6 ACONTECIMENTOS BLACK POWER: EXPERIMENTAÇÕES DE ENCONTROS POTENTES
6.1 PULULANDO COM ACONTECIMENTOS BLACK POWER PELA ESCOLA
A menina black power não está interessada pelas cinzas que sobram no encontro do palito de fósforo com a caixinha de fósforo, e sim pela chama. Ela busca a potência que surge em seu corpo, ela abre passagem para acolhimento de outros corpos e para a produção de novos sentidos. Talvez esse acolhimento, essa potência dos encontros seja mais uma pista para pensarmos sobre as condições dos coletivos que se formaram no IFES campus Linhares.
O Coletivo Icacheou foi um divisor de águas na vida de várias garotas, principalmente na minha vida. Eu me encontrei pela primeira vez em algo, eu me reencontrei no movimento e ali eu fui me conhecendo e me amando. O mais gostoso era ver não só o meu reencontro comigo mesma, mas ver outras meninas se encontrando também, foi lindo.
A forma que o Icacheou adentrou nossas vidas foi uma coisa mágica. Eu posso dizer com toda certeza que a maioria das meninas foram impactadas de alguma forma. Eu fui uma dessas gurias (FRAGMENTO DO DIÁRIO DE LAURA).
As estudantes do Coletivo Icacheou encontraram outras formas de habitar a escola e de produzir vida. Elas aprenderam que juntas poderiam questionar as normas de gênero e raça que incidiam sobre seus corpos (e cabelos), e ainda criar novos sentidos. Dessa forma, os acontecimentos frequentam a superfície, e a força de sua potência está no constante movimento de construção e desconstrução. Essa força potencial não está dada de início, não é algo implícito a alguém, mas ela emerge no contato, no encontro. O encontro com a menina black power se desenrola na superfície, margeando a fronteira dos corpos. O movimento de seus cabelos balança as linhas, provoca emoção, deslocamentos; e produz acontecimentos.
A movimentação do acontecimento black power abriu passagens, percorreu muitos caminhos e às vezes se fixou nas paredes da escola (por exemplo, a imagem abaixo),
nas postagens das redes sociais, nas conversas e nos corpos. E estimulou o interesse de conjuntos de pessoas para conversarem sobre questões de raça e gênero que compõem seus corpos. A força da menina black power está em seu movimento.
Imagem 04 – Paredes da escola
Fonte: Arquivo pessoal
Na escola, os acontecimentos black power perpassam os corpos, passam a habitar os corredores e a escola. O acontecimento não está no estado de coisas que o sucedem. “Eles se elevam por um instante, e é este momento que é importante, é a oportunidade que é preciso agarrar” (DELEUZE, 1992, p. 218). As estudantes agarraram o acontecimento black power e permearam os espaços da escola escoando problematizações e novos sentidos para seus corpos. Elas coletivamente movimentaram as maquinarias de sentidos. Seria possível afirmar que o
acontecimento black power produz novas formas de escola? E outras maneiras de educação?
Talvez esses acontecimentos black power nos ajudem a pensar em uma educação pelo outro, como nos sugere Silvio Gallo (2008). A educação pelo outro entende o aprendizado como a passagem do não-saber ao saber, na mudança de estado que é possível pelo acontecimento. A produção de singularidades opera como objetivo desse processo educativo, que investe na formação de subjetividades autônomas. Assim, no processo educativo, a aposta estaria nas multiplicidades que emergem dos encontros com o outro.
A escola pelo outro percebe a subjetividade como um processo contínuo de transformações e de infinitas multiplicidades possíveis ao ser, por isso a aposta de uma educação pelo outro é abraçar o desenvolvimento da produção de subjetividades enquanto singularidades que escapam das normatizações dos corpos e emergem em outros modos de vida.
A escola como um coletivo exige um processo de aprendizagem que se desprenda da necessidade de mostrar caminhos, de disciplinar corpos, de conscientizar sobre o bem e o mal. É preciso se descolar da polarização dos que sabem e dos que ensinam. “Educar significa lançar convites aos outros; mas o que cada um fará – e se fará – com esses convites, foge ao controle daquele que educa” (GALLO, 2008, p. 15). A aprendizagem se desloca do individual para o coletivo, vislumbra nos encontros a possibilidade de estar sempre em modificação e disponível para novos acontecimentos.
A potência do acontecimento está no encontro dos corpos, na constante possibilidade de tornar-se outro. Buscar o acontecimento na escola significa afirmar a diferença como uma forma possível. “Trata-se de uma distância positiva dos diferentes: não mais identificar dois contrários ao mesmo, mas afirmar sua distância como o que os relaciona um ao outro enquanto ‘diferentes’” (DELEUZE, 2009, p. 178). E, além disso, significa se dispor aos encontros para em conjunto criar uma escola coletiva. A educação acontece no cotidiano e nas conexões com o outro que integram os saberes. Uma educação que funciona como uma maquinaria de criação de outros sentidos, uma maquinaria de resistência.
“E se eu não quiser ser?”
Mesmo sendo um clichê, gosto porque ele me encoraja e me fortalece. E sempre repito para as meninas negras de cabelo crespo: não somos obrigados a nada que a sociedade impõe, somos livres para escolhermos o que vamos usar. Somos livres para usarmos o nosso cabelo do nosso jeitinho. Somos livres para usarmos a roupa que nos faz se sentir confortável. Nós temos voz e queremos falar (FRAGMENTO DO DIÁRIO DE LAURA). A menina do black power segue pululando em acontecimentos, acolhendo meninas negras e criando outros sentidos para seus corpos. Ela mostra que os acontecimentos estão nos detalhes e nas minúcias. A educação pelo outro diz desses acontecimentos que permeiam os corpos que estão nas escolas e diz também de inúmeras meninas black power que estão resistindo juntas e criando outros modos de sentir, de amar e de viver.