plasticidade e a flexibilidade das suas formas de organização ela é certamente a família.
Há vários estudos que consideram que as disfunções familiares contribuem para a delinquência juvenil. De acordo com as teorias do controlo social, as relações entre pais e filhos é primordial para compreender as causas da delinquência juvenil. Considera-se que a influência protectora da família em relação à delinquência se estrutura em torno de três dimensões: a supervisão familiar, a identificação com os pais e a comunicação íntima. A maior sensibilidade em relação às preocupações e às orientações dos pais aumenta a probabilidade de a criança levar em consideração essas preocupações e orientações quando se debate com a possibilidade de vir a cometer um acto delinquente.
A análise das respostas a esta questão remete, uma vez mais, para esta dificuldade, que se manifesta desde muito cedo, com figuras parentais frágeis, inseguras, incapazes de fazer face aos desafios do crescimento dos sujeitos, onde o controlo e a disciplina assumem, também, um lugar a merecer atenção.
Faltou, senão não tinha feito o que fiz. Não faziam nada. Se não fossem p’ra cadeia, se calhar não ia p’ro colégio. Saia pela janela à noite, não diziam nada. (A, M. 17 anos)
O controlo dos pais, e consequente processo de internalização das figuras de autoridade, constitui um aspecto nodal na construção de um percurso identitário potenciador da autonomia e da integração social. Sem figuras de referência consistentes, assentes na responsabilidade e no afecto, a confiança básica, suporte da capacidade exploratória e relacional, fica indiscutivelmente fragilizada.
Nenhum controlo. Eu saía de casa sem dizer nada. Eu gostava de estar com os meus amigos. Dormi muitas vezes fora de casa, os meus pais não me procuravam.
(A.C. 18 anos) Eu fui p’ra minha avó desde a nascença, o meu avô, já morreu. Quando ela não me deixava sair, saltava a janela, às vezes dava conta, começava a ralhar comigo. A minha avó e os meus pais sabiam que andava a roubar e não queriam saber, não queriam saber, não ligam, não dizem nada. (M, S. 21 anos)
Olhe! Vou passar aqui o Natal não sei o que é um Natal em família, sabe menina! Sempre sonhei que um dia tinha que descobrir com os meus próprios olhos o que era uma cadeia e aqui estou, já concretizei, o de vir preso.
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(R, B. 19 anosA família, entendida como um conjunto complexo no qual é preciso encontrar fios condutores para compreender as relações e os eventuais factores produtores de delinquência, está necessariamente implicada na compreensão da delinquência enquanto estrutura onde esta delinquência nasceu ou enquanto lugar de interacções relacionadas com as condutas delinquentes de um ou de vários dos seus membros.
O olhar habitualmente lançado à família pelos criminólogos ou pelos sociólogos da delinquência (Filleule, 2001) é de considerar como um microcosmo com características estruturais (pertença social, a dimensão e a estrutura do casal parental, ou com características de socialização que constituem factores de risco para a criança se tornar delinquente. Esta perspectiva foi particularmente trazida para a criminologia pelos notáveis trabalhos dos Glueck (1968, 1950), que fizeram dos elementos familiares um pilar essencial do seu quadro de prognósticos.
D - COMPORTAMENTOS ADITIVOS E PROBLEMAS COM A JUSTIÇA
A categoria D – Comportamento aditivos com a Justiça, compreende as referências feitas pelo sujeito em relação ao comportamento delituoso. Esta categoria divide-se nas seguintes categorias: a) Família com problemas judiciais; b) Falta de supervisão familiar; c) droga; d) Inveja; e) Desejo de posse; f) Vingança; g)Necessidade; h) Dinheiro fácil; i) Impulso para delinquir.
Verificou-se que os entrevistados tendem a modelar os comportamentos relacionados com a saúde dos seus pais e tendem a adoptar os mesmos comportamentos, sejam eles positivos ou negativos. “Se não nascesse e não tivesse a droga à frente dos olhos. Quando nasci os meus irmãos já andavam todos nessa vida”. (C. D. 21 anos). É a família que determina as primeiras relações afectivas e sociais, bem como os contextos onde ocorre a maior parte das aprendizagens iniciais que efectuamos. Estas primeiras experiências e aquisições exercem uma grande influência no desenvolvimento e na personalidade e equilíbrio futuro. As experiências seguintes podem de igual modo afectar-se de uma forma bastante poderosa.
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● Família com problemas judiciais
Nesta questão só os familiares de um sujeito entrevistado não teve problemas com a justiça.
Os indivíduos estudados possuem, desde cedo, uma frágil vinculação social. Os seus agregados são numerosos, o ambiente familiar é perturbado por ordem relacional (alcoolismo, tráfico de estupefacientes e de armas, do (s) progenitor (es), agressividade, assaltos á mão armada…) e pela elevada ocorrência de alterações estruturais (separações, divórcios…). Com excepção de um jovem, todos os outros estiveram expostos a práticas educativas pobres e provêem de famílias com antecedentes criminosos, têm amigos delinquentes, eles, tendem a cometer infracções porque constroem atitudes anti-normativas e crenças de que as infracções são justificáveis.
Como se pode verificar, os entrevistados apresentam vários motivos para justificarem o seu comportamento anti-social. Vejamos:
Já tive, os meus 6 tios e 5 tias, os meus 5 primos mais velhos que eu. Os meus irmãos 5, os meus pais, a família quase toda, por andarem a roubar e por tráfico de droga e de armas também e por andarem com carros a conduzirem sem carta. Agora tenho um irmão tem 29 anos, foi caço sem carta 5 vezes, e por tráfico de droga, armas, assaltos a casas e cafés.
(M, S. 19 anos) Tenho. O Duarte por roubo, o Paulo em Paços de Ferreira, o meu primo Paulo é por tráfico. Eu agora estou cá dentro, mas lá fora era isso tudo, traficante e ladrão
(R, B.19 anos) Se a família é a instituição de socialização, a delinquência quando existe nos seus membros, pode ser considerada a falha da instituição na sua função de transmissora dos valores sociais aos seus descendentes. A interferência de modelos desviantes ou marginais no processo de socialização e práticas de gestão familiar é defendida por alguns autores como variável preditora da emergência de comportamentos desviantes/delinquentes nos jovens.
Eu e os meus 3 irmãos. Agora estou eu e o meu irmão Ricardo. Eu estou aqui por 7 processos. Assumi 10, fora os que sabia que estavam em fase de inquérito. De alguns processos só assumi os mais estrondosos, os que sabia que não me escapava, e confessei esses crimes. O meu irmão rouba p’ra investir em tráfico, está por condução violenta e tentativa de homicídio.