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5.6 CONTINUIDADES E DESCONTINUIDADES

5.6.1 Relação com a mãe

Diferentes pessoas foram importantes na trajetória das reitoras. Mas, em especial, pude observar que algumas relações foram fundamentais, servindo de base em momentos importantes de suas vidas, como as que se estabeleceram com os maridos e as mães. Neste momento, me deterei na segunda.

A relação que tiveram com as mães foi essencial de diversas maneiras, em diferentes estágios, representando rupturas, por um lado e, por outro, a conservação de certos padrões. Para que elas pudessem estar fora de casa, suas mães precisaram manter-se dentro de casa, com tudo o que isso implica, especialmente, o trabalho da casa e o cuidado dos filhos.

Assim, se, por um lado, o apoio materno significou apoio e maior liberdade para as mulheres que se tornaram reitoras, por outro, significou manutenção de antigos padrões de comportamento para outras mulheres, no caso, suas mães. Estas ainda serviram de suporte para que as outras pudessem transgredir antigas normas, às quais elas mesmas sempre estiveram presas.

Alda sempre teve sua mãe por perto. Alda, que não se casou, sempre morou com sua mãe. Elas eram muito íntimas. Com sua mãe em casa, ela não se preocupava com “as coisas da casa”, embora o lar representasse muito para ela. Alda demonstrou como manteve intacta a relação com a mãe e como essa relação representou a continuidade de certos valores, como a indispensável presença de uma mulher em casa.

A morte da mãe, cujos reflexos se estenderam a seu trabalho, foi sentida de modo intenso. A ruptura representada pela perda materna significou para Alda um momento de descontinuidade: “a minha vida teve dois pontos: quando minha mãe ainda era viva – ela morreu em 81 – e depois. Porque, de uma hora pra outra, eu precisei ser dona de casa. Antes eu não era dona de casa, era a minha mãe. Então, eu tive que assumir!” (Alda).

Para Alda foi uma época muito difícil, seu pai já tinha falecido, e ela não sabia o que fazer: “vou almoçar em casa, almoço fora... foi bem difícil. Eu nunca tinha sido dona de casa.. [...] foram uns dois anos até eu conseguir alguém em quem eu confiei, uma boa moça que cuidava da casa. Eu não me preocupava mais com a casa.” (Alda).

O relato de Alda sugere porque, muitas vezes, a vida profissional é separada da vida pessoal, quando se fala em trabalho executivo ou de líderes. Este, como tantos outros, é um trabalho que exaure. O relato de Alda sugere que, para ela, o trabalho na instituição em que se tornou reitora foi uma história de doação sem fim, de sujeição mesmo, de impossibilidade de controle da própria vida, a ponto de sempre precisar de alguém para cuidar de sua casa, mesmo não tendo filhos, mesmo não tendo um esposo que lhe fizesse possíveis exigências.

O apego que Alda demonstrou ter pela mãe certamente representa o amor e o respeito que ambas construíram ao longo de suas vidas. A mãe de Alda era seu maior exemplo, pessoa por quem Alda tinha grande admiração, respeito e carinho. A sua família era uma família que dividia tudo: momentos de alegria, de conquistas, de tristeza, de dificuldades. Mas, de um modo ou de outro, sua mãe teve papel fundamental na trajetória de Alda.

A perda da mãe foi um problema na vida de Alda por dois anos, pois a falta da mãe, a companheira, o exemplo, a incentivadora, significaram para Alda uma grande ruptura: agora ela se via sozinha. Para ela, isso foi um aprendizado que talvez a tenha feito valorizar ainda mais sua mãe. Com o passar do tempo, “as melancias foram se acomodando” (Alda), ela aprendeu “as coisas da casa” e passou a administrá-la como sua de fato. O evento da morte materna foi uma descontinuidade muito grande em sua vida, um momento de ruptura que a levou a assumir um novo papel, o de dona de casa, até então desconhecido para ela.

A relação com a mãe, o apoio que ela representou, e que pode ser percebido, neste depoimento, como sendo fundamental para sua vida, também foi fundamental para a trajetória das outras mulheres, especialmente para Clarice e Elvira, cada uma com diferentes vivências. Na relação de Clarice com sua mãe também houve rupturas. Mas diferente da ruptura entre Alda e sua mãe, que partiu para nunca mais voltar, Clarice aprendeu muito cedo a dizer adeus à sua mãe. Quando ainda menina, foi para Pelotas estudar e a mãe acabou saindo da casa de seu avô para ficar mais perto da filha, indo trabalhar em uma cidade próxima.

A mãe de Clarice foi o seu “arrimo”, desde que o seu primeiro filho nasceu. “Faltava um mês pra ele nascer, ela morava em Pelotas e eu em Porto Alegre, ela vendeu o apartamento dela em Pelotas e veio morar comigo e mora até hoje” (Clarice). O apoio da mãe representou para Clarice o mesmo que para Alda: a “infra-estrutura em casa” que lhe permitiu sair, “se precisasse sair, se precisasse viajar”. (Clarice).

Nem por isso deixavam de existir desavenças, momentos de descontinuidade onde a relação pacífica, amorosa e de confidência entre mãe e filha foi questionada, abalada ou transgredida. Esses momentos também foram importantes para a construção da identidade, para sua afirmação como mulher, mãe e trabalhadora: “Tive outros problemas, muitas vezes com ela, aquela coisa de relação mãe e filha, aquela coisa toda!” (Clarice).

Assim como para Alda, a mãe de Clarice representou papel fundamental em sua trajetória, pois fez parte, como ela disse, “da infra-estrutura pra cuidar dos meus filhos” (Clarice) que ela desejou ter. Assim, os relatos mostram que para as mulheres deste estudo, muitas vezes, o tempo necessário para si, significou a disponibilidade de suas mães, um tempo impossível para estas últimas ou, simplesmente, que foi vivenciado de formas diferentes, com outras prioridades, com outros desejos que também foram impostos à geração delas.

De modo similar, os maridos das mulheres que se tornaram reitoras em Santa Catarina também significaram muito em suas trajetórias, conforme descreverei a seguir.