma renovação das construções. No entanto este posicionamento, e as campanhas então levadas a cabo por VLD, tiveram o mérito de ter resgatado muitos monumentos, evitando maiores perda

materiais, e de valores.23 Este posicionamento face à conservação,

priveligiando o restauro veio reafirmar como nunca o valor nacional do património, contribuindo para a modelação de uma identidade.

O seu trabalho tem repercursões nas intervenções patrimoniais em Portugal, nos finais do séc. XIX, onde se iniciam muitas campanhas de restauro, sob a influência das suas prácticas, que se revelam adjuvantes na afirmação de nacionalismos24, e verificam a alteração consciente do objecto de restauro25.

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No exemplo apontado por Jukka Jokileto do restauro de Catedral de S. Marcos de Veneza, coordenado inicialmente por Battista Meduna, vemos surgir uma distinção clara entre restauro e conservação. O destaque do edifício enquanto documento, expressão de vários tempos do edifício, e de construção da cidade, é privilegiado pelo conde Zorzi quando a ela se refere utilizando a expressão “museu de arquitectura” mais do que um monumento. Podemos aqui fazer o paralelo com Riegl quando este distingue o monumento do monumento histórico. O tratamento era portanto diferenciado quando se reconheciam valores documentais, arqueológicos a mais dos valores estéticos, que ao contrário dos primeiros existiam sempre. Não havendo este potencial arqueológico reconhecido o restauro era na generalidade mais pacífico e estava associado a alguma perda e/ou introdução de elementos que poderiam ser influenciados por uma tendência momentânea ou particular, própria de quem o conduzisse. Como critério para se escolher entre uma atitude ou outra aponta-se o interesse arqueológico, ou seja a capacidade testemunhal particular desse objecto e o seu valor de antiguidade.

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Na procura da “raça portuguesa”. (TOMÉ:2002:27).

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A Comissão dos Monumentos queixa-se na pessoa de Luciano Cordeiro, da falta de critério e das alterações românticas provocadas pelos restauros no Mosteiro dos Jerónimos, referindo que “(…) se

Fig. 14,15 e 16 – Restauro dos monumentos nacionais: Paço dos Duques em Bragança (depois e antes da reconstrução) e Castelo de Leiria (reconstrução inacabada da Alcáçova).

Surge mais tarde, em Itália26, uma nova corrente que contribui para o entendimento do conceito de património e para a práctica da

conservação/restauro, que conta com Camilo Boito, como protagonista.

Congrega-se então, num mesmo discurso os conceitos de autenticidade, patina e estratificação temporal – reconhecimento e valorização das várias intervenções que afectam os edifícios, não contrapondo uma práctica a outra, mas inserindo-a numa abordagem onde ambas teriam lugar.

Fig. 17 Porta de Ticenese. Restaro segundo premissas de Boito.

A inovação de Boito prende-se com uma valorização das várias épocas presentes no edifício27, bem como uma conduta de actuação distinta face aos diversos estilos arquitectónicos, não negando nem elegendo nenhuma época

tornara impossível corrigir todos os erros que o romantismo acumulara no infeliz monumento(…)”.(FRANÇA:1966:74)

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O seu atraso em relação à industrialização fez com que apenas na viragem para o XIX se iniciasse, um pouco por todo o país, uma política de abertura de novos eixos e alargamento de outros elementos existentes e a perda de parte do seu tecido urbano, com vista à melhoria das condições de salubridade e circulação. Surgem assim reacções no sentido da protecção e atenção ao que se estaria a destruir. A influência de Ruskin é patente quando se dá a formação de alguns grupos destinados a proteger os edifícios antigos, na maioria igrejas (refira-se o exemplo Sienna conservada com fundos organizados no estrangeiro) e lutando contra a demolição do tecido histórico das cidades tal como acontecera na Inglaterra alguns anos antes.

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Quando se refere aos monumentos arquitectónicos como documentos cuja originalidade deve a todo o custo ser preservada, referindo uma moralidade que lembra o discurso de Ruskin.

mas atentando à conservação de todo o património28. Podemos antever aqui uma atitude semelhante à que nos nossos dias se manifesta quando se procede à musealização, à reposição integral ou por fim se projectam novas intenções num processo de reabilitação arquitectónica. Boito introduz no conceito de património a análise dos valores particulares de cada edifício ao ser contra a estrita conservação29.

Com Riegl o conceito de património estende-se com a noção de valores contemporâneos e de memória – como o de ancianidade – tanto maior quanto maior a perduração do objecto no tempo (associado ao factor raridade), que ainda hoje persiste, e que foi determinante para combater o restauro estilístico. Não sendo necessariamente sempre opostos, esta definição e adição de conceitos, vão estabelecer a conservação do património como um esquema de gestão de valores, relação de compromisso que também ainda hoje é estabelecida nos processos de reabilitação patrimonial (AGUIAR:2005).

Contemporâneo de Riegl, Max Dvorak vai estender o conceito de património a todo o edificado independentemente da sua antiguidade, época, ou conotações sociais ou políticas, integrando as construções vernaculares, e dando importância ao edificado como documento. Encontra-se no seu posicionamento, portanto, uma reacção às modificações e reconstruções que impliquem a modificação dos tecidos, mas que sendo inevitáveis devem seguir os materiais aplicados anteriormente no original, tentando manter o aspecto visual pouco alterado e as formas incompletas (MIGUEL; MOZO:2007). As suas posições parecem, no entanto, integrar uma atitude de conservação algo pitoresca, quando refere a manutenção de vegetação, alegando o embelezamento da arquitectura.

Com Camillo Sitte, Choay situa o momento ‘historicista’ do património, com propostas de análise da arquitecura de excepção, dos monumentos, e do seu

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Boito defenda uma intervenção distinta na presença de edifícios de distintas épocas. Para os edifícios da Antiguidade propunha um restauro arquelógico, para os edifícios Góticos, um restauro pitoresco, e para os edifícios Clássicos e Barrocos um restauro arquitectónico.

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No ponto cinco da carta de restauro de 1883 de Boito, refere-se que o próprio método gradual de conservação e reconhecimento da temporalidade monumental deve ser crítico, de modo poder estabelecer-se um critério de escolha entre as várias componentes do edifico, se algumas destas diminuírem a percepção de outras e, assim, a leitura da historicidade do conjunto.

entorno, dos espaços públicos, como contributos e parte integrante de um crescimento sustentável da cidade moderna, não recriando modelos de urbanidade, baseado nas lógicas intrínsecas à cidade.

Próximo de Boito encontramos Gustavo Giovannoni que vem chamar a atenção para o uso dos edifícios como factor de preservação material e entendia o monumento e o património urbano enquanto documentos. Sugeria, no entanto, uma dualidade de critérios de intervenção conforme nos deparássemos com um edifício ‘morto’ ou ‘vivo’. Relativamente ao primeiro defendia a preservação da forma e do carácter pitoresco, alegando a sua total preservação, não sustentando um novo uso, ou uma utilização regular. No segundo caso, do edifício ‘vivo’, considerava já possibilidade de este ser adequado a um novo uso ou à musealização, e ser sujeito a alterações desde que concorrentes para a manutenção do seu tipo, forma, e tecidos originais.

Fig. 18 A ponte Scaligero de

Castelvecchio, Verona. Restaurada por anastilose, segundo Giovannoni (1949-51).

Como refere Aguiar, com Giovannoni o conceito de património amplia-se incluindo as produções humanas das ciências e da técnica, além da arte, e a cidade como documento colectivo, soma dos monumentos, arquitectura menor

e ambiente urbano30. A riqueza dos centros urbanos antigos é por ele

destacada e integrada na cidade contemporânea, potenciadora da diversidade, pela sua escala e pela riqueza morfológica.

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