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5.17 ASPECTOS NEGATIVOS DO PATENTEAMENTO DE SOFTWARE

5.17.1 A QUESTÃO DO “SOFTWARE EM SI”

O artigo 10 da LPI, no seu inciso V, atesta claramente que não é considerada invenção

ou modelo de utilidade o “programa de computador em si”. Não podendo ser considerada

invenção, consequentemente não pode ser patenteado, de acordo com o art. 6

o

da mesma LPI.

Da mesma forma como no Brasil, o art 52(2) da EPC exclui expressamente o software daquilo

que pode ser considerado invenção, exclusão que abrange o programa de computador quando

“considerado como tal” (program computer as such)

Porém, fica a questão: o que quer dizer “programa de computador em si”? É uma

expressão ambígua, que permite diferentes interpretações. Uma delas, utilizada pelo INPI, é

que o termo “em si” se refere aos elementos literais de sua criação, como o seu código-fonte

ou o objeto executável:

O programa de computador em si, de que trata o inciso V do Art. 10 da LPI,

refere-se aos elementos literais da criação, tal como o código fonte, entendido como

conjunto organizado de instruções escrito em uma determinada linguagem

computacional. Enquanto conjunto de instruções, código ou estrutura, o programa

de computador em si não é considerado invenção e portanto não é objeto de

proteção por patente por ser mera expressão de uma solução técnica, sendo

intrinsecamente dependente da linguagem de programação. (INPI, 2011b)

Clóvis SILVEIRA (2014) propõe outra interpretação da expressão “em si”:

O conceito de "programa de computador em si", não definido mas utilizado

na LPI, necessita também de conceituação mais clara, não podendo ser

confundida com "programa de computador", uma de suas possíveis

"expressões". Na minha opinião "programa de computador em si" —

diferentemente do que opinam alguns pareceristas de nossa área jurídica —

não corresponde à definição existente na Lei Autoral n° 9.609/1998 que,

além de ser posterior à LPI, define apenas uma sua possível "expressão".

Trata de conceito mais abrangente e abstrato. Ora, forma e conteúdo não se

confundem. Uma pauta musical não se confunde com a música em si, da

qual é apenas uma possível representação. Do mesmo não se confunde um

"algoritmo em si" com uma possível "expressão do algoritmo" — como bem

observou Manoel Joaquim Pereira dos Santos:

O direito comparado nos fornece excelentes subsídios para se tentar

en-tender a distinção entre o algoritmo em si, claramente insuscetível

de proteção autoral, e a chamada "expressão do algoritmo", para a

qual se pretende cogitar da tutela legal...

Para se descrever a essência de um algoritmo, ou seja, um algoritmo em si,

pode-se fazê-lo em linguagem natural ou fazer uso de um pseudocódigo, ou

seja, uma forma genérica de escrever o algoritmo, numa linguagem

compreensível por quem o escreve — e possa ser também compreendida por

qualquer outra pessoa — sem ser necessária a sintaxe de uma linguagem

formal de programação, propriamente dita. Note-se que um pseudocódigo,

por não ser executável por um computador real, não pode ser amparado pela

Lei de Software. Analogamente, é oportuno ponderar um pouco sobre a

diferença existente entre o conceito "programa de computador em si",

utilizado em 1996 na LPI e a definição existente na Lei Autoral 'de 1998

para "programa de computador", a qual se refere a, na realidade, uma dentre

uma infinidade de expressões possíveis para um "programa em si". De fato,

um método matemático, um algoritmo ou um programa de computador "em

si" não podem ser confundidos com nenhuma de suas possíveis "expressões.

A essência de um programa de computador em si é, analogamente ao

algoritmo em si, também abstrata: é a ideia, a concepção de um "conjunto de

instruções", que pode ser expressa de diferentes maneiras, de modo que

possa ser interpretada, direta ou indiretamente, por um computador, por

exemplo, através das "instruções" de uma "linguagem de programação". O

programa de computador em si refere-se portanto à sua essência, à ideia

abstrata subjacente, que não se confunde com uma de suas inúmeras

possíveis diferentes expressões. Ora, nota-se que há perfeita analogia na

relação existente entre método matemático, algoritmo e programa de

computador em si e suas possí-veis, correspondentes, "expressões".

Ressalte-se que um mesmo programa de computador em si pode Ressalte-ser "manifestado"

por inúmeras ou mesmo infinitas "expressões" diferentes, que podem ser

"codificadas" através de sintaxes de linguagens formais de programação das

mais diversas e em diferentes níveis de compreensão. Só depois de um

programa de computador ser mentalmente concebido, será possível

expressá-lo por meio das ferramentas de registro usuais, que podem ser tabelas

lógicas de decisão, diagramas de blocos, fluxogramas, grafos, instruções em

pseudocódigo, etc. Por meio dessas ferramentas fica registrado o "conceito"

que foi idealizado por seu criador, para que terceiros os "leiam" e os

interpretem. Assim, o tal registro, que "documenta" um programa, constitui

seu "pré-projeto". Em seguida será escrito e representado por meio de uma

linguagem de programação, esta "decifrável" por um computador

(SILVEIRA, 2014, p.24).

Assim, segundo essa última interpretação, o programa de computador, enquanto

código, não passaria pelo filtro do art. 10 da LPI, e então a patente seria denegada. Mas, uma

vez reivindicado como elemento de um sistema maior, o todo poderia atender aos requisitos

de invenção, e esse todo poderia ser patenteado.

Curiosamente, expressão similar do “em si” (“as such”)

29

é usada na legislação

europeia. Essa expressão “em si” foi a saída para os defensores da proteção patentária

desenvolverem uma interpretação onde algum aspecto do software, que não ele “em si”,

pudesse ser abrangido pelas patentes. Esse aspecto seria os efeitos gerados pelo software que

produzissem uma contribuição ao estado da técnica, o “efeito técnico”. Isso permitiu o

deslocamento da proteção para a dimensão de funcionalidade do software, permitindo a sua

patenteabilidade, desde que satisfeitos todos os requisitos legais (novidade, atividade

inventiva e aplicabilidade industrial). Com isso a proteção seria para a “invenção

implementada por programa de computador” e não para o programa de computador “as such”

ou “em si”.

A consulta pública do INPI em 2012 sobre o tema, expôs diretrizes interpretando os

incisos do art. 10 da LPI, de modo a admitir que criações que envolvam métodos matemáticos

podem ser consideradas invenções quando aplicadas a problemas técnicos, por manipularem

dados que constituem a representação de objetos concretos. E por serem consideradas

invenções, seria possível a concessão de patentes para essas invenções implementadas por

software. Porém, a distinção entre “invenção implementada por programa de computador”,

patenteável, em oposição ao “programa de computador em si”, não patenteável, possui um

jogo semântico tênue, pois é muito difícil na prática demarcar com precisão a diferença entre

um caso e outro.

Júlio MARANHÃO (2013) tem opinião contrária a essa distinção, pois, segundo ele,

de todo programa de computador se espera uma aplicação prática e solução para um

problema. Assim, todo software teria sempre um “efeito técnico”. Quando esse “efeito

técnico” não se limita ao mundo físico, mas alcança efeitos virtuais, então se abre espaço para

a descrição de qualquer programa de computador como não sendo “software em si”.

Programa de computador com aplicação técnica física ou virtual, principalmente quando não

se define com clareza o significado de “virtual”, pode ser qualquer programa de computador,

o que, na prática, tornaria letra morta a vedação de patente para “o programa de computador

em si”.

29 EPC – Art. 52 - §3o - Paragraph 2 shall exclude the patentability of the subject-matter or activities referred to therein only to the extent to which a European patent application or European patent relates to such subject-matter or activities as such.

Portanto, ao “dividir” o software e considerar que uma parte não teria “efeito técnico”

– caso da leitura do termo “programa de computador em si” – deixa o INPI de considerar que

a utilidade prática é uma das dimensões de qualquer software. Isso acaba conferindo um

impacto potencial, em termos de patenteabilidade de software, ainda maior do que o

encontrado nos EUA, abrindo espaço para a descrição de qualquer software como invenção

em pleito de patente.

O mesmo autor mostra que, nas diretrizes propostas do INPI, há um exemplo de

invenção implementada por programa de computador, no caso “um método de criptografia

que utiliza dados abstratos de forma específica e tem como resultado um produto virtual, as

chaves de segurança, é aceitável como invenção, pois resolve um problema de garantia de

segurança a um dado em um canal de comunicação”. Dado que uma chave de segurança é um

resultado abstrato obtido através de um método matemático implementado por um programa

de computador, fica difícil identificar a que tipo de criação, aos olhos do INPI, não se

aplicaria a proteção patentária (MARANHAO, 2013). Com essa ambiguidade, a redação

adotada pelo INPI nas diretrizes é muito ampla, permitindo que quase qualquer função ou

software possam ser patenteáveis.