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Parte II – Símbolos, Mística, Feminino e Maternidade

3. Símbolo e Realidade

3.3. Psicologia e Mitologia

A Mitologia é a expressão que a cultura de um povo faz a partir de sua compreensão do ser humano, em suas relações interpessoais, no posicionamento no mundo; enfim, expressa a orientação que a cultura tem sobre o ser.

Desde as origens humanas, o ser humano reúne-se em comunidades e, através da arte e dos mitos, expressam as idéias mitológicas que lhes ocorrem. Numa comparação entre as diversas culturas, é possível observar uma reincidência dos mesmos temas em diferentes mitos religiosos, que explicam a existência e vivência humana. Assim, o mito é a “verdade última” numa cultura, acima de qualquer descoberta científica que possa comprovar que a explicação mitológica não compreende a realidade lógica.

Tais temas, que são núcleos presentes em todos os mitos em diferentes culturas, são representantes das estruturas mentais básicas ao ser humano, que fazem parte do psiquismo humano e declaram as inesgotáveis manifestações do Inconsciente Coletivo, expressando a identidade de todos os seres humanos em comunidade.

Ou seja, existem estruturas mentais no psiquismo humano que se revelam à Consciência através de idéias mitológicas, noticiando os conteúdos do Inconsciente Coletivo humano através da cultura de um povo, especialmente através da própria mitologia que este apresenta.

Deste modo, o estudo analítico da mitologia, bem como das personagens mitológicas de um povo, possibilita uma nova compreensão psicológica do ser humano, considerando inclusive as expressões irracionais que os mitos contêm, uma vez que a irracionalidade também faz parte do funcionamento inconsciente humano, e está presente nos comportamentos e relações que o indivíduo estabelece em seu grupo.

Com seus estudos sobre o psiquismo humano, o professor Carl G. Jung introduz o conceito de arquétipos como estrutura do funcionamento psíquico humano, abrindo os estudos psicológicos para a possibilidade de encontrar-se, na análise dos mitos, os símbolos utilizados

pela Consciência Coletiva de um povo para expressar e elaborar os conteúdos de seu Inconsciente Coletivo.

Toda forma de identidade cultural de um povo - seja por suas crenças, costumes, leis, arte, ciência esportes, festas, etc. - são manifestações de conteúdos do Inconsciente para a Consciência da cultura. Ou seja, são símbolos daquilo que existe no Inconsciente Coletivo do povo e que une tais seres humanos, através da manifestação comum da sua identidade cultural.

Entre as diferentes possibilidades de manifestação do Inconsciente Coletivo estão os mitos que, de acordo com Byington: “... funcionam no grande e difícil processo de formação da Consciência Coletiva” (Byington apud Brandão, 1998: 9). Assim, o mito são a imagem e a fantasia humana sobre sua própria existência, desenvolvimento e relacionamento com os demais, sendo um acesso direto da Consciência humana ao Inconsciente Coletivo. Seu estudo por uma forma analítica possibilita, então, que a psicologia compreenda o ser humano em maior abrangência.

Os arquétipos nutrem e alimentam a formação de símbolos para a Consciência, expressando os conteúdos Inconscientes também através dos mitos. Por isto, os mitos geram padrões de comportamento humano, através da interpretação e compreensão que a cultura faz de suas idéias mitológicas, e permanecem na história como marcos referenciais através dos quis a Consciência pode voltar às suas raízes - o Inconsciente - e revigorar-se nelas. Segundo Byington: “... a interação do Consciente com o Inconsciente Coletivo através dos símbolos, forma, então, um relacionamento dinâmico, extraordinariamente criativo cujo todo podemos denominar de Self Coletivo” (Ibid.: 10).

Ou seja, sendo os mitos os depositários dos símbolos do Inconsciente na Consciência, fazem a função de manutenção da identidade de um povo, pois se expressam pelo Self Cultural do mesmo. De modo que, além de possibilitar a análise humana de forma mais abrangente, o estudo dos mitos pode fornecer dados às ciências sociais quanto à formação da identidade cultural de um povo, seu simbolismo, compreendendo seu modo de funcionamento e como ocorreu a formação de sua realidade atual.

Os mitos, enfim, são representações coletivas do inconsciente de um povo, transmitidas através das gerações, num sistema coerente que tenta explicar o mundo e o ser humano, ainda que não racional e lógico. Não é uma explicação científica e comprovável - ao contrário, tem fim em si mesmo, e acredita-se nele ou não. Mas, ainda que individualmente

não se acredite nele, sua influência no comportamento social e do indivíduo especificamente é inegável, uma vez que o mito é expressão coletiva das estruturas psíquicas inconscientes humanas - e, por isto, são capazes de explicar um comportamento social mantido até mesmo por um indivíduo que não crê no mito de sua cultura, através da compreensão analítica de seus temas e conteúdos mitológicos, simplesmente por pertencer ao mesmo contexto cultural.

De acordo com Brandão, os mitos caracterizam-se através do aspecto de ser um “... relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais (...) é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípios, illo tempõre” (1998: 35).

De tal modo, os mitos falam dos princípios, quando a realidade passou a existir, seja na forma da criação de um algo na flora ou na fauna, seja na estrutura terrena, seja na criação da existência humana. Falam sobre a criação e o modo pelo qual aquilo que não era, que não existia, passou a ser e fazer parte da realidade cotidiana - ainda que um comportamento humano.

Por conta desta característica, o mito demonstra em sua narrativa a realidade humana no que diz respeito a imagens, emoções, gestos; enfim, traduz em palavras o que há no inconsciente humano de um modo simbolizado com o que há de fantástico no que conta. Tenta explicar uma realidade em sua complexidade e para abranger o todo do Real não pode ser lógico, utilizando-se do irracional e sendo aberto para diferentes interpretações.

Segundo Brandão, Jung apresenta os mitos conceituando “... como a conscientização dos arquétipos do Inconsciente Coletivo, quer dizer, um elo entre o Consciente e o Inconsciente Coletivo, bem como as formas através das quais o Inconsciente se manifesta” (Jung apud Brandão, 1998: 37).

Portanto, os conteúdos míticos são arquetípicos, uma vez que lembram a história original e primitiva a tal ponto que tornam a narrativa numa narrativa atemporal, apresentando caráter impessoal, com características coletivas, o que facilita a identificação e incorporação à história individual de qualquer membro daquela cultura.

Mas, além de narrar histórias primitivas, da origem de tudo, o mito as narram com a ação de seres sobrenaturais sobre a existência da realidade como o é então.

Torna-se a religião da cultura em que nasce a partir do momento que, através do mito, o ser humano prende-se ao sobrenatural, ou seja, liga-se ao divino pela narrativa mítica.

A palavra Religião pode estar ligada à origem latina com a palavra “Religione”, do verbo “Religare”, deste idioma: ligar-se novamente a algo. Assim, pode interpretar-se religião pelo conjunto de atitudes e atos através dos quais o ser humano liga-se a Deus, ou depende de seres sobrenaturais em sua existência.

Tais atos e dependência, na religiosidade, passam a atualizarem os mitos através da ritualização dos mesmos. “Através do Rito, o Homem incorpora o mito” (Brandão, 1998: 39). A fim de exemplificar, pode-se citar o Rito Eucarístico celebrado nos Cultos Protestantes e Missas Católicas como atualização da última Ceia de Cristo antes de sua morte, junto aos seus discípulos: o presidente da celebração revive o Cristo, enquanto os demais atuam os seus apóstolos, como forma de compreender e elaborar a salvação.

Desta forma, é pelo Rito que o ser humano pratica em ações concretas o conteúdo arquetípico do mito, renovando os feitos divinos e, com eles, aprendendo e compreendendo o que há de secreto e misterioso na origem - ou seja, lidando melhor com seus conteúdos inconscientes.

Através do conhecimento da origem das coisas, o ser humano equivale-se a adquirir o poder mágico sobre elas, fortificando-se para dominá-las, manipulá-las, modificá-las, respeitando o modo como o divino o fez nos tempos mitológicos das origens.

Assim sendo, o Rito assume um aspecto litúrgico sobre o mito, transformando a palavra da narrativa mitológica em verbo, que depois de lido torna-se ação. Ritualizando o Mito, a religião faz com que a narrativa deixe de ser histórica - ou seja, obediente ao tempo cronológico, linear e irreversível - e passe a pertencer ao tempo mítico, que é circular e pode tornar a ser, voltando para si novamente. Através dos ritos religiosos, o ser humano elabora comportamentos que atuem o conteúdo mítico inconsciente, simbolizados através do mito. Por fim, segundo Malinowski:

... o mito é um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva, à qual se recorre incessantemente; não é, absolutamente, uma teoria abstrata ou uma fantasia artística, mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria prática. (Malinowski apud Brandão, 1998: 41).