2. Refletindo sobre a tríade: teatro, comunidade e ONG
2.1.2 Refletindo sobre os dados do mapeamento: juventude transformando com
pesquisas além de publicações impressas.
Essa pesquisa tem como meta constituir-se como espaço de referência, reflexão e troca de experiências que envolvem arte, cultura e transformação social, tendo como público alvo a juventude.
Atualmente o mapeamento, que ainda está em andamento abrange a região Nordeste, parte da região Sudeste, incluindo dados do Estado do Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro.
A presente investigação pretende articular pesquisa bibliográfica relativa a projetos sociais realizados pelas ONGs, aos dados quantitativos do mapeamento do Centro de Políticas Públicas.
Esses dados somados ao conhecimento que pude adquirir a partir dos anos de ensino de Teatro em ONGs de Florianópolis servirão de referencial para posterior análise da prática teatral realizada pela ONG CEDEP, em Florianópolis, assim como de uma reflexão do potencial transformador e desafiador presentes na tríade: Teatro, Comunidade e ONGs.
2.1.2 Refletindo sobre os dados do mapeamento: Juventude Transformando com Arte.
O mapeamento da pesquisa é feito a partir de jovens pesquisadores, com idade entre 16 e 28 anos, que entram em contato com Instituições que trabalham com jovens através da arte.
A metodologia do mapeamento obedece a seguinte ordem:
O jovem pesquisador, com o apoio do coordenador de cada equipe, recebe uma lista com cerca de 50 grupos. Com esses dados, inicia a checagem dos contatos e informações de cada um e aproveita para apresentar a pesquisa. Ao mesmo tempo, os jovens têm o desafio de descobrir outras iniciativas, com base em suas redes de relacionamento e pesquisas na internet. A partir do primeiro contato, os pesquisadores enviam um questionário detalhado com informações sobre a organização e seus projetos (onde atuam, participantes, perfil de financiadores, articulações e parcerias, intercâmbios e resultados). Também é tarefa acompanhar o retorno dessa coleta e contatar novamente aqueles que não responderam, incentivando-os a aderir a pesquisa. Com os formulários recebidos, verificam se as informações estão completas e corretas. A próxima etapa é agradecer a participação de cada grupo e incluir essas
12
informações em um banco de dados.(MAPA da MINA,Rio de Janeiro,ano1, p.49, Novembro 2009).
Segundo o mapeamento13, que ainda está em andamento, existe cerca de 1.130 Organizações não Governamentais registradas atuando com jovens em projetos artístico-culturais na Região Nordeste e nos estados de São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro. De acordo com o artigo de Beatriz Azeredo14 e Ângela Nogueira15, que faz parte do espaço destinado às reflexões relacionadas ao mapeamento do programa, há claros indícios de que existem potenciais resultados nessas práticas, observando um grande dinamismo e um elevado grau de maturidade na formação de grupos artísticos, que têm como sede de suas práticas as Organizações não Governamentais.
No Estado de São Paulo, o mapeamento, mostra que existem 251 ONGs envolvidas com projetos de arte e cultura. No Estado do Rio de Janeiro o mapeamento aponta a existência de 248 ONGs atuando com práticas artísticas e cerca de 56 mil pessoas envolvidas entre atuação profissional e atendimento e no Estado do Espírito Santo existem 109 ONGs envolvidas com projetos artísticos.(disponível em : http//www.juventudearte.org.br- no sitio: banco de experiências )
Na Região Nordeste há um número expressivo de Organizações não Governamentais mapeadas nos anos de 2005 a 2007- “São 522 ONGs atuando com arte e cultura em todos os Estados pesquisados nessa região.”16
“Neste banco de dados é possível verificar que a totalidade destes projetos trabalha com comunidades de baixa renda.”17
“Em relação às experiências mapeadas, a maioria mostra a atuação com as linguagens da Dança, Teatro e Música e Artesanato (este mais especificamente no Estado do Espírito Santo)”18
A produção artística, para a maior parte dos pesquisados, envolve a produção de espetáculos, exposições, peças teatrais e textos teatrais próprios, reafirmando a autoria dos processos artísticos. “A circulação e a comunicação
13
O Mapeamento se refere aos dados coletados pela pesquisa nos Estados citados e está disponível no site www.juventudearte.org.br- no sitio banco de experiências
14
Doutora em economia e diretora do Centro De Estudos e Política Públicas
15
Mestre. em administração e pesquisadora e coordenadora do mapeamento
16
ibid banco de experiências
17
Ibid banco de experiências.
18
dessas produções acontecem em sua maioria na própria sede, ruas ou praças da comunidade, Centros Culturais ou Municípios próximos”. (AZEREDO; NOGUEIRA. O Mapa da expressão, Rio de Janeiro, p. 29, 2009. Espaço destinado à reflexões, disponível em: http/www.juventudearte.org.br)
Há também uma enorme quantidade de pessoas envolvidas no trabalho das Organizações não Governamentais, entre profissionais e participantes, que estão desenvolvendo projetos artísticos. “São cerca de 980 mil integrantes que estão relacionados com o foco da arte e cultura em comunidades de baixa renda no Brasil.”19
A pesquisa também aponta que a totalidade dos profissionais entrevistados, nos diferentes Estados e Regiões mapeadas, consideram contribuir com as políticas públicas, atuando em “parceria na formulação e implementação de programas ou projetos nas áreas de cultura, educação e juventude e na participação em algum Conselho”20
Em relação ao perfil dos profissionais a “grande maioria são professores/educadores da comunidade, jovens da comunidade e profissionais do mundo artístico-profissional”.21 Vale ressaltar que em todos os Estados a grande maioria dos profissionais envolvidos nos projetos “oferece oficinas artísticas e repasse de metodologias para outros grupos, mais também tem grandes dificuldades para se manterem devido ao custeio das atividades e da infraestrutura”.22
Segundo os dados do mapeamento feitos pelo programa, é possível concluir que todas as Regiões e Estados pesquisados apresentam algumas convergências importantes, como a autoria dos processos artísticos, a efetiva participação e compromisso com as políticas públicas e o grande envolvimento social para o desenvolvimento das atividades envolvendo arte e cultura.
Ainda de acordo com o mapeamento, é possível refletir sobre os impactos destas práticas artísticas no âmbito dos projetos sociais:
Os coordenadores das Organizações apontam impactos fundamentalmente no campo da educação (desenvolvimento pessoal e social e melhoria no aprendizado escolar) e também no desenvolvimento comunitário (promoção e fortalecimento da identidade); na formação artística e capacitação e na inserção econômica, tanto no mercado de trabalho em geral como no artístico e no próprio grupo. Os dados também revelam uma expressiva riqueza e
19 Ibid, p.30,2009 20 Ibid, p.30,2009 21 Ibid, p.30,2009 22 Ibid ,p.30,2009
diversidade das linguagens artísticas utilizadas e da produção artístico-cultural desses grupos. (AZEREDO; NOGUEIRA. O Mapa da expressão, Rio de Janeiro,p.30, 2009. Espaço destinado á reflexão. Disponível em http/www.juventudearte.org.br).
Estes dados,segundo a autora, evidenciam uma autonomia na proposição e realização das atividades desenvolvidas por esses jovens.
Em relação às fragilidades desse contexto, os dados apontam para a falta de infraestrutura das Instituições e limites dos aspectos organizacionais. “Mais da metade aponta a demanda por custeio das atividades e por equipamentos e materiais; em seguida, vem à importância de melhorar o espaço físico e a qualificação da equipe”23 que diagnosticam a falta de investimento de políticas públicas voltadas para a juventude.
Outro aspecto que vale ser ressaltado é um enorme isolamento da maioria desses grupos, que segundo pesquisas, “estão restritos aos limites geográficos de sua própria comunidade e das comunidades vizinhas, tanto para apresentar seus resultados artísticos quanto para interagir com grupos similares.”24
Podemos ainda evidenciar no estudo outro fator que chama a atenção para os grupos que estão a muitos anos juntos desenvolvendo projetos artísticos e que sobrevivem com pouquíssimos recursos, tendo pouco ou nenhum acesso a fontes de incentivos fiscais e muitas vezes precisando interromper o seu processo artístico devido à falta de recursos financeiros. (AZEREDO; NOGUEIRA, 2009).
Sob tal enfoque fica claro que apesar do enorme potencial apresentado como resultado da pesquisa, ainda estamos distantes do aprofundamento das questões que envolvem a arte no contexto social, demonstrando que os espaços para a participação e discussão dos anseios de seus participantes ainda são exíguos e limitados. Esse universo mapeado aponta que existem inúmeras potencialidades para o fortalecimento de políticas públicas nesse setor social, já que existem muita experiência acumulada, vários profissionais envolvidos e metodologias de autoria dos próprios grupos sendo criadas.
Com base nessa reflexão ressalto a importância de aprofundarmos o estudo sobre a potencialidade de projetos artísticos vinculados a ONGs, como forma de apresentar, discutir e problematizar o fazer artístico como um recurso dialógico para o crescimento e fortalecimento da comunidade em sua relação com o mundo.
23
Ibid- p-30,2009.
24
Finalmente e para enriquecer ainda mais essa discussão, trago apontamentos da minha vivência em ONGs de Florianópolis que incluem o teatro como proposta pedagógica.