3 FORMATOS JURÍDICOS DE CONSTITUIÇÃO DA EMPRESA

3.1 O REGISTRO PÚBLICO DA EMPRESA

O exercício da atividade empresarial por parte de pessoa natural ou jurídica pressupõe o registro no órgão competente. Sobre tal assunto, Mamede (2020, p. 79) ensina que:

O exercício da atividade empresária por parte de pessoa natural ou jurídica pressupõe o registro correspondente, feito na forma da Lei 8.934/94, norma que regula o registro público de empresas mercantis e atividades afins. O registro mercantil é uma obrigação do empresário e da sociedade empresária (artigo 1.150 do Código Civil), servindo como meio para externar o intuito de empresa ou intenção empresária. Com o registro mercantil, qualifica-se a atividade negocial como empresária e a ela se atribui o respectivo regime jurídico, com seus ônus e seus benefícios, a exemplo do regime falimentar, incluindo a possibilidade de pedir recuperação judicial.

Uma das primeiras obrigações como empresário, antes mesmo de dar início à exploração de seu negócio, é de inscrever sua empresa no Registro de Empresas. Essa interpretação advém do disposto no artigo 967 do Código Civil (BRASIL, 2002). Esse artigo é preciso em seu texto: “É obrigatória a inscrição do empresário no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, antes do início de sua atividade”.

O registro público armazena informações necessárias para conceder publicidade e segurança dos envolvidos e terceiros, pois informações recentes ou antigas podem ser necessárias para qualquer pessoa, seja ela sócia ou não, credores, devedores, ou mesmo até para o Estado, de forma que, com o registro da empresa, esses dados estarão preservados. (MAMEDE, 2020).

A estrutura do registro de empresas está detalhada na Lei de Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins (LRE), Lei nº 8.934 de 1994 (BRASIL, 1994), que dispõe sobre o registro público de empresas, comércios e atividades relacionadas. É um sistema integrado por dois níveis distintos de órgãos governamentais: no nível federal, o Departamento de Registro e Integração de Empresas (DREI), e o conselho empresarial estadual, a Junta

Comercial. A particularidade do sistema terá impacto nos elos hierárquicos de seus órgãos, que mudam com os acontecimentos. (BRASIL, 1994). A LRE (BRASIL, 1994) simplificou o sistema, reduzindo a apenas três atividades para o registro de empresas, que estão previstas no artigo 32 e seus incisos, sendo elas: matrícula, arquivamento e autenticação.

A matrícula é pertinente aos intérpretes comerciais, trapicheiros, tradutores públicos, administradores de armazéns-gerais e leiloeiros. Esses são profissionais engajados em atividades paracomerciais. Coelho (2014) destaca também que tanto os tradutores públicos como os intérpretes comerciais, além de serem matriculados, também recebem nomeação e habilitação pela Junta Comercial, já os outros três recebem apenas a matrícula.

O Arquivamento está relacionado ao registro do empresário individual, ou seja, o empresário exercente de atividades econômicas que atua como pessoa física, assim como a constituição, modificação dos contratos e da dissolução das sociedades empresárias. Apesar de serem sociedades simples, as cooperativas permanecem com seus arquivamentos no registro de empresa. (COELHO, 2014).

Em complemento, Oliveira Filho (2006, p. 01) destaca que:

O arquivamento abrange a maioria dos atos de registro de empresas. É o ato concernente à constituição, alteração, dissolução e extinção do empresário individual, das sociedades empresárias. Da mesma forma são arquivados os atos relativos a consórcio e grupo de sociedades e os relativos a empresas mercantis estrangeiras autorizadas a funcionar no Brasil. Também são arquivadas as declarações de microempresa e de empresa de pequeno porte e os atos ou documentos de registro obrigatório e os de interesses dos empresários e das empresas.

O documento deverá ser encaminhado à Junta Comercial, para arquivamento no prazo de 30 dias a partir da data da assinatura, sendo que o ato terá efeito retrospectivo nessa data. Caso contrário, o arquivo terá efeito a partir do despacho concedido a ele, condizente com o art. 36 da Lei 8.934/94. (BRASIL, 1994).

Por fim, resta a Autenticação que, conforme Coelho (2014, p. 36), possui vínculos com os chamados instrumentos de escrituração, que se trata de fichas escriturais e livros comerciais. Sendo assim, a autenticação é uma condição de regularidade documental, uma vez que constitui um requisito externo, para a validade da escrituração empresarial. No entanto, também pode ter natureza diversa, ou seja, trata-se apenas de um ato de comprovação de que existe correspondência substancial entre a cópia do documento e o documento original, isso desde que o documento esteja devidamente registrado na Junta Comercial.

Mamede (2020) destaca que a Junta Comercial competente para o registro empresarial deve ser a que corresponda a do domicílio profissional, ou seja, na sede da empresa. Dos

processos decisórios, existem dois regimes de execução do registro das empresas: o regime de decisão colegiada e o regime de decisão singular.

O regime de decisão colegiada constitui-se pelas Turmas, configurando órgão deliberativo inferior, que integram as Juntas Comerciais e pelo Plenário, que é considerado órgão deliberativo superior. (OLIVEIRA FILHO, 2006).

O arquivamento de atos relacionados com a sociedade anônima, bem como os estatutos são processados em assembleias gerais do conselho de administração pelo regime de decisão colegiada. Ainda nesse regime, é enquadrado o arquivamento da incorporação, transformação, fusão e cisão de sociedade empresária de qualquer tipo, e ainda dos relacionados a consórcio de empresas ou sociedade. (COELHO, 2014).

Oliveira Filho (2006), sobre esse assunto, acrescenta que o prazo máximo para a decisão dos pedidos de arquivamento é de 10 dias úteis, sendo contados a partir do seu recebimento e, também, que os recursos de decisões singulares são julgados por meio do regime de decisão colegiada, que é o Plenário.

O regime de decisão singular inclui autenticação, matrícula e todos os outros arquivamentos. Assim, o contrato social de uma sociedade limitada, a sua modificação contratual e o registo de empresários individuais são arquivados, por exemplo, através de uma decisão singular. Quem determina a conduta de registro dessa decisão é o Presidente da Junta ou o Vogal por ele designado. (COELHO, 2014).

A lei também permite que a pessoa designada seja um funcionário público do órgão, com conhecimento de direito comercial e registro de empresas. Tal informação está contida no artigo 42, caput, da Lei nº 8934/94 (BRASIL, 1994), que dispõe:

Os atos próprios do Registro Público de Empresas Mercantis e Atividades Afins, não previstos no artigo anterior, serão objeto de decisão singular proferida pelo presidente da junta comercial, por vogal ou servidor que possua comprovados conhecimentos de Direito Comercial e de Registro de Empresas Mercantis.

Em referência ao prazo para decisão dos pedidos nesse regime, Oliveira Filho (2206, p. 01) dispõe que o limite é de “[...] três dias úteis, sob pena de ter-se como arquivados os atos respectivos, mediante provocação dos interessados, sem prejuízo do exame das formalidades pela procuradoria da Junta Comercial”.

Por outro lado, esse entendimento não é pacífico, uma vez que possui outros doutrinadores que trazem uma ideia diferente, como é o caso de Coelho (2014) que diverge quanto ao prazo, afirmando que o limite seria de dois dias úteis para esse tipo de decisão.

Os pedidos de arquivamento não previstos no inciso I do caput do art. 41 desta Lei serão decididos no prazo de 2 (dois) dias úteis, contado da data de seu recebimento, sob pena de os atos serem considerados arquivados, mediante provocação dos interessados, sem prejuízo do exame das formalidades legais pela procuradoria. (BRASIL, 1994).

Logo, o prazo correto é aquele que está prescrito em lei, de modo consequente, o prazo máximo para decisão de arquivamento dos pedidos feitos mediante o regime de decisão singular é de dois dias úteis.

Referente à inatividade da empresa, tanto os empresários individuais bem como as sociedades empresárias que não efetuarem qualquer arquivamento, no prazo de dez anos, serão consideradas inativas. Portanto, é necessário que seja feita a comunicação, para que se comprove a atividade da empresa. Esse entendimento provém do art. 60, da Lei 8.934/1994 (BRASIL, 1994) que, em seu primeiro parágrafo, também menciona a perda da proteção ao nome empresarial, caso a norma não seja cumprida. Todavia, em seu segundo parágrafo, também garante que o empresário seja comunicado desse cancelamento, o que pode ser feito por edital, sendo que a Junta Comercial possui o prazo de até 10 dias para efetuar a devida comunicação. (BRASIL, 1994).

Nos casos em que as empresas possuem seu cancelamento efetivado e, futuramente, acabem decidindo retornar com as atividades empresariais, ela deverá seguir os requisitos de constituição de nova empresa. Ressalta-se também que o nome da empresa deixa de ser garantido, podendo outro empresário utilizar seu nome. Dessa forma, o direito de reivindicação do nome acaba sendo perdido, em conformidade com o artigo 60, § 4º da LRE. (BRASIL, 1994).

Cumpre salientar que a empresa não é dissolvida, mesmo sofrendo seu cancelamento por inatividade, apenas terá uma irregularidade, caso permaneça em suas atividades.

Coelho (2014, p. 39) aduz que, mesmo com o cancelamento do registro por inatividade, não há a dissolução da sociedade, somente [...] a sua irregularidade na hipótese de continuar funcionando”. Em outras palavras, “[...] a sociedade com arquivamento cancelado não deve necessariamente entrar em liquidação; mas sobrevêm as consequências do exercício irregular da atividade empresarial, caso os sócios não a encerrem”.

Quanto à irregularidade das empresas, os empresários que optarem por não fazer o registro, no devido órgão, não poderão aproveitar os benefícios que o direito comercial traz para as empresas. Não obstante, mesmo sem estar registrada, o empresário não perde sua essência, porque o que tange o conceito de empresário não se restringe a apenas o registro.

Isso pode ser verificado em Coelho (2014, p. 40), ao conceituar empresário. Para ele, é “[...] empresário o exercente profissional de atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços, esteja ou não inscrito no registro das empresas”.

Algumas sanções exclusivas pelos direitos comerciais aos empresários irregulares poderão ser aplicadas. São elas:

a) Impossibilidade de participar de licitações, nas modalidades de concorrência pública e tomada de preço; b) impossibilidade de inscrição em Cadastros Fiscais (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas — CNPJ, Cadastro de Contribuintes Mobiliá rios — CCM, e outros), com as decorrentes sanções pelo descumprimento dessa obrigação tributária acessória; c) ausência de matrícula junto ao INSS, que, em relação aos empresários, é processada simultaneamente à inscrição no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica — CNPJ, o que o sujeita à pena de multa e, na hipótese de sociedade empresária, também a proibição de contratar com o Poder Público. (COELHO, 2014, p. 40).

Oliveira Filho (2006) acrescenta que, nos casos de irregularidade, os sócios das sociedades empresárias passam a ter responsabilidade solidária de forma ilimitada, respondendo diretamente aquele que, dentre ele, administrou a sociedade. Também comenta sobre a impossibilidade de autenticar os instrumentos escriturais mercantis, e, com isso, eles acabam perdendo seu poder probatório em juízo; acrescenta também que, em caso de falência, ela incorrerá em crime pela falta de regularidade de seus livros.

Pela impossibilidade do empresário irregular se registrar nos cadastros ficais como, por exemplo, no Cadastro de Contribuintes Mobiliários e no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas, há uma sanção de natureza fiscal, isso acarreta uma “[...] multa pela inobservância da obrigação tributária instrumental”, além de ficar incapaz de exercer negociações, em virtude de sua irregularidade. (COELHO, 2002).

Oliveira Filho (2006, p. 01) também destaca que o empresário responsável por uma empresa irregular, devido à falta de registro, ficará impossibilitado de se matricular no Instituto Nacional da Seguridade Social: “[...] a falta de registro também impossibilitará a matrícula do empresário no Instituto Nacional da Seguridade Social, que é processada simultaneamente à inscrição no registro de empresas, implicando na pena de multa e na proibição de contratar com o Poder Público.”

Assim, entendido o como se dá o registro de empresa, inicia-se o estudo sobre a constituição de empresa por pessoa singular e sociedade empresarial.

No documento UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA LAURO PEREIRA NETO PARTICIPAÇÃO DE PESSOA MENOR DE IDADE NA CONSTITUIÇÃO DE EMPRESA. (páginas 32-37)