4. A VISÃO DE NIETZSCHE SOBRE A EDUCAÇÃO
4.2 Reflexões sobre a proposta educativa em Nietzsche
As constatações educativas de Nietzsche vão além das políticas rasas, dos planos mercantilistas que, de certa forma, fizeram parte das finalidades pedagógicas modernas.
O processo formativo passou longe dos institutos de educação, de modo que eles optaram a decadência cultural espontânea, sem quaisquer possibilidades de instaurar a permanência de um ensino amplo favorável à formação da singularidade humana.
Apesar da diferença de cultura, de contexto político, de ambiente social a respeito das reflexões nietzschianas sobre a educação, o terreno brasileiro ainda sofre para implantar a escola pública cultural (SAVIANI, 2020), uma vez que a cultura política dominante atua contra a formação de cidadãos.
[...] Defronte a modernidade, Nietzsche engendra críticas, compreendendo o projeto de tal época como falho, no que diz respeito à garantia de uma formação forte. Em contraposição às particularidades modernas, como a tendência à especialização, a massificação, o ímpeto moral e o utilitarismo do conhecimento; Nietzsche desenvolve ideias voltadas a um tipo de educação superior, que se desdobra como atividade potente e livre, assim como compromissada com a transformação da realidade através das mãos de seus representantes, os quais são externos à composição massificada. (BRUN; RIBEIRO, ACSELRAD; VIEIRA, 2020, p. 623).
Para além de qualquer semelhança em relação a problemas educativos do século XIX, a intenção foi ampliar algumas discussões sobre o enfraquecimento de propostas pedagógicas, especificamente da reforma do ensino médio. As abordagens de Nietzsche
sugerem a importância de se cuidar das instituições de ensino, do currículo, da formação dos profissionais da educação, da cultura, da política em sintonia com uma compreensão mais profunda e equilibrada:
[...] Consideramos de suma importância a atualização das críticas de Nietzsche à educação do seu tempo, pois estas reverberam também no nosso modelo atual de educação com seus avanços e retrocessos, conflitos e perspectivas. Toda pesquisa sobre Nietzsche será sempre surpreendente, pois qualquer que seja a abordagem escolhida, sua obra tem se mostrado uma fonte inesgotável de aprendizado. [...]
(CAVALCANTE, 2018, p. 77).
Outra proposta da contraposição nietzschiana supõe que ele nos oferece uma tentativa de compreensão sobre os problemas emergentes do mundo. As ideias fragmentárias na educação continuam fortemente em governos democráticos que, sob a influência de organismos internacionais, fizeram a opção de não assegurar uma educação pública mais equitativa em relação à expansão e à qualidade no ensino (SAVIANI, 2020).
A fim de explicitar a contribuição de Nietzsche à educação, Noéli Sobrinho observa:
As conferências sobre a educação dos jovens dão um testemunho inequívoco de que ele era ao mesmo tempo um mestre e um filósofo, um mestre da filosofia e também um filósofo da educação. [...] Aliás, podemos mesmo afiançar que ele jamais abandonou sua inclinação pedagógica em toda a sua carreira intelectual, pois, seja como professor da cadeira de filologia clássica, seja como filósofo solitário, ele sempre escreveu para ser lido e, portanto, para ensinar alguma coisa a seus leitores. (SOBRINHO, 2007, p. 10).
Em meio à fraqueza educativa, Nietzsche (2011) sugere que o Estado e os educadores têm uma responsabilidade na orientação dos indivíduos, por isso veja a importância de cada vez mais lutar pela defesa do Estado na organização do ensino e dos profissionais da educação. Embora o Estado democrático ainda tem dificuldade de zelar pelo ensino igualitário, tanto do ponto de vista da qualidade quanto da estrutura física escolar, não se justifica transferir a educação para outras entidades mercantis.
Ao considerar a importância da filosofia na formação de estudantes, ele propõe como algo para cultivar o espírito intelectual (NIETZSCHE, 2011), enquanto que a cultura pedagógica daquele momento percorria outras finalidades, a saber, o preparo
instrumental para o trabalho. As legislações educativas no contexto brasileiro, bem como as reformas, estiveram numa relação de conflito com a filosofia e as ciências humanas, visto que elas procuram um distanciamento com as disciplinas formativas porque entendem que não têm muita relevância no processo de preparo para o mundo capital. Os desvios políticos com a educação resultaram numa decadência cultural, marcada pela democratização perversa (PATTO, 2007) e de qualquer jeito acerca de diversos temas sociais, e, portanto, indiferentes pela implementação da instituição educativa de ensino básico completa.
A ênfase governamental, sem qualquer compromisso com a política de transformação da vida, que se encarrega de oferecer o mínimo de formação, é simplesmente agressiva com a escola pública porque acredita que dispõe aos cidadãos o melhor ensino cada vez mais sintonizado com a cultura atual (DARÉ, 2019). Por isso, o grave contexto histórico do passado educativo permanece a perturbar substancialmente as políticas públicas e a enfraquecer as agremiações partidárias.
A análise filosófica acerca da educação realizada por Nietzsche implicou em repensar a estrutura estatal, os métodos pedagógicos que estavam fazendo parte da fundação dos estabelecimentos de ensino, justamente em sintonia com a expansão da cultura de massa. De acordo com a perspectiva nietzschiana, o espaço formativo tinha sido transformado num lugar da pseudoeducação, mais especificamente um lugar que enfraquecia a dimensão humana, sem contar que nivelava culturalmente a massa de cidadãos. Tal modelo de escola estava distante da ideia de formação humana e integral, uma vez que tinha como base o preparo tecnicista, entendida como um ligeiro ensino voltado para ocupar um determinado cargo no ramo industrial. Nietzsche sustenta que:
são agora a divisão do trabalho científico e a escola profissional que levam a diminuição da cultura. Até agora, em todo caso, a cultura tem ido muito mal. O homem realizado é uma completa anomalia. Reina a fábrica. O homem se torna um parafuso. (NIETZSCHE, 2011, p. 270).
Compreende-se que diante dos desafios democráticos, é possível reconstruir a escola pública, aprendendo culturalmente com outros projetos mais consistentes, aptos a desenvolver a cultura científica e intelectual nos jovens estudantes. Num estudo sobre a formação em Nietzsche, Tavernard (2021) considera relevante descontruir a escola atual por um ambiente educativo voltado à criação, capaz de cultivar e, ao mesmo tempo, de
contemplar o processo humanístico, transcendendo às amarras mercantis ou quaisquer planos pedagógicos que desviam o ensino autêntico. Acerca do papel do Estado, Nietzsche explicita o seguinte:
[...] O objetivo da comunidade não é que o Estado exista a qualquer preço, mas que os exemplares superiores possam viver e criar no seu seio. Foi também para este fim que os Estados foram criados, sem isso se fazia frequentemente as dinastias de conquistadores etc. Quando um Estado não pode mais existir de maneira a permitir às grandes individualidades nele viver, então se vê nascer Estados terríveis onde reinam a miséria e a pilhagem, onde os indivíduos mais fortes substituem os melhores. A tarefa do Estado não é que a maior parte das pessoas viva bem e de acordo com os bons costumes: não é o número que importa: a sua tarefa é antes que nele seja possível levar uma vida bela e boa, fornecer o fundamento de uma cultura. Numa palavra: o fim do Estado é a humanidade nobre, esta humanidade reside fora dele, para ela o Estado é somente um meio. (NIETZSCHE, 2007b, p. 144).
Em torno de contribuir para a reconstrução da escola, Tavernard (2021) chama a atenção para algo fundamental que é a ausência de capital cultural e formativo na escola, que é justamente a crítica nietzschiana também faz sobre os sistemas de ensino do século XIX. No contexto em que se luta pela transformação do ambiente educativo para as classes trabalhadoras, entende-se que uma política pública de Estado é significativa para promover e recuperar essa herança capital em consonância com o ensino humanístico. Portanto, acerca dos problemas educacionais no país, Tavernard observa:
[...] como a educação brasileira, em pleno andamento no século XXI, sob um regime político de extrema-direita, se assemelha em gênero, número e grau ao sistema político-educativo alemão de meados do século XIX que Nietzsche tanto criticou. [...] Ou seja, não se preocupa com as ciências do espírito, as ciências humanas, as artes, a literatura, a sua própria língua, suas tradições e patrimônio cultural acumulado não são valorizados. (TAVERNARD, 2021, p. 239).
Embora a crítica de Nietzsche (2011) seja interessante para se discutir as reformas educativas, a questão hoje está relacionada com a força da pequena política que decide o rumo da educação no país e da democracia. A fim de superar esse modo político institucional, os legisladores – do ponto de vista nietzschiano – são os responsáveis para a garantia de um estabelecimento de ensino cultural. Para ele, os nobres parlamentares têm a função de orientar a humanidade, propiciar a promoção da
grandeza no indivíduo. Portanto, veja a importância da administração governamental para zelar pelas fases educativas até a universidade, cuidando da qualidade formativa.
O novo sentido à democracia na abordagem nietzschiana (2007a), que transcende a política instrumental, tem a função de assegurar uma educação melhor voltada para o desenvolvimento dos indivíduos. A organização da estrutura democrática tem relevância para contribuir na vida formativa dos indivíduos e na elevação da sociedade. Assim pressupõe, com base em Nietzsche (2011), uma democracia nova que seja autenticamente capaz de garantir o ensino cultural, que é propriamente o que se espera de um Estado. Por conseguinte, com o intuito de colaborar na conjuntura educativa, expõe-se um olhar propositivo acerca do ensino politécnico.