1.2 A POLIDEZ : PRECURSORES E CONTEMPORÂNEOS EM DIÁLOGO
1.2.5 Brown & Levinson (1987)
1.2.5.4 Realização de FTA indireta e implicitamente
Há certos recursos capazes de promover a realização de FTA de maneira implícita, indireta, semelhante ao que ocorreu nas estratégias que compõem a ação de realização de FTA diretamente com reparo a partir da polidez negativa. Por serem estratégias indiretas, há violação às máximas de Grice (2006 [1975]) na recomendação, muitas vezes, da ambiguidade, da obscuridade e da prolixidade na relação entre os interagentes.
Sobre a indiretividade, ressalto a importância do processamento adequado das pistas de contextualização (cf. GUMPERZ, 1982a,1982b, 1997 [1992a]) enunciadas no processo interacional. Ao optarmos por utilizar a indiretividade, podemos ter o processo inverso das
ações de FTA diretas (a redução dos riscos de ameaça à face), porém com a possibilidade de sermos pouco objetivos. Cabe, então, a avaliação do locutor acerca da melhor ação, a depender dos seus objetivos. Brown & Levinson (1987), então, apontam quinze estratégias indiretas, as quais são ilustradas com alguns exemplos vivenciados em sala de aula e outros criados por mim.
As indiretividades podem ser consideradas estratégias que contribuem para evitar imposições ao interlocutor, preservando, assim, sua face negativa por não interferir em sua liberdade. Para Kasper (1990), então, ela é considerada estratégia polida. Já para Blum-Kulka (1987), há possibilidade de a indiretividade, quando desacompanhada de pedido direto, ser avaliada como estratégia impolida, em razão de o locutor não ser plenamente sincero e gerar demasiada carga inferencial ao interlocutor.
Quadro 6 - Realização de FTA indireta e implicitamente
Estratégias de Indiretividade Estratégia 1: forneça
pistas, dicas Por meio do processo de inferenciação, é possível compreender que enunciados do tipo Está quente hoje como ato de fala indireto, significando Abra a janela (por favor).
Estratégia 2: realize associações por meio das pistas
Para o entendimento de determinada enunciação, é necessário que o interlocutor faça associações com base em informações anteriores à enunciação. Se um aluno meu desejasse conversar com a coordenadora do curso e eu dissesse a ele que ela não gostava muito de acordar cedo, possivelmente ele optaria por procurá-la no turno vespertino, pois, por associação, estaria expresso que ela não o atenderia pela manhã, pelo menos não muito cedo.
Estratégia 3: promova
pressuposições Suponhamos que determinado estudante tenha chegado atrasado em sala e não tenha recebido as primeiras instruções para a realização da tarefa proposta. Ao ver todos reunidos em grupos, ele pergunta: Professor, o que é para fazer?, e eu respondo: Tudo bem, vou explicar novamente. Essa resposta contém duas pressuposições: a de que as instruções já foram dadas; e, mais implicitamente, dependendo dos aspectos não verbais, a de uma crítica ao atraso do aluno, que deveria, assim como os demais, ter chegado pontualmente para acompanhar a aula.
Estratégia 4: diga menos que o necessário
Nessa estratégia, o interlocutor resolve fornecer menos informações do que lhe é solicitado, de modo a violar a Máxima da Quantidade. Após a apresentação oral de Mary, pedi que Carlos avaliasse o desempenho da colega, e ele restringiu-se a dizer que a colega tinha se saído bem. Toda a turma riu da situação, especialmente pela minha expressão facial (alguns apontaram para o meu rosto, que sinalizava insatisfação), pois ele não havia fornecido o feedback solicitado. No entanto, o aluno revelou, ao final da aula, que
não gostaria de ser mal avaliado pela colega, ao mencionar aspectos negativos da apresentação.
Estratégia 5: diga
mais que o necessário Dizer além do que é solicitado também constitui violação à Máxima da Quantidade, por se afirmar algo sem evidência adequada. Nessa estratégia, os autores situam a hipérbole, e resgato a situação vivenciada entre Roberta e Cíntia, quando a mãe disse à filha: você não desgruda nunca desse celular.
Estratégia 6:
empregue tautologias Conhecida por redundância intencional, a tautologia consiste no emprego de sentenças semelhantes, com o intuito de o interlocutor interpretar a informação ocultada, não revelada explicitamente. Esse recurso infringe a Máxima da Quantidade, por ser, para Grice (2006 [1975], p. 73), totalmente não informativa. Certa vez, elogiei a pronúncia dos alunos, no geral; disse a eles que haviam desenvolvido bem essa habilidade. Aproveitando esse comentário, Carlos, sempre bem humorado, disse: Quer dizer que estamos
dispensados da prova oral?. Os alunos riram bastante, e eu lhe respondi, também em tom de brincadeira: Uma coisa é
uma coisa, outra coisa é outra coisa. Isso foi motivo de riso geral, e é claro que, muito mais que o conceito, empreguei com naturalidade uma ferramenta linguística útil para as situações de interação face a face, que lançou mão de implicitudes relacionadas a aspectos culturais.
Estratégia 7: utilize
contradições A contradição viola a Máxima da Qualidade, pois fere a veracidade da informação dada, e pode ser expressa por meio de ironias, metáforas e perguntas retóricas. Ao perceber Patrícia em momento de distração, falei para ela: Eita,
Patrícia, você tá aqui e não tá, né?; ela entendeu perfeitamente, até por que estava bem evidente, para todos, a sua dispersão naquele momento. O uso de indagações pospostas (cf. MARCUSCHI, 1991, p. 74) consiste em sinal de abrandamento, fortalecendo ainda mais a estratégia mitigadora.
Estratégia 8: seja
irônico A ironia infringe a Máxima da Qualidade (GRICE, 2006 [1975], p. 74), por ser fornecida informação contrária àquilo que ela, de fato, significa. Quando Patrícia me perguntou se determinada casa noturna era boa para dançar, eu lhe disse é
uma maravilha (fazendo gesto com uma mão sinalizando que o ambiente é muito cheio); ela, na sequência, comentou ah,
então não serve pra mim, não.
Estratégia 9: use metáforas
As metáforas são construídas a partir de ideias que não podem ser realizadas no plano real e, por serem consideradas falsas, violam também a Máxima da Qualidade (GRICE, 2006 [1975], p. 74). Sobre metáfora, ainda, Henle (1966 [1958], p. 182) considera importante conceituar esse recurso a partir do ponto de vista do interlocutor, sendo ela impossível de se materializar no sentido literal, devendo o interlocutor, assim, redirecioná-la para o sentido figurado. No contexto de sala de aula, quando falávamos sobre animais, conversamos sobre a associação pejorativa feita em
nosso país entre a mulher e os animais, como a vaca, a cobra e a galinha, por exemplo.
Estratégia 10: formule perguntas retóricas
As questões retóricas não são formuladas para que se dê uma resposta a ela. Em geral, visam à reflexão do interlocutor acerca de determinado assunto. Assim como as estratégias anteriores, ela também fere a Máxima da Qualidade, por violar as condições de sinceridade. Ao abordarmos algumas expressões idiomáticas em sala de aula, foi mencionado o exemplo do Você sabe que horas são?, inserido no contexto de alguém que chega atrasado a determinado encontro.
Estratégia 11: seja
ambíguo Ao infringir a Máxima do Modo, a ambiguidade existente em o burro do Álvaro está doente, por exemplo, pode trazer interpretação literal (o burro é o animal), ou crítica a Álvaro (o burro é o Álvaro). É evidente que os aspectos não linguísticos, extralinguísticos e paralinguísticos podem ser responsáveis por selecionar uma ou outra interpretação.
Estratégia 12: seja
vago A vagueza é categorizada pelos autores como a indefinição que pode existir nos referentes e, assim como a ambiguidade, viola a Máxima do Modo. Sobre esse aspecto, discutimos em sala a estratégia que as mães brasileiras utilizam para falar dos filhos sem que eles saibam. A mãe diz para uma amiga, por exemplo, você sabia que alguém aqui ontem não tomou
banho (referindo-se ao filho que está no mesmo ambiente).
Estratégia 13:
generalize A generalização consiste em estratégia que, a partir da descrição de dada regra geral, pretende atingir indiretamente determinado interlocutor. É comum o uso de expressões idiomáticas, os ditos populares, serem aplicados com essa finalidade. Robson, com frequência, atrasava-se para o início da aula e constantemente escutava o dito Deus ajuda a quem
cedo madruga.
Estratégia 14: desloque o interlocutor
O deslocamento do interlocutor ocorre quando queremos fornecer informação para determinado sujeito, mas com intenção de nos referirmos a outro. Resgatando o exemplo dado sobre as mães brasileiras que costumavam criticar os filhos indiretamente, uma delas poderia dizer: Sabe, eu não
sei por que você (a amiga) ainda não tomou banho
(referindo-se ao filho que está no mesmo ambiente).
Estratégia 15: use sentenças apagadas (elipse)
Alguns segmentos da conversação são apagados intencionalmente, violando, por consequência, as Máximas do Modo e da Qualidade. Um exemplo dessa estratégia seria uma pessoa com dor de cabeça intensa que sinalizasse isso dizendo apenas dor de cabeça, ou seja, não seria necessário, para o processamento da informação, dizer estou com dor de
cabeça agora, você poderia providenciar um remédio?.