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REFLETINDO SOBRE OS DESAFIOS QUE NÃO CESSAM

Menezes (2008) questiona: de que forma uma cultura do ouvir contribui para a passagem de sociedades de informação para as futuras sociedades de conheci- mento, nas quais além de controlar ferramentas o homem crie novos conteúdos,

cultive vínculos e experimente a ampliação da cidadania em termos intersubjeti- vos e interculturais? Considerando que os estudos a respeito da cultura do ouvir investigam caminhos para o cultivo dos vínculos e ampliação da cidadania em termos intersubjetivos e interculturais, entendemos a mútua interação entre os estudos de cultura do ouvir e os estudos da alfabetização para os meios. O autor nos remete ao antropólogo Christoph Wulf (2001 apud MENEZES, 2008, p. 114) o qual afirma que, na escuta de si mesmo e na escuta do outro, “o ouvido desenvol- ve um papel fundamental na constituição da subjetividade e da sociabilidade”.

A compreensão do universo da cultura do ouvir nos remete tanto aos tempos das grandes narrativas mitológicas como também à atual valorização das histó- rias contadas de geração a geração. O autor considera que é pouco estudada a passagem da ênfase no ouvir para o processo civilizatório que gerou o predomí- nio da cultura do ver, ou cultura da imagem que temos hoje.

Menezes (2008) questiona se a cultura do ouvir pode ajudar a enriquecer os processos comunicativos da visão. Nós questionamos se essa cultura do ouvir que procura incorporar mais o ouvir na comunicação valorizando, não somente e prioritariamente as imagens, pode dar maior acesso aos que não têm a faculda- de da visão, que poderiam estar mais inseridos nos espaços e ações que privile- giassem o sonoro para além apenas do visual.

Entendemos também que falar de cinema é mais do que falar de filme. Trata- se da cultura de cinema de que nos fala Coelho (1997) na qual o cinema, mais especificamente a cultura do cinema, remete a domínio bem mais amplo. Assim como o ver, esse ouvir faz parte dessa cultura. A cultura do cinema se infiltra por toda parte, da memória mais íntima à roupa que se veste; a cultura fílmica e ao que está nos livros e criticas de jornais. São diferenças nada pequenas entre filme e cultura do cinema. No caso dos jovens cegos, essa cultura do cinema vai sendo adquirida por eles nessa experiência do ouvir.

Sendo assim, é a acessibilidade às imagens dos filmes que ajuda a constituir a cultura do cinema dos jovens pesquisados e, dessa forma, quanto mais acesso tiverem, mais possibilidades de entendimento dessa cultura e participação nela poderão ter. Falar de cultura nesse contexto é também falar de consumo. Afinal, a pesquisa buscou saber como os jovens consomem os filmes. Sonhamos com um dia próximo em que consumir os filmes não seja um modo de diferenciação entre os que veem ou não. Que brevemente esses jovens que não veem possam participar dessa cultura do cinema de que fala Coelho (1997), podendo viver essa

experiência de modo acessível a eles, com total possibilidade de troca com os vi- dentes, experimentando essa relação com os bens culturais dentro da sociedade se apropriando e recriando-os por sua própria escolha de forma acessível.

Finalizando, podemos destacar que a principal diferença entre o “contar o filme” e “assistir ao filme audiodescrito” refere-se a maior possibilidade de aces- so autônomo ao filme como uma política de ampliação de repertório. Importante destacar que a audiodescrição ocorre de antemão na maioria dos filmes e obras, e não no momento de exibição, o que já é característica informal do “contar os filmes”. Para que os materiais sejam audiodescritos, há uma equipe que realiza essa audiodescrição assim como ocorre também na legendagem dos filmes.

Assim, os dois – contar e audiodescrever – criam sentidos diferentes e cum- prem funções também diversas no cotidiano do jovem cego. O audiodescritor não é um narrador de filmes, mas um descritor de conteúdos imagéticos em mo- vimento ou estático.

Da mesma forma, vimos que podem ter os que preferem vivenciar em alguns momentos o contar filmes e em outros a audiodescrição. Esse contar torna-se um contar afetivo que alia os ouvintes aos contadores assim como Benjamin (1987) comenta na narrativa tradicional. Afinal, quem não gosta de ouvir alguém contar uma boa história? Mas gostar de ouvir filmes contados não pode ser moti- vo para deixarmos de lado a importância da acessibilidade e sua necessidade de ampliação para os vários usos que os não videntes precisam fazer dos conteúdos audiovisuais – hoje cada vez mais dentro dos processos de ensino e aprendiza- gem dos sujeitos. Para isso, a audiodescrição tem um papel importante.

Em primeiro lugar, cabe-nos esclarecer que o filme assistido por quem não enxerga mantém a sua originalidade e pode suscitar relações com os fazeres e cotidianos desses sujeitos. No entanto, a audiodescrição, conforme relato dos jovens pesquisados, é um recurso que auxilia na compreensão do que é exibido na tela, exclusivamente em relação ao conteúdo imagético que quem não en- xerga a ele não tem acesso. Entender que esse direito amplia – e muito – a vida e as possibilidades dos que não enxergam é perceber que essa é uma demanda política tanto para os que produzem audiovisual quanto para os que trabalham com cinema na educação.

O debate trazido neste capítulo foi apresentado em eventos da área e torna- -se cada vez mais relevante principalmente nesse momento em que se discute o impacto de duas novas legislações: a Lei nº 13.006, de 26 de junho de 2014, que

diz respeito à exibição de duas horas de cinema nacional na escola e também a Instrução Normativa da Agência Nacional do Cinema (Ancine) nº 116, de 18 de dezembro de 2014, que trata da obrigatoriedade da audiodescrição nos filmes com financiamento público (para o acesso de pessoas cegas).

Se entendemos que o acesso à cultura é parte do processo educativo por pos- sibilitar a ampliação do repertório dos sujeitos, percebemos que essa discussão aqui trazida apenas se inicia... Muito há ainda para se fazer e se pensar de forma a integrar os sujeitos cegos em nossa sociedade predominantemente visual.

REFERÊNCIAS

AGÊNCIA NACIONAL DO CINEMA (Brasil). Instrução Normativa nº 116, de 18 de dezembro de 2014. Dispõe sobre as normas gerais e critérios básicos de acessibilidade a serem observados por projetos audiovisuais financiados com recursos públicos federais geridos pela ANCINE; altera as Instruções Normativas n° 22, de 30 de dezembro de 2003, n° 44, de 11 de novembro de 2005, nº 61, de 7 de maio de 2007 e n° 80, de 20 de outubro de 2008, e dá outras providências. Diário

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Juventude, desenhos animados e modos