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4. O QUE PODE O CORPO?

4.2 O que podem os cinco sentidos do corpo humano?

4.2.4 O que pode o Tato?

Moreno (2004, p. 21-38) explica que, graças ao desenvolvimento do dedo polegar que transformou sua mão num grampeador, um certo macaco pôde, um dia, pegar uma pomba e cozinhá-la. Esse fato é considerado pela ciência como um importante marco dentro da escala de desenvolvimento cerebral do primata que, depois, tornou-se um exímio fabricante de armas117. Com o tempo, sua inteligência foi crescendo à medida que construía outros instrumentos; no entanto, ele ainda não tinha aprendido a acariciar suas obras, até que, ao caírem os pelos da palma das suas mãos, ele pôde passar, pela primeira vez, e com suavidade, a ponta dos seus dedos sobre uma certa superfície. Resultado: ele sentiu um prazer

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Disponível em: http://www.ideiademarketing.com.br/2017/03/31/marketing-sensorial-importancia-dos- sentidos-parte-iv-paladar/. Acesso em: 20 mai. 2018.

117 “A evolução do homem” é uma animação de poucos segundos, feita em vídeo, na qual se pode ver esse momento da evolução humana. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cf-KPvKKINk. Acesso em: 01 nov. 2018.

indescritível. Por isso, diz-se que o momento sagrado da evolução humana é aquele em que a sensibilidade do ser humano começou a ser alimentada através do toque.

Quando um indivíduo toca uma superfície, receptores localizados sobre a pele enviam sinais elétricos através dos nervos sensitivos, permitindo, de acordo com Moreno (Ibid, p. 21- 38) a percepção de sensações de toque, vibração, cócegas, pressão, calor, frio, como também de informações sobre a postura do corpo, o peso e o movimento dos músculos. Ackerman (1996, p. 95) esclarece que a sensação não acontece na parte mais externa da pele, mas na segunda, pois a camada superior da pele é morta; descasca com facilidade e é responsável pelo friso escuro deixado em torno da banheira e da piscina. Os nervos sensitivos, que captam as sensações, caminham pelos braços e medula espinhal até o cérebro, numa velocidade vertiginosa. De acordo com o documentário narrado pelo Dr. Dráuzio Varela118, “apesar de termos receptores sensoriais espalhados pela pele inteira, algumas áreas são mais sensíveis: mãos, face e boca – só na língua são, no total, 9 mil receptores”; é por isso que os bebês usam tanto a boca para explorar o mundo, estruturando-o mentalmente. No entanto, conforme Moreno (2004, p. 21), o sentido do tato, por ser mais desenvolvido nos adultos, faz com que estes não se lembrem com nitidez das suas primeiras experiências tácteis.

Moreno (2004, p. 25) argumenta que nas mãos existem centenas de pequeninos ossos que se articulam para criar, acariciar, seduzir ou destruir. O autor lembra que, ao contrário do que se pensa, o tato não se reduz apenas às mãos; ele se estende a todo o corpo através da pele – o maior órgão do corpo humano. Além disso, “o tato não nos conecta apenas com o que está fora de nós; ele também nos transmite sensações procedentes do interior do nosso corpo – vísceras, músculos e articulações” (MORENO, 2004, p. 21-29).

Para esse autor, o tato é o mais social dos sentidos; afinal, tocar e ser tocado são sinônimos de estar vivo (MORENO, 2004, p. 21). Apesar dessa necessidade de tocar e ser tocado, muitas partes do corpo ainda são tabus em diferentes culturas. Até no espaço escolar existem normas para os professores tocarem no aluno. Por outro lado, conforme Ackerman (1996, p. 154), o tato é também um instrumento de cura:

O tato é um veículo de cura tão poderoso que procuramos profissionais do toque: médicos, cabeleireiros, massagistas, professores de dança, barbeiros, ginecologistas, manicures e pedicures, etc. O ato de acariciar nossos animais de estimação é calmante e tem efeito curativo. Criamos nossos filhos em uma sociedade não táctil e temos que compensar essa carência com criaturas não humanas. Primeiro com ursinhos de pelúcia, depois, animais de estimação. Tocar é tão terapêutico quanto ser tocado. (ACKERMAN, 1996, p. 152;154)

118 Os cinco sentidos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=c5ODGzBUMNc&t=4s. (128.034 visualizações). Acesso em: 01/03/2017.

Seja qual for o ponto de vista adotado, sabe-se que o contato táctil pode proporcionar muitos saberes sobre as coisas: o tato é capaz de informar sobre a medida, a textura e a qualidade das coisas – sua suavidade, maciez, vigor, etc. –; a distância entre os objetos e até seu aspecto tridimensional. Além disso, há pesquisas que estudam a concretização de ideias abstratas a partir da percepção táctil. É comum dizer, por exemplo, que alguém tem o coração mole119. Ackerman (1996, p. 97-98) traz para essa questão linguística as metáforas relacionadas ao tato:

Chamamos nossas emoções de sentimentos e ficamos mais satisfeitos quando alguma coisa nos toca. Os problemas podem ser espinhosos, ásperos, pegajosos. E a algumas pessoas podemos dizer não me toque. Deixar de encontrar alguém é

perder o contato. (ACKERMAN, 1996, p. 97-98)

Para além do fator linguístico, Moreno (2004, p. 22) chama a atenção para o fato de que o tato permite a conjugação simultânea de vários estímulos: “o músico que toca violão não olha para seus dedos, mas os coloca nas cordas certas, numa distância milimétrica entre as pontas dos dedos e a altura das mãos”.

Ackerman (1996, p. 105) define o contato táctil como sendo 10 vezes mais forte do que o contato verbal; mesmo assim, trabalhar com o tato exige “concentração, silêncio e capacidade identificatória para resgatar a sensação que certos toques provocam ou provocaram um dia”. Isso significa que a memória também se alimenta de texturas. É por isso que, para Moreno (2004, p. 27), o sentido do tato, por ser um ativador de emoções, afeto e pensamentos, é capaz de levar alguém do máximo de prazer ao máximo de dor: “quando acariciamos certos objetos sonhamos e, enquanto sonhamos com o prazer que o tato produz, somos por ele criados120” (MORENO, 2004, p. 39).

O tato raramente é objeto e objetivo de aprendizagem. Talvez porque, na ordem dos conhecimentos, o tato não possua nenhuma característica digna de ser mencionada. Para Moreno (2004, p. 26), o excessivo toque intelectualista do sistema educativo, que não se interessa pelo estatuto das sensações/sensibilidade, é responsável por isso. No entanto, hoje se sabe que o processo de ensino-aprendizagem, que leva em conta os afetos, inclusive os que são gerados por afecções tácteis, tem mais chance de ser eficaz e duradouro.

Durante a pesquisa sobre as potencialidades tácteis do corpo humano, procurou-se observar também se essa habilidade tem sido valorizada como recurso capaz de potencializar

119 Para mais informações sobre essas pesquisas, acessar a página da Revista Istoé, disponível em: https://istoe.com.br/86457_COMO+O+TATO+MEXE+COM+A+SUA+CABECA/. Acesso em: 01 nov. 2018. 120 Texto original: “Cuando acaricias certos objetos, sueñas, y a la vez, dentro del placer que produce su tacto,

a captação na leitura dos textos que circulam fora da escola. Notou-se, por exemplo, que tem crescido a produção de livros infantis com texturas, cujo objetivo é o de propiciar a interação entre o texto e o leitor através de diferentes experiências tácteis. São livros cujas histórias são contadas por meio de objetos como tecido, borracha não tóxica, feltro, plástico-bolha, algodão, lã colorida, lixa, esponja, etc.121. De acordo com a Revista online Fortíssima122, os livros com texturas ajudam a aprimorar habilidades exigidas no seu cotidiano, como a memória, além de desenvolver a autonomia e a criatividade das crianças.

Ainda no campo da leitura, encontrou-se a Coleção Adélia123 , pensada pela empreendedora e designer Wanda Gomes para o público infantil, de 3 a 10 anos, com ou sem deficiência visual. Ela cria livros que permitem uma legibilidade perfeita do texto em braille, mas também despertam outros sentidos “por meio da percepção de cores, contrastes, de sensações tácteis e olfativas com texturas e aromas”. No livro Adélia Cozinheira, por exemplo, a personagem prepara um café da manhã, uma surpresa para os pais. Ela corta uma banana; prepara torradas; pega o suco na geladeira. A última coisa que ela pega são flores para enfeitar a mesa, e essa ilustração tem um cheiro suave de flor. Wanda conta que nem todas as páginas têm esse diferencial, mas ela diz que o texto é feito de forma a levar o leitor a uma viagem sensorial que também é feita de lembranças: “Este volume estabelece uma relação especial com os sentidos olfato, visão e tato, pois o leitor, ao imaginar que está preparando uma refeição, pode evocar suas próprias lembranças, e não somente os cheirinhos que estão ali aplicados”.

Confirma-se, assim, que na sua função biológica, o órgão do Tato, juntamente com o cérebro, é capaz de captar sensações de toque, vibração, pressão, calor e frio, além de informações sobre a aparência, o peso e a ação muscular do corpo humano. Já na sua função social, ele permite a sensação de existência através do toque; favorece as relações interpessoais por meio da caracterização dos objetos em termos de textura, peso e tamanho; e ajuda a ativar lembranças afetivas.

121 Disponível em: http://www.pedagogia.com.br/projetos/texturas.php. Acesso em: 20 mai. 2018. 122

Disponível em: https://fortissima.com.br/2015/12/03/livro-sensorial-ajuda-exercitar-coordenacao-motora- 14748643/. Acesso em: 18 mai. 2018.

123 Para saber mais sobre esse projeto, acesse: https://projetodraft.com/imagine-criar-livros-com-sistema-braile- com-texturas-aromas-e-sensacoes-este-e-o-proposito-da-wg/. Acesso em: 20 mai. 2018.