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Quanto à política Como liberal, Dworkin considera que um dos objetivos

4. A TESE CONTIDA EM O IMPÉRIO DO DIREITO

5.2. A NÁLISE DA INTEGRIDADE

5.2.2. Quanto à política Como liberal, Dworkin considera que um dos objetivos

principais do sistema jurídico é controlar e limitar a ação do governo, tanto que, assim como Rawls, ele crê que nenhum objetivo social é justificável - ainda que sirva ao bem- estar geral - se viola os direitos individuais, configurando-se aí uma contradição entre voltar-se para a solução de problemas sociais e, por outro lado, preservar os direitos individuais. O que parece passar ao largo das preocupações de Dworkin é o inegável lado nefasto e obscuro da política, sobre o qual tantos autores se debruçaram nas mais diversas épocas. Hobbes, por exemplo, afirma que nos períodos em que os homens vivem sem um Poder comum para mantê-los aterrorizados, no estado de natureza, eles estão naquela condição chamada de Guerra; é a guerra de todos contra todos... Pode parecer, à primeira vista, que muitas pessoas simplesmente não têm essa ambição de poder, mas tudo leva a crer que é bastante provável que todos nós queiramos mais do que temos. E mesmo assim, Dworkin apresenta propostas de conduta moral no que se refere ao direito e à justiça que fariam supor que as sociedades anglo-americanas estariam na ante-sala da perfeição, e que nelas a integridade seria um pressuposto, o que certamente é algo discutível. Nesse aspecto, todos têm algo a ganhar com a existência de um governo, diz ele, contanto que não seja opressivo demais. Não haverá, portanto, um conceito puro de liberdade, mas apenas uma mera prática, se muito, um ensaio; nesse quadro, o homem estará sempre e necessariamente contra a humanidade, ou vice-versa, corroborando o ‘homem lobo do homem’ hobbesiano, pois não há a quê ou a quem obedecer.

Simone Goyard-Fabre afirma que o direito político do Estado moderno parece condenado a uma terrível vertigem: aí, o constitucionalismo seria como que o motor do destino do seu povo; a Constituição, adquirindo valor de lei fundamental, conteria as razões seminais do direito: é ao mesmo tempo a regra de inteligibilidade e a regra de validade do

sistema jurídico, que exprime os poderes teóricos e práticos da razão e pode-se, portanto, inferir que há nisso um gigantesco mal entendido, já que encerra um duplo erro, tal como enuncia a autora. O primeiro erro seria justamente a perversão da ordem legal do Estado pelo princípio de subjetividade: o direito público seria gangrenado pela consideração dos casos particulares e das situações singulares; o rigor do direito objetivo e a generalidade da lei seriam, portanto, gravemente ocultados. Assim, diz a autora, a lógica empírica do pragmatismo jurídico-político viria rebater a lógica racional do aparelho legislativo: sob formas diversas, com tonalidades e acentos múltiplos, o conflito entre o universal e o particular sempre ressurgirá. O segundo erro, ou problema, seria ainda pior: poderia não haver casos similares para que, então, se tomasse uma decisão similar, fato a ser contornado pela virtude da integridade de Dworkin.

Richard Sennett92 se refere às pirâmides burocráticas públicas como sendo rígidas e avessas ao risco, constituindo uma dura realidade. O sociólogo inglês entende que os regimes tanto das corporações multinacionais quanto do socialismo de Estado pareciam prisões burocráticas na década de 70, e que o compromisso, como lealdade institucional, estará em oferta cada vez mais escassa no novo capitalismo, e que o sentimento será cada vez mais irracional, uma vez que essas mudanças simplesmente não libertaram as pessoas dessa cultura emergente e esse modo de vida cada vez mais superficial. Ou seja, as instituições humanas, a despeito dos ingentes esforços nesse sentido, simplesmente não funcionam a contento, quando não funcionam muito mal ou francamente contra a sociedade e contra os indivíduos em geral. Dworkin, no entanto, defende que cada ponto de vista deve ter voz no processo de deliberação, mas em termos, pois, já que não é unânime, a decisão coletiva deverá tentar fundamentar-se em algum princípio coerente cuja influência se estenda então aos limites naturais de sua autoridade. Assim, para Dworkin, um Estado que aceitar a integridade como ideal político terá um argumento melhor em favor da legitimidade, do mando e da coerção, que um Estado que não a aceite, e se assim for, aí estará uma forte razão para se considerar que as práticas políticas devam ter por base a virtude da integridade. Dworkin parece julgar que ela é efetiva, ao menos na América, posição esta sujeita a questionamentos. Para ele a melhor defesa da legitimidade política vai ser encontrada não onde os filósofos como Hobbes esperaram encontrá-la - no árido

92 SENNETT, R. O declínio do homem público: as tiranias da intimidade. Trad. Lygia A. Watanabe. São

terreno dos contratos, dos deveres de justiça ou das obrigações de jogo limpo -, segundo suas próprias palavras, mas no campo mais fértil da fraternidade, da comunidade e de suas obrigações concomitantes.

Portanto, uma teoria do direito como a de Dworkin implica que a ambiência em que ela se realiza deve se caracterizar pela integridade e deve pautar-se efetivamente por princípios morais. Mas apresenta-se a questão: essa concepção não implica em se crer no adágio ‘amai-vos uns aos outros’, vigente há dois mil anos, e que nunca de fato se concretizou? Para que a proposta se efetive, será necessário que os indivíduos entendam que suas tarefas são absolutamente vitais para o bem comum: se a defesa da integridade feita por Dworkin implica o uso de princípios sobre a legislação e a jurisdição nitidamente presentes na vida política, nota-se, no entanto, que a política a que ele se refere é sempre uma política local, comunitarista, restrita. Dworkin, no entanto, afirma defender uma interpretação de sua própria cultura política - a dos anglo-americanos -, e não uma moral política abstrata e atemporal, nos moldes kantianos. Precavido, deixa registrado que, como parte de sua tese interpretativa, nunca afirmou que suas práticas políticas aplicariam a integridade de maneira perfeita, admitindo mesmo que não seria possível reunir todas as normas especiais e outros padrões estabelecidos por seus legisladores e ainda em vigor num único e coerente sistema de princípios. Mas, mesmo tendo feito essa afirmação mais atenuada, segundo suas próprias palavras, ele ainda dirá que essa sua posição exige novas ressalvas ou, pelo menos, algum esclarecimento: o legislativo deve ser guiado pelo

princípio legislativo da integridade, e isso explicaria por que não se devem promulgar leis conciliatórias apenas por uma preocupação com a eqüidade, já que, segundo seu ponto de vista, as leis conciliatórias constituem uma flagrante violação da integridade.

Na verdade vive-se hoje - e é o próprio Dworkin quem o afirma - uma tentativa ousada de unir o pragmatismo e o convencionalismo, pois o pragmatismo rejeita que as pessoas possam claramente ter direitos, como se direito fosse a antítese de um futuro promissor, pois aquilo que se chama de direitos atribuídos a uma pessoa serão apenas os auxiliares do melhor futuro. Retomando-se o conceito fundamental elaborado por Max Weber de que o que distingüe o Estado é o monopólio do uso da força por uma autoridade, e que ter autoridade envolve a satisfação tanto de condições factuais como de condições avaliativas (axiológicas), então tem-se um cenário nada favorável à proposição dworkiniana

de que a eqüidade e a justiça devam compor um corpo de princípios morais de uma comunidade de modo a assegurar que, nas decisões sobre o direito, os responsáveis por elas saberão encontrar a resposta mais certa e justa. Em verdade, os fatos nos dizem que o caráter axiomático do direito à igualdade de Dworkin tem grandes - e, pelo que a história nos mostra, invencíveis - obstáculos a vencer.

Como é possível, então, nos termos de Romano93, pressupor a integridade se ‘os poderosos estão cheios de ambição de poder, e os letrados mergulham na ambição de autoridade porque suas mentes estão abarrotadas de doutrinas mentirosas e fraudulentas’? Como falar em melhor luz da interpretação, se o sigilo, antigo na história, atingiu pleno sentido político na vida moderna, e sua prática aperfeiçoa-se ao máximo, ou se a grandeza imoderada de uma nação passa a fornecer para fora de seu próprio circuito um grande exército, ou ainda se o número de corporações, que são como vermes nos intestinos da nação, passa a ser uma grave doença da República? Em contraste às constatações de Hobbes e outros pensadores que se dedicaram a descrever e compreender as questões políticas e os males aí presentes, as concepções de Dworkin sobre a resposta certa, a interpretação como integridade e sua crença em uma comunidade sem conflitos parecem não serem afetadas pelas ostensivas evidências da existência desses aspectos negativos da sociedade e do Estado.