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Capítulo 3. De volta à Herbert Hart

3.3. Reflexões sobre os textos

Tentei, a partir destes três textos, mostrar duas aplicações distintas de reflexões trazidas de J.L. Austin à filosofia do direito. A primeira é mais especifica e diretamente ligada a teses do autor e relaciona-se com a sua teoria de atos de fala. O que marca esta aplicação é a utilização da teoria substantiva de Austin acerca do caráter de certos usos da linguagem para a explicação e resolução de problemas próprios da filosofia do direito.

A segunda forma de aplicação da metodologia de J.L. Austin, por outro lado, depende menos de teses substantivas do autor. Esta aplicação busca identificar conceitos comuns a partir do exame do uso de sentenças e expressões de falantes aptos. No caso de Causation in the Law, são analisadas as decisões judiciais de diferentes sistemas jurídicos.

Até onde consigo identificar a partir de uma leitura geral, os argumentos deste livro não dependem e não procuram afirmar que o uso do conceito de causalidade em decisões judiciais é performativo. O livro busca, ao invés, identificar o conceito de causa que permeia diferentes culturas jurídicas a partir da análise do uso deste conceito em diferentes decisões judiciais.

É importante diferenciar estas duas formas de uso de teses próprias da filosofia da linguagem, pois é possível vincular-se a uma sem adotar a outra. No caso, é possível concordar com J.L. Austin que a análise do uso de conceitos em situações cotidianas ou especializadas de fala tem a capacidade de trazer elucidação quanto ao conceito analisado sem se vincular as teses do autor sobre atos de fala. É possível também apreciar a tese dos atos de fala, e a elucidação que esta traz para atos como o do batismo, e ao mesmo tempo reconhecer que apenas alguns usos da linguagem cumprem este papel identificado por Austin e que a tese não tem o objetivo de explicar todos os usos da linguagem.

Outra característica importante da aplicação metodológica das teses de Austin é que elas não são teses exclusivas o autor. Como visto, a ideia de que alguma forma de atenção ao uso de expressões e sentenças poderia trazer esclarecimento filosófico sobre conceitos era algo partilhado por Ryle, Strawson e também por Wittgenstein. As teses substantivas de J.L. Austin

sobre justificativas e atos de fala são parte do resultado que esta convicção compartilhada trouxe para a filosofia, mas não são as únicas conclusões possíveis a partir deste método.

Hart adotou e defendeu nos seus artigos iniciais a ideia de que questões de filosofia do direito e de definição de termos jurídicos poderiam ser melhor compreendidas a partir de considerações acerca do seu caráter performativo. Em especial, o autor defendeu em ambos os artigos que, enquanto conclusões a partir de normas, o reconhecimento e reivindicação de direitos possuiria um caráter performativo e não descritivo.

Hart viria a reconhecer a equivocidade destas teses na introdução da sua coletânea de artigos de 1983:

No artigo 1 (Definition in law and jurisprudence) eu falhei em perceber [allow for] a distinção importante entre o significado ou sentido relativamente constante de uma sentença que é fixado pelas convenções de linguagem e a “força” variável ou a forma em que a sentença é colocada pelo escritor ou falante em ocasiões diferentes. “Há um touro no campo” tem o mesmo significado ou conteúdo caso tenha a intenção pelo autor como uma resposta para uma pergunta ou como um aviso ou como uma hipótese. A negligência quanto a essa distinção vicia parte da minha explicação no artigo 1 do significado de afirmações de direito ou afirmações sobre corporações.

Foi simplesmente equivocado dizer que estas afirmações são conclusões de inferências a partir de regras jurídicas, pois tais afirmações têm o mesmo significado em diferentes ocasiões de uso independentemente do falante ou escritor colocar elas como inferências ou não. Se ele colocar tais afirmações como inferência, esse é a força da afirmação naquela ocasião, e não parte do significado da afirmação.

O que compõe meu erro é que apesar de eu falar que tais afirmações são capazes de serem verdadeiras ou falsas, eu nego que eles sejam “descritivas” como se isso estivesse excluído pelo status que eu erroneamente atribui a elas como conclusões de Direito, e a minha negação que tais sentenças são “descritivas” obscureceu a verdade que para um total entendimentos destas nós devemos entender o que é uma regra de conduta requerer, proibir ou permitir um ato.124

A partir destes comentários, podemos ver como Hart passou a entender as teses centrais dos seus dois artigos iniciais como equivocadas. Estas reflexões, sobre a diferença entre o significado e a força de expressões, servem como crítica à tese do autor de que reivindicações

124 HART, H. L A. Essays in Jurisprudence and Philosophy (pg. 265). Oxford: Oxford University Press, 1983, p.

de direito teriam o papel performativo de conclusão. Elas não têm, entretanto, o objetivo de refutar a tese dos atos de fala como um todo. O que Hart reconhece então é a inadequação da sua aplicação desta teoria nos moldes dos dois artigos apresentados.

Isso significa dizer que alguns dos argumentos apresentados nestes artigos poderiam ser corrigidos, caso Hart continuasse convencido de que há algo de performativo na linguagem da reivindicação de direitos e que a atenção para esta característica é algo central para a filosofia do direito. Nesse caso, uma reformulação destas ideias, junto de uma atenção à diferença entre a força e o significado de expressões, poderia talvez levar estes argumentos adiante.

Este não foi, entretanto, o caminho que o autor escolheu seguir, e apesar de ele continuar reconhecendo que algumas expressões de reconhecimento de direito – e de criação de legislação125 – possuem um caráter performativo que é esclarecido a partir das reflexões de Austin, em nenhum escrito posterior reflexões sobre este aspecto da linguagem jurídica ocuparam o mesmo papel fundamental destes dois artigos iniciais. Não houve então uma rejeição completa da tese, mas sim da sua importância para questões de filosofia do direito.

Poderia ser argumentado que aqui, no abandono da centralidade de questões sobre o caráter performativo de expressões, também estaria o fim da influência de Austin e de teorias da linguagem na obra de Hart. Não acredito, entretanto que esse seja o caso. Ao invés, o autor passa de um esforço para enquadrar questões de filosofia do direito a partir da análise de atos de fala para uma metodologia de análise do Conceito de Direito propriamente dito. Essa análise, como iremos ver, se conecta diretamente com a metodologia dos autores da virada linguística. Para ver como esta mudança se desenvolve, é preciso analisar um último artigo de Hart anterior ao Conceito de Direito.