Refutação por antecipação ou instauração de uma instância adversária?

No documento Análise discursiva de editoriais do jornal Meio Norte, do Estado do Piauí: a construção de imagens e as emoções suscitáveis através da argumentação (páginas 190-196)

7. POR UMA ANÁLISE ARGUMENTATIVA DO DISCURSO

7.2. O logos: o raciocínio como representação da realidade

7.2.3. Refutação por antecipação ou instauração de uma instância adversária?

Sabemos que os aspectos ideológicos estão presentes em todo e qualquer discurso. Como vimos em Melo (1995) no item 3.2, os meios de comunicação coletiva são aparatos ideológicos, funcionando como uma indústria da consciência. Porém, essa dimensão política é apenas um dos aspectos observados nos mesmos, não sendo, portanto, determinante para caracterizar o tipo discursivo ao qual pertence. Mesmo permeado pela questão ideológica, temos consciência de que o editorial pertence ao tipo discursivo midiático e não político.

Sabemos, igualmente, que cada gênero do discurso em cada campo da comunicação discursiva tem um destinatário ideal, um alvo que o determina como gênero. Ao selecionar os recursos linguísticos para compor seu enunciado, o falante leva em conta, em maior ou menor grau, seu destinatário e sua resposta antecipada como forma de raciocínio, de modo que não há enunciado que não seja direcionado, que não almeje a criação de uma imagem-tese capaz de viabilizar um projeto de adesão.

Alguns enunciados constantes nos editoriais do JMN, no entanto, com recorrência considerável, parecem sofrer um processo de intergenericidade, conforme Marcuschi (2005), pois apresentam as características de um panfleto ou debate político, pressupondo, inclusive, uma instância adversária. O Euc parece prever a reação de alguns segmentos que terão acesso

36 Sobre o ethos de conselheiro, ver p. 218.

ao discurso que está sendo projetado e, antecipando-se às suas reações, engendra um plano de refutação às mesmas no intuito de neutralizar seus efeitos.

Muitos poderiam achar que se trata simplesmente de um auditório presumido na concepção de Perelman & Olbrechts-Tyteca (2005). Realmente, ao idealizar o seu projeto de fala, o Euc imagina um Tud capaz de construir uma interpretação satisfatória aos seus interesses, ou seja, de dar asas à sua imaginação. No entanto, a forma peculiar de dirigir-se a alguns membros desse auditório prevendo seus julgamentos e suas reações e antecipando-se às mesmas, nos faz crer que se trata de um caso de refutação por antecipação, uma estratégia discursiva pouco explorada pelos analistas na composição do logos, seja na Retórica, seja na Análise do Discurso.

Poderíamos ainda considerar o fato de que o uso do determinante “os”, do pronome demonstrativo “aqueles” ou do verbo na terceira pessoa do plural, produz uma referência a um

terceiro, um “tiers” na acepção de Charaudeau (2004). Ao comentar sobre um diálogo num

programa de televisão esse autor afirma: “Podemos construir uma hipótese de que todo locutor que se encontra nesta situação sabe que é visto e escutado por terceiros e que a questão da troca está muito mais voltada para os últimos do que para o interlocutor”. (CHARAUDEAU, 2004, p. 20) 37

. Vejamos os exemplos a seguir:

Mas é preciso muita cautela com determinadas atitudes, notadamente daqueles que se dizem líderes políticos. Estariam agindo em defesa dos interesses da sociedade ou em nome dos seus próprios interesses? É preciso que atentem para o fato de que democracia não é brincadeira. (ANEXO 02, p. 249. Grifo nosso.)

O editorial do qual foi retirado o fragmento acima aborda a histórica relação de subserviência do poder legislativo em relação ao executivo no Piauí. Para tanto, passa a arrolar uma sequência de fatos conhecidos que ocorreram na política piauiense. O discurso direciona constantemente o raciocínio do leitor para o reconhecimento da necessidade e da importância

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Tradução nossa: “On peut donc faire l’hypothèse que tout locuteur de cette situation sait qu’il est vu et écouté par ce tiers, et que même l’enjeu de l’échange est davantage tourné vers celui-ci que vers son interlocuteur, ou

da oposição por conta da conjuntura da época na qual o governador recém-empossado possuía o apoio de 24 dos 30 parlamentares da Assembleia Legislativa38.

Verificamos que, embora se dirija aos leitores como potenciais seres de fala, o Eue faz referência a um terceiro (ou terceiros), o que, verbalmente, está materializado através dos termos em negrito. As palavras destacadas fazem uma alusão direta (em tom de denúncia) aos políticos (notadamente, os adversários) que se utilizam dos cargos para intimidar, coagir ou assediar outras pessoas a fim de cooptá-las ou de impedi-las de exercer uma postura crítica em relação a casos de corrupção ou improbidade administrativa. A eles o enunciador envia um recado explícito: “democracia não é brincadeira”. Vejamos outro caso:

Os mais apressados, os que gostam mais de criticar do que de propor soluções e aqueles que veem nos problemas uma oportunidade de ganhar poder, tenderão a considerar que o fracasso educacional é próprio do Piauí e dos demais Estados do Nordeste. Não é. (ANEXO 03, p. 250)

Nesse outro editorial constante no anexo 03, já anteriormente mencionado, o enunciador, ao comentar sobre pesquisa do Ministério da Educação que aponta o Piauí como detentor de um dos piores índices com relação à avaliação do Ensino Fundamental, antecipa-se em desqualificar os adversários ou opositores atribuindo aos mesmos apodos depreciativos, tais como intransigência ou oportunismo. O raciocínio pretendido é que, apesar de possuírem indicadores negativos em relação à educação, nem o Piauí, nem o Nordeste podem ser considerados como os únicos caudatários do fracasso educacional. É como se o enunciador previsse uma réplica e, imediatamente, apresentasse sua tréplica, sem dar fôlego ao oponente. No mesmo editorial, o fenômeno se repete:

Alguns acham que é preciso construir novas escolas e outros tantos defendem aumento de custeio salarial como aspectos mágicos da transformação. Tudo um engano, erro de avaliação. Melhorar a escola é tarefa coletiva, demorada e que dá trabalho. Não é coisa para indolentes, apressados e populistas. (ANEXO 03, p. 250)

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Tal situação se acentuou ao longo do tempo. O portal de notícias Terra publicou em 01.02.11 que o atual governador do Piauí Wilson Martins, do PSB, tem 90% de apoio na Assembleia.

http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI4923742-EI7896,00-Apos+posse+governador+do+PI+tem+de+apoio+na+Assembleia.html Acesso em 07.10.11.

Os adversários, aqui, continuam a ser desqualificados através de uma adjetivação pejorativa conforme poderemos observar através de termos como indolentes, apressados e populistas. Atribuindo a alguns grupos sociais a responsabilidade por determinadas reivindicações que giram em torno da expansão da estrutura física das escolas e do aumento salarial, o enunciador antecipa-se em rechaçar os argumentos de que a educação vai mal porque os professores ganham pouco ou porque não existem salas de aula suficiente. Estabelece, portanto, uma perspectiva reducionista do problema, chegando a classificar as supostas reivindicações de “aspectos mágicos”. Na opinião do enunciador, há um erro de avaliação, razão pela qual o mesmo antecipa uma proposição, qual seja: “melhorar a escola é tarefa coletiva, demorada e que dá trabalho”. Um possível efeito de sentido pretendido é: “Não se deixem levar por números superficiais de uma pesquisa que não diagnostica os reais problemas da educação piauiense. Melhorar a educação é uma tarefa complexa e exige uma parceria entre estado e sociedade. Portanto, unamo-nos ao atual governo”. Vejamos, a seguir, outro editorial que trata também de um problema relativo à educação, só que, desta feita, abordando a situação da Universidade Estadual do Piauí – UESPI.

Os que defendem a manutenção de estruturas sem que haja como financiá-las devem lembrar-se que a grandeza de uma instituição de ensino superior não está no seu tamanho, mas na sua capacidade de produzir conhecimento e bons profissionais. (ANEXO 05, p. 252)

O contexto situacional no qual esse editorial foi publicado reflete um momento de “ajustes” feitos pelo então governador Wellington Dias na estrutura da UESPI. Tais ajustes dizem respeito, principalmente, à diminuição da quantidade de cursos e, consequentemente, da oferta de vagas e, ainda, do fechamento de alguns campi da referida universidade. De acordo com a opinião do enunciador, durante o governo anterior, a UESPI havia crescido de forma desordenada, sem planejamento o que teria ocasionado o surgimento de inúmeros problemas de ordem administrativa, pedagógica e financeira. Mais uma vez, o veículo de comunicação é usado como escudo para proteger o governo do estado numa batalha ferrenha, afinal, a atitude de fechar escola é considerada pela sociedade como uma ação bárbara e irracional. Vemos aqui também, novamente, a estratégia da reversibilidade de sentidos, ou seja, um acontecimento cuja repercussão social é, a priori, negativa, passa a assumir um caráter positivo a partir do raciocínio de que não é o tamanho de uma instituição que atesta a sua

sua capacidade de produzir conhecimento e bons profissionais”. Vejamos, a seguir outra ocorrência verificada no anexo 07.

Os saudosistas do modelo de Estado investidor, perdulário e generoso para com os amigos tendem a considerar a extinção das estatais um crime de lesa-pátria. (ANEXO 07, p. 254)

Neste editorial, o assunto abordado é a possibilidade de fechamento de algumas empresas estatais piauienses, dentre elas, as companhias de distribuição de água e de energia e o Banco do Estado do Piauí (BEP). O enunciador antecipa-se, portanto, e desqualifica a instância adversária argumentando que aqueles que são contrários ao fechamento das estatais são, na verdade, saudosistas de um modelo de Estado ultrapassado. O curioso nesse tipo de argumentação é que, engendrada por um sujeito comunicante que almeja a adesão do governo do estado, apresenta uma postura ideológica nitidamente de direita, a saber, a diminuição da participação do estado na sociedade, indo de encontro à filosofia política apregoada pelo partido que está no poder e que se auto intitula como esquerda. Como explicar uma estratégia de aproximação a partir de raciocínios ideologicamente tão díspares?

A nossa hipótese mais provável, cujo conteúdo estamos defendendo desde o início da tese, é a de que a motivação do jornal em apresentar uma argumentação que sirva de escudo ao governo do estado é puramente financeira. Assim sendo, mesmo não concordando com o viés ideológico do grupo político que ocupa o poder, o veículo de comunicação imuniza o governador (responsável pela autorização dos pagamentos) de todas as mazelas que o rodeiam. Como já afirmamos anteriormente, trata-se da construção da ideia de uma ilha de

progresso (governador) em meio a um oceano de retrocessos (PT, demais partidos da base

aliada e organizações sociais). É o que veremos, finalmente, nos dois excertos a seguir, destacados do anexo 10:

Entretanto, em meio àqueles que responsavelmente agem na defesa do meio ambiente, sem embargo do crescimento da economia via atração de novos investimentos, surgem demagogos e alarmistas, movidos sabe-se lá por quais razões. (ANEXO 10, p. 257)

O editorial constante no anexo 10 trata da reação de alguns organismos sociais à notícia da instalação de uma fábrica da empresa Suzano no município de Nazária, a 40 km de Teresina. Essa empresa explora a fabricação de papel e celulose. Ambientalistas protocolaram petição judicial exigindo que a empresa assuma o compromisso de respeito ao meio ambiente, visto que, o processo de fabricação de papel e celulose se utiliza de pelo menos 20 elementos químicos altamente poluidores e que oferecem graves riscos ambientais. O enunciador, em sua empreitada de refutação, se utiliza, inicialmente, de um argumento de comparação: “O pedido judicial equivale a se peticionar a um juiz para que ele impeça acidentes de trânsito, homicídios, roubos, furtos e outros crimes”. Em seguida, parte para a desqualificação da instância adversária, a quem denomina de “demagogos e alarmistas” e cujas ações seriam movidas por interesses escusos “sabe-se lá por quais razões”. Essas pessoas estariam agindo diferentemente de outras que, embora defendendo o meio ambiente, não se opõem ao “crescimento da economia” e à “atração de novos investimentos”. Essa ação é caracterizada no fragmento abaixo como um “desserviço ao Piauí”.

Os que querem questionar plantas industriais sem antes percorrer o caminho da exigência de que se cumpra a lei prestam um desserviço ao povo do Piauí. Inadmissível que haja sempre um discurso pronto contra investimentos. (ANEXO 10, p. 257)

Esse último fragmento, conclui a nossa intenção de demonstrar a existência da refutação por antecipação como uma estratégia argumentativa, nesse caso, ligada à instauração de uma instância adversária, à semelhança de um discurso político. Aqueles que alertam para o risco de degradação do meio ambiente são rotulados, a partir de uma visão reducionista, como “questionadores de plantas industriais”. Ora, tal argumentação revela uma intencionalidade por parte do enunciador: declarar a incompetência dos que o criticam. O raciocínio pretendido é o de que todos têm o direito de defender o meio ambiente, mas questionar “plantas industriais” é uma tarefa para engenheiros e demais profissionais que possuam habilitação para tal. A referência aos supostos ambientalistas é a de que os mesmos fazem parte de um grupo de pessoas contrárias a qualquer projeto de desenvolvimento do estado, estando eles sempre com um “discurso pronto contra investimentos”. Vejamos, a seguir, um último fenômeno verificado na argumentação dos editoriais do JMN: a contradição e incompatibilidade.

No documento Análise discursiva de editoriais do jornal Meio Norte, do Estado do Piauí: a construção de imagens e as emoções suscitáveis através da argumentação (páginas 190-196)