Questionando a coesão de grupo na comunidade diaspórica

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 55-58)

2. MAPEANDO A DIÁSPORA EM BRAZIL-MARU E CIRCLE K CYCLES

2.4 Questionando a coesão de grupo na comunidade diaspórica

Brazil-Maru e Circle K Cycles descrevem, com riqueza de detalhes, dois casos de

diáspora. Nesta pesquisa, sustentados pelos recortes teóricos mencionados na introdução do capítulo, discutimos, demonstramos e comparamos características conceituais importantes na teoria da diáspora, como a dispersão e suas razões, as relações com a terra natal, os conflitos no país hospedeiro, o mito do retorno e a consciência de grupo étnico. Para Cohen (1999), uma diáspora pode ser detectada de acordo com nove características, conforme explicitamos na página 28. As histórias dos imigrantes japoneses de Brazil-Maru e dos decasséguis de

Circle K Cycles preenchem, com coerência, sete dos nove aspectos listados pelo autor. Em

outras palavras, as duas obras descrevem processos coletivos de deslocamento e assentamento que não deixam dúvidas quanto ao fato de representarem formações diaspóricas.

Porém, vale a pena ressaltar que há uma característica diaspórica não retratada na ficção de Yamashita, que se refere à existência de uma conexão entre diásporas em diferentes países, como Safran (1991), Tölölyan (1996) e Cohen (1999) afirmam em seus artigos. Cohen pondera que é comum haver um senso de empatia e solidariedade com membros de mesma etnia em outros países de assentamento. Circle K Cycles não faz alusão a redes internacionais de brasileiros em ajuda mútua e Brazil-Maru possui poucas referências a contatos no exterior. No entanto, o próprio Cohen ressalta que “nenhuma diáspora vai manifestar todos os aspectos” (COHEN, 1999, p. 274).

Brazil-Maru apresenta exemplos específicos do território brasileiro que

demonstram união e solidariedade entre as comunidades de japoneses. Considerando as dimensões continentais brasileiras, podemos adaptar as redes tecidas pelos japoneses por todo o território brasileiro ao argumento de Cohen, ainda que este se refira a conexões internacionais. Assim, voltamos à questão do líder de Esperança, Kantaro, e ao entendimento acerca do esporte como fator de união entre os japoneses: “Mais do que nunca, ele estava determinado a espalhar o beisebol entre os japoneses jovens do Brasil para criar uma conexão forte entre eles, que logo forjaria uma unidade poderosa” (YAMASHITA, 1992, p. 43).107 Outro fator de solidariedade, mas também limitado ao território brasileiro, é a já citada organização em cooperativas locais, que, por sua vez, ligavam-se em redes de alcance nacional:

Havia colônias japonesas tanto no distante norte, no Rio Amazonas, no Pará, quanto no sul, no Paraná. [...] nós já estávamos naturalmente ligados uns aos outros

107

“He was more determined than ever to spread baseball among the young Japanese men of Brazil, to create a strong connection among them which would eventually forge a powerful unit.”

pela crescente rede de cooperativas que os fazendeiros japoneses haviam criado para administrar e amparar seus interesses. (YAMASHITA, 1992, p. 77)108

Estariam os japoneses de Brazil-Maru mais interconectados que os brasileiros de

Circle K Cycles? Seria, neste caso, a diáspora japonesa “mais diaspórica” que a brasileira?

Pela análise desenvolvida a partir da representação literária, pode-se concluir que as ligações e o senso de coletividade entre os brasileiros também existem, mas são histórica e culturalmente distintos, se comparados aos dos japoneses. Nesse aspecto, é relevante notar como Yamashita desconstrói, de forma provocativa e perspicaz, os estereótipos tanto de brasileiros quanto de japoneses. Os japoneses, mundialmente reconhecidos por sua união e senso comunitário, têm, em Brazil-Maru, um líder que usa o dinheiro do grupo para benefícios pessoais, levando a cooperativa à falência. No condomínio Homi-Danchi, de Circle K Cycles, a autora percebe o choque cultural do encontro de brasileiros e japoneses não apenas descrevendo a dificuldade dos primeiros em seguir as regras, mas também vislumbrando uma patológica busca por aceitação entre os japoneses:

Dar uma volta em Homi-Danchi e redondezas dá uma sensação de um silêncio opressivo – o som das pessoas adormecidas que trabalham no turno da noite, o som de uma maioria calada que quer, a qualquer custo, ser aceita, o som de gente tentando realmente ficar em silêncio. Até as crianças parecem brincar silenciosamente. (YAMASHITA, 2001, p. 16)109

Assim, o silêncio reinante nos limites do condomínio Homi-Danchi sugere um confinamento sócio-cultural que, ironicamente, aprisiona tanto brasileiros quanto japoneses.

Com relação à opção de recorte teórico feita, percebemos que, ao afirmarem com veemência o caráter coletivo da diáspora, teóricos como Safran (1991) e Cohen (1995, 1999) podem perder de vista a dimensão individual que se justapõe ao grupo, e que também deve ser analisada no contexto da diáspora. A diáspora não deve ser teorizada apenas a partir de laços – impostos ou não – que reúnem indivíduos em grupos, gerando coletividades, para que não se corra o risco de se tornar incompleta ou insuficiente como metodologia de pesquisa. Por isso, tentaremos, no capítulo quinto deste estudo, priorizar a análise do individual por meio do enfoque sobre os sujeitos diaspóricos retratados em Brazil-Maru e Circle K Cycles.

108

“There were Japanese colonies as far north as the Amazon River in Pará and as far south as Paraná […] we were naturally tied to each other by the growing network of cooperatives which the Japanese farmers had created to govern and support their interests.”

109

“A tour of Homi-Danchi and its environs gives you a sense of an oppressive quiet – the sound of sleeping people who work the night shift, the sound of a silent majority who want very badly to be accepted, the sound of people trying hard to be quiet. Even the children seem to play quietly.

Ainda com relação ao caráter coletivo da diáspora, notamos que a representação literária, na obra de Yamashita, também atenta para a questão da “falsa” coesão de grupo. No exemplo de Brazil-Maru, Kantaro despreza as individualidades para forjar uma suposta harmonia do grupo, situação que favorece a sua própria liderança. Vale lembrar também que Sudesh Mishra (2002), em “Diaspora Criticism”, ressalta que nem Safran (1991) nem Cohen (1995, 1999) parecem “sentir a necessidade de refletir criticamente sobre os perigos de se representar diásporas-modelo como coletividades étnicas neutras em questões de classe, gênero e gerações” (MISHRA, 2002, p. 17). É como se projetassem a terra natal e o país hospedeiro como entidades territoriais fixas e homogêneas e forjassem seu argumento em um binarismo.

Outra consideração final deste capítulo que, de fato, é uma contradição de cunho analítico, nasce de nossa proposta inicial: examinar as diásporas japonesa e brasileira tomando por base textos teóricos que, frequentemente, associam-se e se valem das características das diásporas clássicas. Não fazer referências teóricas a diásporas como a judaica é uma tarefa impraticável, ao mesmo tempo em que fazer delas o único parâmetro pode se tornar inviável. Tomemos como exemplo a relação entre diáspora, terra natal e país hospedeiro: em Brazil-

Maru e Circle K Cycles, tal relação é constantemente perpassada pela influência do Estado-nação

na comunidade diaspórica, ao passo que, em diásporas clássicas, essa relação precede a formação dos estados nacionais. Portanto, a fim de compreender melhor duas diásporas que ocorrem na era moderna, será preciso discorrer sobre o Estado-nação. No próximo capítulo, vamos nos dedicar com maior afinco a essa questão.

Este capítulo, portanto, abre caminhos que conduzem a discussões que localizam, historicizam e dão maior especificidade às diásporas que pretendemos examinar. Neste sentido, continuaremos, nos próximos capítulos, uma jornada que almeja transcender o conceito de diáspora, acrescentando, ao conjunto desta análise, abordagens de autores como Stuart Hall (1990, 1992, 1996, 1997a, 1997b, 1997c, 1999, 2003), Boyarian e Boyarin (1993), Avtar Brah (1996), Arjun Appadurai (1999), John Durham Peters (1999), Jana Evans Braziel e Anita Mannur (2003) e Sudesh Mishra (2006).

No documento A diáspora na obra de Karen Tei Yamashita: estado-nação, sujeito e espaços literários diaspóricos (páginas 55-58)