1.3 Contexto brasileiro de reconhecimento de direitos da criança
1.3.2 Reconhecimento Irregular dos direitos da criança
Após a implantação de um novo modelo pedagógico que começou a pensar a infância como uma etapa do desenvolvimento, reconhecendo a criança como ser dotado de subjetividade e especificidade, a situação dela no Brasil começou a ser encarada como um problema, que despertou a consciência de população, a qual ciente de que as atividades filantrópicas e da Igreja não eram capazes de atingir objetivos satisfatórios, outorgou um viés político.
A partir do século XIX, a criança e o adolescente passaram a ser vistos como instrumentos a serem moldados, e com os quais seria possível transformar a realidade atual do país com o objetivo de colocar a nação a salvo de todo o tipo de criminalidade. (RIZZINI, 1997, p. 203)
A Lei 4242 de 1921 abandona o caráter biopsicológico (sistema que vigeu desde o Código Penal da República) adotando um critério objetivo de imputabilidade penal, fixando-a
em quatorze anos. Nesse mesmo sentido, a Consolidação das Leis Penais (decreto 22.213 de 1922) mantém tal imputabilidade, considerando que não são criminosos os que não tiverem quatorze anos completos.
Brasil criou em 1923, por meio do Decreto nº 16. 273/23, no Rio de Janeiro, o Primeiro Juízo de Menores, sendo o juiz José Cândido de Albuquerque Mello Matos, nomeado como juiz, o qual se tornou o primeiro juiz de menores da América Latina.
O ano de 1927 é marcado pela promulgação do Decreto 17934-A, primeiro código de menores: lei minuciosa composta por 231 artigos, onde se determinava nos mínimos detalhes o exercício da vigilância sobre os menores. O código ganhou reconhecimento como: Código Mello Mattos, em homenagem ao seu autor. Ressalta-se que, em vista desse novo diploma legal, surgiu uma nova categoria jurídica e social para designar a infância pobre e infratora: o menor.
Veronese (1999, p. 28), refere quanto ao mérito da legislação em separar o direito menorista dos códigos penais adultos:
O Código de Menores veio alterar substituir concepções obsoletas como as de discernimento, culpabilidade, penalidade, responsabilidade, pátrio poder, passando a assumir a assistência ao menor de idade, sob a perspectiva educacional. Abandonou- se a postura anterior de reprimir e punir e passou-se a priorizar, como questão básica, o regenerar e educar. Desse modo, chegou-se à conclusão de que questões relativas à infância e à adolescência devem ser abordadas fora da perspectiva criminal, ou seja, fora do Código Penal.
Juridicamente o adolescente infrator passou a ser uma categoria inscrita em lei, em 1927, no Código de Menores, com o termo menor delinquente. No império, o adolescente que cometia delito era comumente tachado de desviante ou jovem desvalido, que, em não sendo alcançado e julgado pela justiça, poderia ser encaminhado pelo pai, pela polícia ou outra pessoa da sociedade para as instituições disponíveis na época: Seminários, Casas de Educandos Artífices ou Companhias de Aprendizagem de Guerra (COLOMBO, 2006, p. 51).
Conforme ilustra Machado (2003, p. 33)
Esta nova categoria expressa no binômio carência/delinquência, aliada à distinção que se fez entre a infância ali inserida e as boas crianças, vai conformar todo o direito material da Infância e da Juventude e as instancias judiciais criadas para aplicação desse direito especial, que, ele sim, já nasceu menor.
E direito especial verdadeiro direito de exceção na acepção mais autoritária do termo, porque somente aplicável ao grupo de crianças que se enquadra na categoria carência/delinquência, ao qual sempre se opôs outro conjunto de regras, aplicáveis às outras crianças, tradicionalmente encampado no Código Civil de diversos países. Observa-se que, pela determinação do código, qualquer menor com idade maior de 14 anos e inferior a 18 anos, por sua simples condição de pobreza, abandono ou delinquência, estava sujeito a ser enquadrado na ação do juizado de menores. Em que pese tal código tenha
sido elaborado exclusivamente para o controle da infância pobre, abandonada e delinquente, o ordenamento prevê um tratamento um pouco mais humanizado do que qualquer outro dispositivo anteriormente elaborado. Ademais, como ponto positivo, anota-se a proibição a trabalhos perigosos à saúde, à vida, ou fatigantes, proibindo inclusive o trabalho noturno.
A partir da Revolução de 1930 foi instalada a era Vargas, que adotou políticas voltadas para o bem-estar do menor:
Na era Vargas, a família e a criança das classes trabalhadoras passaram a ser alvo de inúmeras ações do governo, inaugurando uma política de proteção materno-infantil. Num período em que um contingente significativo de mulheres começou a se lançar no mercado de trabalho, provocando mudanças na estrutura e dinâmica familiares, Estado e sociedade se uniram para manter a estabilidade da família e garantir adequada educação da criança, de acordo com a concepção de cidadania da época, isto é, a formação do trabalhador como “capital humano” do país, através do preparo profissional e o respeito à hierarquia pela educação moral. (RIZZINI, 2012, p. 25) Em 1934 é promulgada uma nova Constituição para o Brasil, que regulamentou o trabalho e fixou a proibição do labor aos menores de 14 anos, de trabalho noturno aos menores de 16 e de trabalho insalubre para menores de 18 anos. Estabeleceu ainda a obrigatoriedade do ensino primário.
Em 1940 entrou em vigor o Código Penal Brasileiro, que fixou a imputabilidade penal em dezoito anos. Ele fundamenta-se na condição de imaturidade do menor, que está sujeito apenas à pedagogia corretiva da legislação especial.
Logo, em 1941, no período do Estado Novo, foi criado o Serviço de Atendimento aos Menores (SAM), que pertencia ao Ministério da Justiça e era voltado para a correção e repressão dos jovens infratores, abandonados ou desvalidos. Este serviço equivalia ao sistema penitenciário para os menores de idade. O SAM perdurou por vinte anos; entretanto, não conseguiu atingir seus objetivos, tornando-se alvo de críticas e denúncias de maus-tratos aos menores internos.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial, no Brasil intensificaram-se os movimentos em favor da redemocratização do país, de modo que, em 1946 é promulgada a Constituição dos Estados Unidos do Brasil. No que se referia aos direitos da criança, manteve a proibição do trabalho infantil e ampliou para dezoito anos a aptidão para o trabalho noturno.
Em 1950 foi instalado o primeiro escritório do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em João Pessoa, Paraíba, que estabelecia programas de proteção à saúde da criança e das gestantes nos estados do nordeste brasileiro.
Com o golpe militar em 1964, as forças armadas assumem definitivamente a ação de protetoras da infância em situação irregular, que passou a ser encarada como um problema
social; a partir de então, o Brasil passou a adotar políticas de institucionalização, de forma opressora e repressiva. Em substituição ao Serviço de Atendimento aos Menores, é criada pela Lei 4.513 de 1.12.64 a Fundação do Bem Estar do Menor. Essa entidade atendia (por meio de políticas básicas de prevenção centradas em atividades fora de internatos e medidas sócio- terapêuticas) os menores internados.
[...] a “questão do menor” interessava à segurança nacional, não só pela eventual canalização do potencial do “sentimento de revolta” dessa juventude “marginalizada” pelos movimentos de contestação do regime, mas, também, tendo em vista os efeitos da dilapidação do seu potencial produtivo para o processo de desenvolvimento.
Interessava, ainda, por causa das famílias marginalizadas e marginalizantes das quais essas crianças e adolescentes eram o produto socialmente mais visível, mais deletérios e mais incômodo, para o modelo de crescimento adotado pelos governos militares. A infância “material ou moralmente abandonada” transformou-se, desse modo, em motivo e canal legítimos de intervenção do Estado no seio e no meio de família pobres. (RIZZINI, 2012, p.27)
Desse modo, a partir da criação da Fundação do Bem Estar do Menor, que tinha como objetivo criar e programar a política do bem-estar do menor, por meio de diretrizes políticas e técnicas, nos estados e municípios foram criadas, respectivamente: a Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor e Centro do Bem Estar do Menor, as quais apresentaram uma nova concepção de assistência ao menor, baseadas na atual ideologia.
Saraiva (2002, p. 14) considera a institucionalização desse período como:
[...] grandes institutos para menores, até hoje presentes em alguns setores da cultura nacional, onde muitas vezes misturavam-se infratores e abandonados, vitimizados por abandono e maus-tratos com autores de conduta infracional, partindo do pressuposto de que todos estariam na mesma condição, estariam em “situação irregular”.
Em 1979, Ano Internacional da Criança, instituído pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância, com o objetivo de avaliar os problemas que afetavam crianças do mundo todo. No Brasil, foi instituído o segundo Código de Menores, tendo como fundamentação a Doutrina da Situação Irregular e como objetivo apenas reprimir crianças e adolescentes em situações patológicas, sendo marcado por políticas assistencialistas fundadas na proteção da criança e do adolescente abandonados ou infratores. O acesso à justiça era limitado aos casos previstos em lei, sendo que os demais eram excluídos do amparo jurisdicional. Convém ressaltar que, de acordo com Paulo Afonso Garrido de Paula (1989, p. 122): “O Estado nunca foi chamado perante o judiciário, sequer para justificar suas constantes omissões.” Assim, percebe-se que nesse período, a responsabilidade sobre a criança era exclusiva da família, abstendo-se o Estado e a sociedade de qualquer dever.
Nesse período, as decisões judiciais eram estritamente subjetivas: “Não havia, portanto, o império da fundamentação das decisões, ou do estabelecimento do contraditório ou da ampla defesa. O ‘bom pai’ poderia utilizar-se de sua experiência e bom senso para definir o destino de qualquer de seus assistidos, [...]” (MARQUES, 2000, p. 468)
O período de vigência do código de menores foi marcado por decisões autoritárias baseadas em critérios subjetivos do juiz, que se preocupava em atender os menores que tinham desvio de conduta e os que se encontravam desabrigados, ou seja, autores de ato infracional ou não.
O ‘menor irregular’ contido no CMM e tratado pelas legislações posteriores era, na verdade, encarado como um produto da degeneração moral e cívica de algumas poucas famílias e pais; além disso, enquadrava a grande maioria das crianças e adolescentes brasileiras como passíveis de medidas preventivas, pelo simples fato de serem pobres. Isto representava, pois, uma enorme ingerência do Estado na esfera social, frequentemente arbitrária, autoritária e desastrosa, ainda que bem intencionada. (AZEVEDO, 2007 p.33)
Assim, observa-se que, em termos de políticas sociais de proteção a infância, o Brasil desenvolveu dois modelos específicos: o assistencial e o corretivo. Ambos sem quaisquer resultados positivos, um porque além de não reconhecer as peculiaridades da infância, não pretendia construir cidadãos emancipados; e o outro porque de forma vergonhosa pretendia punir a pobreza, dividindo as crianças em duas categorias, beneficiando somente, as que já nasciam beneficiadas, e segregando da sociedade, justamente aquelas que mais necessitavam de amparo e orientação.