Críticas Propostas
A Prevalência de Objectivos
A Acomodação da Diversidade Económicos • cedência de direitos de representação e de • os direitos de mobilidade interna polietnia às minorias no sentido da sua
dos cidadãos têm apenas por integração e acomodação pacífica à objectivo a eficiência do mercado sociedade global.
interno;
• as decisões políticas são
A Cidadania Cultural tomadas segundo critérios de
• promover o desenvolvimento de um ethos racionalidade económica.
nos cidadãos afastado da nacionalidade e próximo da pluralidade cultural da UE; A Ausência de
• o conceito de cidadania europeia deve uma Dimensão Social e de fundar-se na diversidade e abranger as
uma Dimensão Cultural subjectividades dos indivíduos; • a cidadania europeia é omissa • a UE deve construir-se com base em
relativamente aos direitos socio- valores explícitos acerca da diversidade;
económicos; • a UE deve reconhecer e promover políticas
• a cidadania europeia é multiculturais que promovam a equidade construída com base numa entre os cidadãos: micro-estratégias
ausência de valores; promotoras da igualdade real (e não apenas • a UE não tem uma dimensão formal) dos vários grupos culturais, sociais,
social genuína; étnicos, entre outros;
• A UE não assume medidas • a UE deve promover uma cidadania independentes no âmbito da multicultural como forma de garantir a
política social; igualdade entre todos os cidadãos, já que as
• a cidadania europeia não desigualdades se baseiam sobretudo no contempla o seu pluralismo acesso diferenciado de determinados
cultural inerente. grupos à participação nos processos de
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• os imigrantes devem ter direito ao estatuto de cidadãos, acesso à sua representação junto das instituições e tratamento
diferencial de acordo com os seus valores, interesses e necessidades;
• promover uma democracia total através da
i cidadania multicultural.
A prevalência dos objectivos económicos e a ausência de verdadeiras dimensões sociais e culturais podem não ser de todo explícitas mas, na nossa opinião, estão patentes nos princípios da União Europeia. Nenhuma directiva que prejudique de alguma forma interesses económicos da União é assumida (note-se: da União Europeia como um todo, não de um ou mais Estados- membros em particular). A União Europeia não corre esse risco, logo, por oposição, o princípio da racionalidade económica está sempre presente e subjacente.
Por outro lado, as dimensões sociais e culturais são abordadas pelos órgãos da União Europeia sob a forma de Recomendações, com declarações de valores e de princípios que cada Estado-membro deve assimilar e filtrar e fazer seguir (ou não) nas suas políticas específicas. Não restam dúvidas, pelos depoimentos apresentados, que as questões sociais são de facto secundárias na ordem de prioridades da União, e que as questões culturais podem inclusivamente ser consideradas 'terciárias'. Para além de princípios de não- discriminação com base em critérios como a cultura, a etnia, a raça ou o sexo, e da implementação de alguns programas que promovem o respeito, a tolerância e a troca de experiências entre estudantes, culturas e instituições dos vários países, a profundíssima dimensão multicultural europeia não é, na nossa opinião, devidamente observada, seguida, tratada, defendida, nem sequer em termos de um direito de cidadania, quando a comparamos com outras questões igualmente importantes com que se confrontam no seu dia a dia inúmeros indivíduos.
Numa Europa multicultural instituiu-se uma cidadania monocultural, que não refere nem contempla as diferenças entre os povos europeus, as culturas, as etnias, as religiões, os níveis de qualidade de vida... Ignorando as diferenças, tratando todos por igual, talvez todos se sintam iguais no usufruto dos direitos de cidadania. Mas então aplica-se aqui o conceito de 'multiculturalismo invertido'1 apresentado por Stoer e Cortesão (1999): a
negação das diferenças pode agudizar tensões.
Como refere Habermas, "as pessoas, assim como as pessoas legais também, tornaram-se individualizadas apenas através de um processo de socialização. Uma teoria dos direitos correctamente entendida exige uma política de reconhecimento que proteja a integridade do indivíduo nos contextos de vida nos quais a sua identidade se forma" (Habermas, 1998: 131). Esta identidade não é necessariamente imutável e a eventualidade da sua transformação deve estar também salvaguardada enquanto direito e deve ser respeitada enquanto opção individual. Por isso Habermas sublinha que
"nas sociedades multiculturais a coexistência de formas de vida com direitos iguais significa garantir a cada cidadão a oportunidade de crescer dentro do mundo de uma herança cultural, e garantir aos seus filhos crescerem nele sem sofrerem discriminação. Significa a oportunidade de confrontar esta e todas as outras culturas e perpetuá-la na sua forma mais convencional ou transformá-la (...). As garantias legais podem ser baseadas apenas no facto de dentro do seu próprio meio cultural cada pessoa detém a possibilidade de regenerar a sua força" (idem: 149).
Nas palavras de Stoer e Magalhães, "as diferenças foram delimitadas pelo pensamento ocidental, tal como este foi delimitado pela matriz sociocultural da modernidade, como objectos do conhecimento científico"
1 O conceito de 'multiculturalismo invertido' é utilizado pelos autores nas situações em que se "promove a semelhança como forma de diferença" (Stoer e Cortesão, 1994: 110) e cujo resultado é precisamente a assimilação cultural e a agudização dos conflitos e tensões já existentes.
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(sublinhados originais) (Stoer e Magalhães, 2001: 16). Referindo-se à rebelião das diferenças, os autores explicam que "estas rebelaram-se não só contra o jugo cultural e político, mas também epistemológico, da modernidade ocidental (...), recusando-se como 'objectos' passivos sobre elas" (idem: pp. 16-17). Esta nova postura enquadra-se na acção dos NMS's, que desenvolvemos adiante.
O estatuto atribuído pela cidadania, nomeadamente a europeia, poderia ser uma forma de dar espaço e voz às diferenças para que elas falassem sobre elas próprias. No entanto, como já referimos, na cidadania europeia a voz dada aos cidadãos é extremamente restrita, resume-se ao voto no pouco poderoso Parlamento Europeu e ao direito de queixa e de petição em caso de irregularidades. Não deixa de ser manifestamente pouco, tendo em conta todas as potencialidades que referimos e cuja aplicação sem dúvida contribuiria para uma cidadania europeia mais identificada, participada e justa.