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Redes-Rizoma: explorando a interface entre saúde e filosofia

A experiência com o Coletivo da Música nos aproximou permanentemente da construção de uma rede que se fazia sempre junto, às margens, ou no contra-fluxo da rede de serviços de saúde e seus fluxos instituídos: uma rede, ou muitas redes, se construindo a partir e além da rede de saúde conhecida enquanto tal. Foi a partir desta experiência, que nos lançamos no desafio de pensar tal conceito: rede enquanto rizoma.

Neste ponto, apresenta-se um intercessor conceitual que permita transitar por estes emaranhados de saberes, instituições, equipamentos e territórios. A partir da leitura de DELEUZE and GUATTARI (12) e leitores como Kastrup (33), Rolnik (34), Passos, Kastrup (35), propõe-se uma artesania9: transitar entre as proposições filosóficas, ontológicas e práticas do conceito de rede. Artesanar como o próprio ato de experimentação, investigação, em que o transitar entre espaços produtivos e produtos finais possam trazer a inventividade e a metodologia necessárias para o traçar de outras linhas de forças, possíveis saídas e até outros sentidos na compreensão das redes e na consequente produção do cuidado em rede.

Para Kastrup (33), em sua leitura ontológica, o conceito de rede é um dos objetos da topologia de geometria variável, o que implica dizer que, não há uma primazia das dimensões, como por exemplo, medidas de altura, largura ou profundidade, na definição de uma rede. Não importa se aumentamos ou diminuímos tais dimensões, uma vez que ela não se define por sua forma, por seus limites e externalidades, mas sim pelas relações que se estabelecem entre essas medidas, estas formas, suas relações e conexões. Portanto, o que se coloca como elemento constitutivo são os fluxos (com suas intensidades) e o(s) nó(s), pontos de convergência e encontro destes fluxos.

9Pesquisado em dicionário inFormal (SP) 23-08-20011: palavra de uso recorrente no Brasil, embora ainda

considerada, em termos linguísticos, um "estrangeirismo". Aqui, a palavra é tomada do espanhol e pensada como sendo os processos que implicam na experimentação, investigação, espaços produtivos e produto final, pelos quais o artesão transita para ter um resultado adequado, o que inclui, ainda, a inventividade e a necessidade de métodos apropriados, mesmo em se tratando de um trabalho informal, sem compromisso com a seriação. Artesania, sugere, deste modo, o ato de fazer o artesanato e não meramente o produto final. In:

Nesse sentido, podem-se traçar linhas: retas, longilíneas, sinuosas, curvas, curtas, mas o que define a constituição de uma rede são os pontos em que se encontra, cruza, são as zonas de intersecção entres vetores, lá onde estes traços, essas linhas se dobram uma na outra, ali onde fluxo se efetiva em nó. O que define a rede, então, é exatamente esta relação,entre os nos e o fluxo que perpassam.

Ao lançarmos mão do conceito de rede, na companhia da autora, nos inclinamos mais aos pontos de conversão, conexão, suas bifurcações e acoplamentos, mais do que pela sua forma a priori. Como um sistema aberto, que se define pelas conexões, que garante com isso um movimento de criação a partir de seus nós, seus fluxos, seus encontros, expandindo-se em múltiplas direções. São essas qualidades que definem uma rede que podem nos servir a pensar a produção do trabalho e o cuidado em saúde. Por uma lógica da conexão, das interseções em contraponto a lógica do fluxo protocolar, das superfícies marcadas e hierarquizadas e suas geometrias rígidas no Sistema de Saúde.

Dito isto, intentamos aqui delinear outro conceito, o de rizoma. Kastrup (33) propõe um paralelismo entre o conceito de rede e rizoma. Seguimos, então, sua evocação ao conceito proposto por DELEUZE and GUATTARI (12).

DELEUZE and GUATTARI (12), ao proporem o conceito de rizoma, apresentam as características aproximativas, descritas em Mil Platôs como princípios. Destacam-se aqui alguns destes princípios, relevantes para a confecção desta artesania: a linha é uma expressão intensiva.

Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo. (...) o rizoma é aliança, unicamente aliança. (...) o rizoma tem como tecido a conjunção "e... e... e..." Há nesta conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser. Para onde vai você? De onde você vem? Aonde quer chegar? São questões inúteis. Fazer tabula rasa, partir ou repartir de zero, buscar um começo, ou um fundamento, implicam uma falsa concepção da viagem e do movimento (metódico, pedagógico, iniciático, simbólico... (p.37 )

Ao se propor a qualidade do “entre” na concepção de rede, aspira-se uma perspectiva, um posicionamento. Perspectiva que recoloca o problema da construção de

uma rede. O “entre” nos apresenta o movimento do que se passa de um ponto ao outro, de um nó ao outro, de um equipamento de saúde ao outro, de um sujeito ao outro, ou mesmo o que se passa entre um nó. Invertendo a lógica da causalidade linear, dos fluxos protocolares e enrijecidos, sacudindo suas linhas-multilineares, recolocando a compreensão quanto aos nós muito próxima ao conceito de agenciamento forjado por DELEUZE and GUATTARI (12):

(...) Como em qualquer coisa, há linhas de articulação ou segmentariedade, estratos, territorialidades, mas também linhas de fuga, movimentos de desterritorialização e desestratificação (...) Tudo isso, as linhas e as velocidades mensuráveis, constitui um agenciamento (12, p.12).

Desta forma, um nó, um equipamento, se expressa a parir do campo em que ele se constituiu, sendo o produto próprio de articulações produzidas pelas composições de distintas linhas de forças, assim como uma rede também se efetua a partir do campo em que ela se inscreve. Tal perspectiva nos coloca diante das intensidades e variações que se expressam nos agenciamentos-rede, diante das heterogeneidades discursivas, tecnológicas, sociais, linguísticas, etc. Arede assim pensada aproxima-se à ideia de que “A rede é uma encarnação, uma versão empírica e atualizada do rizoma. É já um campo visível de efetividade, onde ocorrem agenciamentos concretos entre os elementos que a compõe” (33, p.57).

Em outra passagem, Deleuze and Parnet (36) afirmaram:

(...) O que é um agenciamento? é uma multiplicidade que comporta muitos termos heterogêneos e que estabelece ligações, relações entre eles, através das idades, sexos, reinos – de naturezas diferentes. Assim, a única unidade do agenciamento é o co-funcionamento: (...) uma ‘simpatia’ (36, p.84).

Essa concepção de rede comporta antes de tudo o heterogêneo e a heterogênese. Trata-se, portanto, de uma noção de rede que surge já comprometida com o desafio de produção de encontros entre diferentes e na produção de diferença. Pensar os nós da rede enquanto agenciamentos concretos é uma forma de explicitar que estes nós são pontos de encontro de múltiplos fluxos, em que o agenciamento diz dos modos de conexão possíveis.

A rede, apesar das tentativas de se organizar e se protolocar, age a todo o momento por linhas imprevisíveis que se organizam a posteriori, uma vez que operam por conexões que procedem por contato, na medida em que o(s) nó(s) se estabelece(m) por contágio, mesmo que provisoriamente, constituindo alianças. Alianças que se delineiam por diversas lógicas, sejam elas hierárquica, ou alianças menores que possibilitem a quebra de fluxos rígidos, homogêneos. Alianças mais visíveis e alianças menos visíveis a estabelecer contra-fluxos nos fluxos instituídos. Alianças da música a traçar novos fluxos na rede, onde o coletivo (Coletivo da Música) se põe a agenciar novos possíveis, criar novas redes e novas saídas. A arte a traçar linhas transversais

Ao trabalharmos com o conceito de rizoma, as formas passam a ter um caráter contingente e provisório. Desta maneira, o rizoma aponta para um domínio anterior às binaridades e dicotomias. Com isso, as formas e as distintas lógicas – hierárquicas, centralizadas, piramidais, ramificadas, multicêntricas – colocam-se como parte de um plano de conexões efetivas. E o rizoma é a própria condição de toda efetividade e atualização dos agenciamentos (12, 33).

Ao se destacar a provisoriedade da forma, confere-se a ela a temporalidade e a contingência. Não se trata de negar as formas e suas organizações, mas de tomá-las como formas-produto, localizá-las sempre em processo. Assim, ao trabalharmos com as estruturas – sejam elas, macro ou micro – e seus conjuntos de pontos e posições, lhe atribuímos movimento.

Compreender que um equipamento, um serviço de saúde, é efeito de linhas que se fiam em movimento inventivo, nos abre a questões como: Quais concepções de cuidado/cliínica são operadas nestes arranjos? Pois se são arranjos produzidos o próprio cuidado também o é... Quais fluxos-nós se produzem ao apostarmos na música como acionadora destas práticas de cuidado na rede? Quais fios que se tecem em redes que balançam? Reconhecemos, assim, um jogo entre as formas - sejam elas espaciais, institucionais- e os múltiplos vetores, toda uma multiplicidade de linhas que tramam e tecem a rede.

Deleuze e Guattari sinalizavam quanto a esse impasse das concepções, tanto a hierárquica-arborescente como a rizomática. Uma quebra de fluxo pode ser tanto mais uma nova forma hierárquica que se concretiza, quanto podemos encontrar empuxos rizomáticos nas formas hierarquizadas. Então, do que se trata tal distinção?

O que conta é que a arvore-raiz e o rizoma-canal não se opõem como dois modelos: um age como modelo e como decalque transcendente, mesmo que engendre suas próprias fugas; o outro age como processo imanente que reverte o modelo e esboça um mapa, mesmo que constitua suas próprias hierarquias... (12, p.31).

Assim, quando se pensa em um funcionamento rizomático se quer também recolocar o problema dos arranjos e fluxos das Rede de Atenção a Saúde ou das Rede de Atenção Psicossocial. Os serviços e equipamentos que compõem uma rede, seus nós, podem assim ser apreendidos enquanto agenciamentos, melhor dizendo, agenciamentos concretos. Produtos de uma composição de linhas heterogêneas, com toda uma micropolitica do campo social: linhas históricas, culturais, afetivas, discursivas, etc.

Nesta perspectiva, quando se olha e se localiza um ponto, um nó, busca-se percorrer tais linhas, intentando uma pragmática, que, para além dos conjuntos de pontos e formas instituídas na rede, acompanham quais são as conexões, arranjos e conjuntos de intensidades que precipitam tais formas. Assim, não se define uma rede apenas pelos serviços que nela se encontram, mas uma rede é tecida de tantas heterogeneidades e naturezas de corpos, serviços, lugares, pessoas, pontos, que são, por sua vez, compostos por diversas linhas que se conectam e se dobram nesses pontos de encontro. Essas dobras que geram formas instituídas são como marcas, por vezes, decalques. O decalque, para Deleuze e Guattari (ano), é sempre posterior ao mapa, e serve na medida em que permite religar–se sobre o mapa, relacionar as raízes ou as árvores a um rizoma.

Ao empreendermos tal movimento, perguntamos: Quais linhas podemos encontrar na constituição de tal equipamento? Que fluxos e intensidades estão em jogo na articulação do cuidado? Os nós nos trazem o mapa e toda as variações, e os territórios?

(...) outra maneira de viajar e também de se mover, partir do meio, pelo meio, entrar e sair, não começar nem terminar. (...) instaurar uma lógica. E, reverter a ontologia, destituir o fundamento, anular fim e começo.(...) É que o meio não é uma média; ao contrário, é o lugar onde as coisas adquirem velocidade. Entre as coisas... (12, p.37)

Desta maneira, não queremos apenas encontrar os pontos e suas relações e correlações localizáveis, indo de um ponto ao outro na rede, também interessa-nos uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem inicio nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio. Com isso, tomamos as formas, os equipamentos, serviços, sujeitos e lugares e a própria rede como efeito, produto deste entre e o processo, uma vez que coloca a circular afetos, corpos, discursos...

Destacamos, então, um modo de funcionamento rede: armamos um plano/rizoma, que dá luz ao modo como podemos pensar a rede. Plano que antecede as formas, que sustentam os arranjos entre equipamentos e seus correspondentes no modo de cuidado proposto, e no mesmo movimento, se atualiza em toda sua heterogeneidade. Ao dimensionarmos os agenciamentos concretos como efeito das conexões efetivas, apostamos em uma rede que se faz aberta, garantindo, assim, um campo movente de singularidades que pode se atualizar na medida do que se faz necessário aos sujeitos/corpos/vidas presentes nas tramas da produção do cuidado.