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Quinta-feira, 22 de janeiro

No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 87-92)

Kim acabou voltando para casa mas, como esperava, não conseguiu dormir muito, e quando conseguiu seu sono foi povoado de pesadelos. Alguns foram incompreensíveis; era castigado e ridicularizado por ter tirado notas baixas nas provas da faculdade. O mais terrível envolveu Becky, e foi fácil para ele compreender. No sonho, ela tinha caído de um píer no mar agitado. Apesar de estar junto dela, não conseguia salvá-la por mais que se esforçasse.

Acordou sobressaltado e molhado de suor.

Apesar de não conseguir descansar muito, a ida para casa ao menos deu a Kim a oportunidade de tomar um banho e fazer a barba. Com pelo menos a aparência um pouco mais apresentável, estava dirigindo seu carro às cinco horas da manhã. Rodou pelas ruas desertas e escorregadias sob uma neve rala e úmida.

No hospital encontrou Becky do mesmo jeito que a deixara. Parecia enganosamente estar dormindo na mais absoluta paz. Tracy também estava mergulhada em sono profundo, encolhida na poltrona de vinil e coberta com uma manta do hospital.

No núcleo de enfermagem, Kim encontrou Janet Emery ocupada com seu serviço burocrático.

– Sinto muito se fui rude ontem à noite – disse Kim, deixando-se cair pesadamente sobre o banco ao lado de Janet. Abriu a gaveta e retirou a ficha de Becky.

– Não considerei como ofensa pessoal – disse Janet. – Conheço a tensão de ter uma criança internada. Tive uma experiência igual com meu filho.

– Como ela passou a noite? – perguntou Kim. – Aconteceu algo que eu deva saber?

– O quadro dela é estável. E o mais importante, a temperatura permanece normal.

– Graças a Deus! – disse.

Ele encontrou o relatório da cirurgia ditado por James e que fora anexado à ficha durante a noite. Kim o leu, mas não encontrou nada que já não soubesse. Sem mais nada a fazer, Kim foi para o consultório e ocupou-se com uma montanha de trabalho acumulado.

Trabalhou consultando o relógio. Quando achou que a hora já era adequada, levando em consideração a diferença de fusos horários com relação à Costa Leste, ligou para George Turner. George foi extremamente solidário quando Kim lhe contou da perfuração e a conseqüente cirurgia. Kim agradeceu-lhe a preocupação e tocou no ponto que o interessava:

queria a opinião de George sobre o que fazer caso fosse confirmado o diagnóstico de SUH provocada por E. coli 0,57:H7. Estava particularmente interessado em saber se Becky deveria ser transferida para outro lugar.

– Eu não recomendaria – disse George. – Você tem uma excelente equipe com Claire Stevens e Kathleen Morgan no comando. Elas têm muita experiência com essa síndrome.

Talvez mais que qualquer outro.

– Já cuidou de algum caso de SUH? – perguntou Kim.

– Só uma vez – respondeu George.

– É tão terrível assim como descrevem? Pesquisei em toda a literatura disponível, inclusive na Internet. O problema é que não existe muito material sobre o assunto.

– O caso de que tratei foi uma experiência desalentadora – admitiu George.

– Pode descrevê-la?

– Foi imprevisível e inexorável. Só torço para que o problema de Becky seja outro.

– Pode ser mais específico? – pediu Kim.

– Prefiro não comentar – respondeu George. – É uma síndrome multiforme. As possibilidades são de que mesmo que Becky a tenha contraído, a evolução da doença ocorra de forma bem diferente. No meu caso, foi muito deprimente.

Kim desligou poucos minutos depois. George pediu para ficar informado sobre o progresso de Becky e Kim prometeu-lhe que o avisaria.

Imediatamente, discou para a sala de enfermagem do andar de Becky. Quando Janet atendeu, perguntou por Tracy.

– Ela já acordou – respondeu Janet. – Eu a vi na última vez em que passei pelo setor.

– Se importaria de colocá-la na linha?

– De maneira nenhuma – disse Janet, de forma amistosa.

Enquanto aguardava, Kim pensou a respeito do comentário de George. Não gostara do tom de sua voz quando disse “imprevisível e inexorável” e de que seu caso fora deprimente.

Tal descrição o fez lembrar-se do pesadelo que tivera durante a noite. Sentiu o corpo transpirar.

– É você, Kim? – perguntou Tracy assim que pegou no aparelho.

Durante alguns minutos conversaram sobre como cada um tinha passado as últimas cinco horas. Nenhum dos dois tinha conseguido dormir bem. A conversa então recaiu sobre Becky.

– Ela parece um pouco melhor que ontem à noite – disse Tracy. – Está mais lúcida.

Acho que já eliminou totalmente a anestesia. Queixa-se mais do tubo nasogástrico. Quando poderá ser retirado?

– Assim que o sistema gastrintestinal estiver trabalhando direito.

– Vamos torcer para que isso aconteça logo.

– Falei com George agora de manhã.

– O que ele disse?

– Que Becky não poderia estar em melhores mãos que as de Claire e Kathleen, principalmente se for confirmada a SUH. Disse que provavelmente não há equipe melhor em nenhum outro lugar.

– Isso é animador.

– Escute, vou ter de ficar por aqui. Preciso examinar alguns pacientes, inclusive os que têm cirurgia marcada para amanhã. Espero que não se incomode.

– Não me incomodo nem um pouco – disse Tracy.– Na verdade, acho que é mesmo uma boa idéia.

– É difícil para mim ficar aqui sentado sem fazer nada. – explicou Kim.

– Compreendo perfeitamente. Faça o que tem de fazer. Eu estarei aqui, por isso não se preocupe.

– Ligue para mim se houver alguma mudança.

– É claro! Você vai ser o primeiro a saber.

Quando Ginger chegou, pouco antes das nove horas, Kim pediu a ela que cancelasse o maior número possível de pacientes porque desejava voltar ao hospital à tarde.

Ginger perguntou sobre Becky, dizendo ter ficado desapontada por ele não lhe ter ligado na véspera. Ficou preocupada a noite toda, mas teve medo de incomodar.

Kim contou a ela que Becky estava melhor depois da cirurgia. Também explicou que tinha chegado em casa depois da meia-noite e achado que era tarde demais para telefonar.

No início, não foi fácil para Kim atender os clientes naquelas circunstâncias, mas esforçou-se para se concentrar no trabalho. Gradualmente, o esforço foi surtindo efeito. Por volta do meio-dia sentia-se ligeiramente mais relaxado, embora o coração disparasse a cada vez que o telefone tocava.

Não sentia fome na hora do almoço e o sanduíche que Ginger trouxe permaneceu intacto sobre a mesa. Kim preferiu dedicar-se inteiramente aos problemas de seus pacientes. Dessa forma não tinha tempo de pensar nos seus.

No meio da tarde, Kim falava ao telefone com um cardiologista de Chicago quando Ginger abriu a porta. Por seu semblante carregado, podia-se dizer que havia algo errado. Kim tampou o fone com a palma da mão.

– Tracy estava na outra linha – disse Ginger. – Estava muito nervosa. Disse que Becky teve uma recaída súbita e foi levada para a UTI.

O pulso de Kim disparou. Rapidamente, encerrou a conversa com o colega de Chicago e desligou. Vestiu o paletó, pegou as chaves do carro e correu para a porta.

– O que devo fazer com o resto dos pacientes? – perguntou Ginger – Mande-os para casa – disse ele, secamente.

Kim dirigiu com determinação, freqüentemente cortando pelo acostamento para evitar o congestionamento da tarde. Quanto mais se aproximava do hospital, mais angustiado ficava.

Apesar de sua insistência em removê-la para a UTI, estava apavorado agora que ela tinha sido transferida. Conhecendo bem a política de corte de despesas do AmeriCare, estava certo de que a transferência não teria motivos profiláticos; algo extremamente grave devia ter acontecido.

Esquivando-se do estacionamento privativo dos médicos, Kim subiu diretamente pela rampa da plataforma de desembarque. Saltou do carro e jogou as chaves para um espantado guarda de segurança.

Kim não conseguia contro1ar o nervosismo durante a lenta subida do elevador até o andar da UTI. Uma vez no corredor apinhado de visitantes, moveu-se o mais rápido que pôde.

Chegando à sala de espera reservada especialmente para os familiares dos pacientes internados na UTI, Kim divisou Tracy. Ela se levantou assim que o viu e correu até ele.

Tracy enlaçou Kim pelo pescoço e apertou-o desesperadamente, sem querer soltá-lo.

Kim teve de fazer força para separar-se. Olhou bem nos olhos dela, inchados e lacrimejantes.

– O que aconteceu? – perguntou. Tinha medo de ouvir a resposta.

– Ela piorou muito e aconteceu tão de repente como a perfuração.

– O que foi? – perguntou Kim, alarmado.

– Foi a respiração. De repente ela não conseguia mais respirar.

Kim fez menção de entrar, mas ela o agarrava pelo paletó.

– Kim, você tem de me prometer que vai se controlar. É preciso, pelo bem de Becky! – implorou.

Kim soltou-se de Tracy e atravessou a sala correndo.

– Kim, espere! – gritou ela, e correu atrás dele.

Ignorando Tracy, Kim apressou-se pelo corredor e entrou na UTI.

Transtornado, Kim cruzou a porta da UTI. Parou por um instante e examinou a sala. A maioria dos leitos estava ocupada. Eram todos pacientes em estado grave. Havia enfermeiras ao lado de quase todos os leitos. Pilhas de equipamentos de monitoração eletrônica faziam barulho e mostravam informações vitais.

A atividade era mais intensa num dos quartos menores que ficavam à direita. No seu interior estava um grupo de médicos e enfermeiras cuidando de um caso agudo. Kim dirigiu-se até lá e parou diante da porta. Podia ver um respirador e escutar seu ritmo cíclico.

Judy Carlson, uma enfermeira que Kim conhecia, notou a presença dele. Ela o chamou pelo nome e todos à volta do leito de Becky, silenciosamente, deram um passo atrás para que Kim tivesse uma visão melhor. Becky tinha sido entubada. Um tubo grosso saía de sua boca e estava preso ao rosto com esparadrapo. Ela respirava com o auxílio do aparelho.

Kim correu até a beira da cama. Becky o fitou, aterrorizada. Tinha sido sedada, mas estava ainda consciente. Seus braços tinham sido amarrados para evitar que arrancasse o tubo endotraqueal.

Kim sentiu uma forte pressão no peito. Estava revisitando o sonho que tivera durante a noite; só que ali era real.

– Está tudo bem, querida, papai está aqui – disse Kim, lutando para controlar as emoções.

Queria desesperadamente encontrar algo para dizer que pudesse confortá-la. Apertou seu braço. Ela tentou falar, mas não pôde por causa do tubo na garganta.

Kim olhou para as pessoas presentes à volta. Centralizou a atenção em Claire Stevens.

– O que aconteceu? – perguntou, mantendo a voz serena.

– É melhor conversarmos lá fora – disse Claire.

Kim concordou com um aceno de cabeça. Apertou novamente a mão de Becky e disse que estaria de volta num minuto. Becky tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu.

Os médicos deixaram a sala e se reuniram num canto. Kim cruzou os braços para disfarçar a tremedeira.

– Fale comigo! – exigiu Kim.

– Primeiro, deixe-me apresentá-lo aos outros – disse Claire. – É claro que conhece Kathleen Morgan. Temos o Dr. Arthur Horowitz, nefrologista; o Dr. Walter Ohanesian, hematologista; e o Dr. Kevin Blanchard, pneumologista.

Claire apontou uma pessoa de cada vez. Todos acenaram com a cabeça para Kim, que acenou de volta.

– E então? – perguntou, impaciente.

– Em primeiro lugar, devo dizer que estamos definitivamente lidando com E. coli 0,57:H7 – disse Claire. – Saberemos qual a variedade amanhã, quando sair o resultado da eletroforese.

– Por que foi entubada?

– A toxemia comprometeu os pulmões. A gasometria arterial venosa despencou subitamente.

– Também sofre de insuficiência renal – disse Arthur. – Demos início a uma diálise peritoneal. – O especialista em rins era um homem totalmente calvo e de barba densa.

– Por que não usar a máquina para diálise? – perguntou Kim. – Não é mais eficaz?

– Não deve haver problema com a diálise peritoneal – disse Arthur.

– Mas ela acaba de sofrer uma cirurgia por causa da perfuração.

– Isso foi levado em consideração. O problema é que o AmeriCare só oferece máquinas de diálise no Hospital Suburbano. Teríamos de transferir a paciente, o que não é, absolutamente, recomendável.

– Outro sério problema é a diminuição crescente na contagem de plaquetas – disse Walter. O especialista em sangue era um homem mais velho e grisalho, rondando seus setenta anos. – Estão caindo vertiginosamente. Achamos que precisam ser repostas, apesar dos riscos inerentes. Caso contrário, teremos nas mãos um quadro hemorrágico irreversível.

– Ainda temos o problema hepático – disse Claire. – As enzimas do fígado subiram extraordinariamente, sugerindo…

A mente de Kim já não suportava mais carga. Estava tão atordoado que não conseguia absorver as informações que iam sendo apresentadas. Podia ver os médicos falando, mas não os ouvia. O pesadelo repetia-se uma vez mais, com Becky debatendo-se no mar raivoso.

Meia hora depois, Kim deixou a UTI e foi para a sala de espera. Tracy Levantou-se no instante em que o viu. Era um homem arrasado.

Por um momento entreolharam-se em silêncio. Agora foi a vez de Kim irromper em lágrimas. Tracy segurou em seu ombro e entrelaçaram-se num abraço de medo e de dor.

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No documento DADOS DE COPYRIGHT (páginas 87-92)