• Nenhum resultado encontrado

Em virtude das diversas formas de famílias existentes atualmente em nossa sociedade, tornou-se cada vez mais presente a busca pelo reconhecimento da paternidade ou maternidade baseada no afeto, qual seja a parentalidade socioafetiva pela posse do estado de filho, que, segundo o entendimento de Marcos Costa Salomão (2017, p.10) é “[...] o vínculo afetuoso que surge entre estas duas pessoas (pai e filho) e que, depois de solidificado, transformar-se-á em paternidade, tal e qual a paternidade biológica ou adotiva legal”.

Tendo em vista que até pouco tempo atrás não existia previsão legal expressa que definisse o procedimento para este reconhecimento, baseando-se apenas na doutrina e jurisprudência, a forma encontrada para sua resolução era a via judicial, através de sentença que posteriormente seria averbada no registro de nascimento do reconhecido filho, mesmo que houvesse o consentimento entre as partes.

Muito teve que se percorrer para chegar a uma padronização deste procedimento em nosso ordenamento. Isto porque, quando lançado o Provimento 16/2012 exposto anteriormente, foi feita a referência apenas ao reconhecimento espontâneo de filho, não sendo especificando se os Oficiais Registradores poderiam também reconhecer a paternidade socioafetiva, que já era conhecida do Direito brasileiro, o que acabou gerando duplo entendimento. (SALOMÃO; HAHN, 2017).

Diante desse fato, no ano de 2013, os Tribunais de Justiça de alguns Estados como do Pernambuco, Ceará, Maranhão, Santa Catarina, Amazonas, e, no ano de 2016 o Rio Grande do Sul, criaram provimentos estaduais para regulamentar este procedimento, cada um com suas particularidades, a fim de autorizar que os pais possam reconhecer seus filhos afetivos, visto que, tal modalidade era e é presente na vida de muitas famílias. Contudo, havia uma certa “confusão” a nível nacional, justamente pela variedade de regramento, e em alguns estados pela falta dele. (CALDERÓN; TOAZZA, 2019).

Foi então que no ano de 2017 o Conselho Nacional de Justiça regulamentou a forma de reconhecimento da paternidade/maternidade socioafetiva em nosso país, através do Provimento 63. Além de outras determinações estipuladas pelo referido provimento, este, têm o escopo principal de possibilitar e facilitar o procedimento, para que esses reconhecimentos possam ser realizados de forma extrajudicial, diretamente no Registro Civil das Pessoas Naturais onde foi registrado o nascimento ou ainda diverso deste (art. 11). (CNJ, 2017).

Neste sentido, para a realização do procedimento, as partes interessadas deverão comparecer ao Cartório de Registro Civil, onde serão conferidos os documentos e lavrado termo, nos moldes previstos no Provimento (conforme anexo B), que ficarão arquivados naquela Serventia, ou ainda enviados para a serventia de origem do registro (art. 11, § 1º e § 2º). (CNJ, 2017).

A legitimidade para efetuar o reconhecimento é caracterizada pela maioridade daquele que quer reconhecer, e ainda, terá de haver a diferença de 16 anos a mais do que aquele que está sendo reconhecido. Ou seja, se A quiser reconhecer B, necessariamente, precisa ter 18 anos de idade e ainda ser 16 anos mais velho que o seu filho (a) socioafetivo. Isso é um requisito essencial para a configuração da duração da relação de afeto entre as partes, comprovando a estabilidade da relação filial. Ainda, é vedado o reconhecimento de ascendentes contra descendentes e vice e versa (art. 10, § 2º e §4º) (CNJ, 2017).

Segundo Marcos Costa Salomão (2018, p.19) houve uma alteração de procedimento no que se refere às anuências entre o Provimento 16/2012 e o Provimento 63/2017 “[...] A regra da anuência mudou para os filhos socioafetivos diferenciando-se dos filhos biológicos (o que fere o princípio da igualdade da filiação) [...]’’, isso porque o Provimento 63 do CNJ definiu o seguinte

[...]§ 3º Constarão do termo, além dos dados do requerente, os dados do campo FILIAÇÃO e do filho que constam no registro, devendo o registrador colher a

assinatura do pai e da mãe do reconhecido, caso este seja menor.

[...]§ 4º Se o filho for maior de doze anos, o reconhecimento da paternidade ou maternidade socioafetiva exigirá seu consentimento. (Art. 11, CNJ, Prov. 63/2017) (Grifo nosso).

Ou seja, quando o filho socioafetivo à época do reconhecimento for menor de 12 anos, a mãe terá de dar sua anuência assinando juntamente o termo lavrado no Cartório. E, nos casos em que este for maior de 12 anos, ele mesmo deverá consentir. Contudo, o Provimento 16 do CNJ, que regula o reconhecimento de filho biológico, diz que, sendo menores os filhos, a mãe terá que anuir, e, quando maiores, eles mesmos assinam. Nesse sentido, constata-se que há uma diferenciação dos procedimentos das filiações, tendo em vista que um Provimento n.º 63 autoriza que o filho maior de 12 anos consinta e o Provimento 16/2012, não.

Destarte, auferida a capacidade dos adolescentes com idade entre 12 a 18 anos para consentirem com o reconhecimento da paternidade socioafetiva em Cartório, a fim de tomar precaução e segurança jurídica para validade do ato, muitos registradores têm entendido que é necessária também à assinatura daquele genitor que já está mencionado no registro. Em outras palavras, quando for do lado paterno, devem anuir ao ato o pai registral e o filho reconhecido, e assim também quando for um reconhecimento materno. Caso não exista nenhum nome

constante no registro, a anuência será prestada apenas pelo filho. Esse entendimento também está sendo utilizado para o reconhecimento de filhos socioafetivos maiores de 18 anos.

Constata-se que grandiosos foram os avanços trazidos pelo Provimento 63/2017 não somente para o Direito de Família, mas, mais importante que isso foram os benefícios para a sociedade, que muitas vezes tinha a intenção de regularizar a situação vivenciada no lar, e não tinha outra opção, que não fosse o Judiciário, inclusive, evita-se que mais casos sejam levados ao poder judiciário.

Vale salientar, que há gratuidade dos atos de reconhecimento, consoante art. 75 e 75- A da Consolidação Normativa Notarial e Registral do Estado do Rio Grande do Sul.

Art. 75 – É gratuita a averbação, requerida por pessoa reconhecidamente pobre, do reconhecimento de paternidade no assento de nascimento.

Parágrafo único – A pobreza será demonstrada por simples declaração escrita assinada

pelo requerente, independentemente de qualquer outra formalidade. Art. 75 A – Na hipótese do artigo anterior, é gratuita, também, a certidão

correspondente, na qual não serão inseridas quaisquer menções, palavras ou expressões que indiquem condição de pobreza ou similar.

Nesse sentido, vê-se que a questão econômica não é empecilho para a regularização das relações de paternidade biológica, bem como afetiva, sendo gratuitos todos os atos relativos ao reconhecimento da filiação.

A matéria de grande discussão e ao mesmo tempo evolução trazida pelo referido provimento encontra-se em seu art. 14 quando diz que “O reconhecimento da paternidade ou maternidade socioafetiva somente poderá ser realizado de forma unilateral e não implicará o registro de mais de dois pais e de duas mães no campo filiação no assento de nascimento”, assim sendo, normatizou a possibilidade de ocorrer a multiparentalidade no registro de nascimento, que é a existência de dois pais e duas mães (biológicos/afetivos), assunto esse que será tratado no segundo capítulo desta pesquisa monográfica.

2 EFEITOS PESSOAIS E PATRIMONIAIS DOS RECONHECIMENTOS DE

Documentos relacionados