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Questionando os limites das EOPs

No documento A UNE e a questão racial (páginas 30-33)

Capítulo 1: considerações teóricas

2. Teorias dos movimentos sociais: nosso ponto de partida

2.3. Questionando os limites das EOPs

Questionando o pressuposto de que os movimentos sociais são outsiders em relação ao Estado, Craig e Klandermans (1995) chamam a atenção para a necessidade de se compreender a interação desenvolvida entre ambos. Para eles, o Estado é, ao mesmo tempo, antagonista, alvo e patrocinador dos movimentos, bem como organizador do sistema político. Esses autores preocupam-se em entender o impacto das oportunidades políticas nos movimentos, isto é, a influência que o Estado e os sistemas de representação política exercem sobre eles. Assim, conforme esses autores o sucesso do movimento é sobretudo o resultado do ambiente político no qual ele está inserido, sendo este composto por partidos políticos e instituições políticas, como o Estado.

Por sua vez, Goldstone (2003) fala sobre a permeabilidade entre a política institucionalizada (como os partidos e o Estado), e não institucionalizada (como os movimentos sociais), revelando que ambas não são separadas por barreiras fixas. Antes da década de 1980 muitos pesquisadores consideravam os movimentos como estando “de costas” para a política institucional (GOLDSTONE, 2003). Todavia, o autor citado afirma que pesquisas empíricas demonstraram justamente o contrário, na medida em que os movimentos, partidos e eleições

interagem recorrentemente, como demonstrarei no Capítulo 3. Logo, políticas institucionais e movimentos, longe de representarem domínios separados que não dialogam entre si, são interligados em vários contextos.

Nessa mesma direção, Goldstone (2004) problematiza o conceito de EOP, por julgar que ele se tornou demasiadamente generalista para analisar por qual motivo um determinado movimento age politicamente. Criticando esse conceito, o autor esboça a noção de Campos Relacionais Externos, a partir do qual defende a necessidade de compreender o conjunto das relações que os movimentos estabelecem, destacando que os mecanismos presentes nas EOPs não determinam as mesmas causas para todos os contextos. Em direção similar, Klandermans e Meyer (2005) trabalham com o conceito de campo multiorganizacional, que se refere ao conjunto das interações que os movimentos estabelecem com partidos, conjunturas internacionais, contra-movimentos, públicos variados, diferentes atores estatais, ameaças, oportunidades, economia, etc. Para compreender melhor o conceito, mobilizo a citação abaixo do próprio Klandermans (1992, p. 92 apud SILVA, 2010, p. 6):

Organizações de movimentos, assim como quaisquer outras, estão inseridas em um campo multiorganizacional, que nós podemos definir como o número total de organizações com que a organização do movimento pode estabelecer determinados vínculos. Até recentemente, a literatura enfocou basicamente o suporte que uma organização de movimento recebe de setores do campo multiorganizacional e, surpreendentemente, abordou pouco o fato de que o campo multiorganizacional não precisa ser necessariamente apoiador do movimento. Opositores, de fato, sempre constituem uma parte do campo multiorganizacional de uma organização de movimento.

Logo, trabalharei com o conceito de campo multiorganizacional em diálogo com o de oportunidades políticas, na medida em que busco compreender e revelar empiricamente a complexa teia de relações no interior da qual a UNE atuou no período proposto por esta pesquisa.

Elegi abordar este conceito em diálogo com o de oportunidades políticas, pois ele está inserido numa abordagem relacional (na qual esta dissertação se baseia), porquanto busca compreender a relação entre o contexto político e a ação dos atores. Tal perspectiva entende

que a relação entre a “agência”13 e a “estrutura” não é determinada por estruturas rígidas, conferindo importância para a ação dos atores na conformação dos contextos políticos. Meyer (2004) colabora para essa construção argumentativa, na medida em que afirma que a principal contribuição da abordagem do processo político é que ela permite entender a ação dos movimentos sociais inseridos no seu contexto. Ou seja, que as ações dos ativistas não se dão no “vácuo”, mas estão imersas em um ambiente sócio-político mais amplo. Além disso, ele afirma que tal perspectiva constrói o elo entre a “agência” e a “estrutura”, na medida em que ator e contexto político condicionam-se mutuamente. Dessa maneira, as oportunidades políticas não são entendidas como externas aos agentes, mas interagem com eles constantemente, sendo o contexto e os movimentos sociais mutuamente constituídos.

Objetivando aprofundar essa compreensão, Abers, Silva e Tatagiba (2018) elaboram uma contribuição teórica valiosa para o estudo da relação que se desenvolve entre as políticas públicas e os movimentos sociais, problematizando os usos do conceito de oportunidades políticas. Ao identificar que a relação entre o contexto político e os movimentos sociais segue sub teorizada nas discussões sobre os casos brasileiros, essas autoras propõem um modelo analítico que aborda as estruturas relacionais14.

Talvez a contribuição principal desse texto seja compreender a “agência” e a “estrutura” para além da chave da externalidade. A citação abaixo é elucidativa nesse sentido:

(...) a mútua constituição não ocorre entre algo sólido e inanimado e um ator coletivo, e sim entre atores com acesso diferenciado a recursos institucionais. O “ambiente” em que os movimentos atuam não é externo a eles e sim um conjunto de outros atores com os quais eles interagem (ABERS, SILVA, TATAGIBA, 2018, p. 29)

Logo, o contexto político não é algo monolítico, estável e externo aos atores. Ele é conformado por estruturas relacionais que interagem com e são mutuamente condicionadas

13 Conforme Abers, Silva e Tatagiba (2018, p.26): “(...) agência tem a ver com a capacidade ou o poder de produzir

efeitos na realidade”.

14 “(...) as estruturas relacionais que destacamos como sendo relevantes analiticamente são os regimes políticos e

os subsistemas de política pública. Seguindo Tilly (2006, 2008), entendemos o regime como a configuração das relações entre os atores politicamente relevantes, a qual condiciona o acesso às discussões e decisões governamentais. Por subsistemas estamos nos referindo às configurações de poder específicas a cada setor de política pública, que conferem aos movimentos sociais diferentes condições de acesso a esses setores e influência sobre eles” (ABERS, SILVA e TATAGIBA, 2018, p. 17).

pelos agentes. No caso do presente estudo, adoto essa perspectiva enquanto um princípio analítico, na medida em que os agentes influenciam as estruturas, e vice-versa.

Isso será demonstrado nesta dissertação ao longo dos capítulos seguintes, na medida em que os movimentos negros em meados da década de 1990 demandaram políticas afirmativas do Estado, e durante os governos petistas aproveitaram tais políticas para incluir com mais força a pauta racial na agenda da UNE. Ou seja, os movimentos negros criam oportunidades políticas e também as aproveitam. Esse “aproveitamento” e “criação” das oportunidades ocorre através de diferentes repertórios de ação.

No documento A UNE e a questão racial (páginas 30-33)