Se o papel da Ilha de Moçambique como entreposto articulador de uma vasta rede comercial ao longo do período moderno tem sido amplamente sublinhado, não é demais realçar a importância da Terra Firme no desempenho deste papel. Desde que a Ilha se afirmara como o centro da presença portuguesa na costa oriental africana que o palco das trocas comerciais fora o continente fronteiro aonde afluíam as mercadorias africanas e até onde eram conduzidos os produtos importados por via marítima.
Na segunda metade de Setecentos, antes de todos os demais, os portugueses mantinham relações comerciais com os macuas das terras vizinhas e com os ajauas do interior próximo do lago Niassa. Aos macuas compravam mantimentos e marfim. Aos ajauas, à época, compravam marfim, escravos, arroz “e outros efeitos mais da produção das suas terras”129. Produtos que trocavam por panos do Malabar, pela missanga proce- dente de Portugal, de Surrate e de Balagate, entre outros artigos como sal e tabaco que adquiriam junto dos navios da Carreira da India e dos mercadores baneanes de Damão, Diu e Goa que todos os anos na monção do Norte, por altura de Março, chegavam a Moçambique trazendo também alguns bens para consumo da Ilha e portos dependentes, designadamente arroz, azeite de coco, manteiga, açúcar, louça e cobre130. Separada a parte das mercadorias creditada à Fazenda Real para pagamento das despesas adminis- trativas e militares, os baneanes vendiam o remanescente aos mercadores portugueses, indianos ou suaílis que se dedicavam ao comércio a retalho fazendo variar os preços em função das afinidades ou das rivalidades sentidas em relação a estes. Os preços de venda aos portugueses eram, por regra, mais elevados131.
A ligação aos mercadores de Diu e Damão permitia aos baneanes oferecer me- lhores condições de negócio, nomeadamente preços de venda dos panos indianos mais baixos132. Segundo Luís Frederico Antunes, a “transposição para Moçambique dos
129 Frei Bartolomeu dos Mártires, “Memoria Chorografica da Provincia ou Capitania de Mossambique…”
(1822): p. 141-144; Capela, 2002: p. 231-235; cit. Carta de José Ferreira Nobre para o secretário de Estado, 18.Ago.1784, AHU, Cons. Ultr., Moç., cx. 44, doc. 46.
130 Joaquim José Varela, “Descrição da Capitania de Moçambique…” (1788): p. 295-296 e Hoppe, 1970:
p. 71-73.
131 Frei Bartolomeu dos Mártires, “Memoria Chorografica da Provincia ou Capitania de Mossambique…”
(1822): p.141-144; Hoppe, 1970: p. 176-183; Antunes, 2001: p. 127-128.
132 Sobre a influência baneane na Ilha de Moçambique e seu termo e, bem assim, sobre o comércio
desenvolvido entre a capitania de Moçambique e a região do Guzerate dinamizado pela comunidade baneane, vejam-se os trabalhos de Luís Frederico Antunes, Antunes, 1992 e 2001. Veja-se também sobre esta questão o artigo de síntese de Edward Alpers, Alpers, 1976. A respeito das relações comerciais entre Moçambique e Portugal, v. Hoppe, 1970: p.207-216.
seculares e tradicionais laços de perfeito relacionamento e profícua colaboração econó- mica e comercial entre hindus e muçulmanos em Diu” parece ter criado as condições necessárias para o estreito contacto com as populações suaílis. Também com os africa- nos não islamizados os baneanes experimentaram uma convivência próxima em resul- tado das ligações de carácter conjugal que estabeleceram com as mulheres nativas. Deste modo, pouco tempo depois, passaram a deter a maioria do trato com estas popula- ções133.
Constrangidos a praticar preços superiores aos restantes mercadores nas transac- ções com os africanos, os portugueses viam reduzidas as suas margens de lucro e, no extremo, chegavam mesmo a endividar-se junto dos seus credores. Algumas insolvên- cias dos mercadores portugueses redundaram na entrega de casas, palmares e escravos aos mercadores baneanes como forma de pagamento das dívidas contraídas134. Situação no decorrer da qual os baneanes acabaram por se fixar na Terra Firme, de onde lograram intensificar as suas actividades e ampliar a sua rede de relações comerciais135.
Com efeito, a partir do estabelecimento da liberdade de comércio nos portos mo- çambicanos a todos os súbditos do Estado da Índia, em 1757, a comunidade baneane, até aí limitada na sua prática mercantil à Ilha de Moçambique, expandiu-se ao conti- nente adjacente, não sem a conivência das autoridades portuguesas igualmente depen- dentes das mercadorias e do capital baneanes. Uma conjuntura plena de consequências para os mercadores portugueses, os quais passaram a concorrer pelos mesmos espaços comerciais com novos e mais fortes interlocutores, e, com não menos consequências, para o processo de construção da Terra Firme marcado pela territorialização e pelo alar- gamento da área de influência baneane no período compreendido entre 1723 e 1770136.
Uma vez no continente fronteiro, os baneanes puderam contactar mais de perto com macuas, ajauas e suaílis com quem passaram a comerciar de forma directa ou atra- vés de patamares137, dispensando a intermediação até aí prestada pelos portugueses. Oferecendo melhores condições de final da década de 1780, estariam já na posse de
133 Serra, 1986: p. 90-91; Hoppe, 1970: p.183-187; Antunes, 2001: p.121-128; Hafkin, 1973: p.24. 134 “Lista de todos os Palmareiros de Mussuril com declaração dos Lugares onde são Moradores”, 17.
Mar.1781, AHU, Cons. Ultr., Moç., cx. 35, doc. 94. Em 1781 contavam-se, apenas em Mossuril, cerca de vinte baneanes proprietários de palmares. Veja-se também a relação apresentada por Luís Frederico Antunes in Antunes, 2001: p. 385-414.
135 Hoppe , 1970: p. 176-183 e Antunes, 2001: p. 127-128, 137-138. 136 Antunes, 2001: p. 121-142.
137 Patamares, mercadores volantes ou mussambazes (vasambadzi), assim eram chamados os agentes
africanos que se internavam no sertão para comerciar com as populações africanas, tanto em representação de mercadores baneanes, como de mercadores portugueses, v. Rodrigues, 2011a.
uma grande parte dos palmares de Mossuril138. Na década de 1790, haviam estendido a sua influência, a oeste, até às proximidades do território ajaua, a sul, até aos Rios de Sena e, a norte, até às Ilhas Querimbas139. Após um período de “expansão” e de “domínio quase exclusivo” dos baneanes sobre o comércio praticado na capitania de Moçambique entre 1770 e 1780, o desenvolvimento do tráfico negreiro promoveu signi- ficativas alterações no mercado comercial moçambicano nas três décadas seguintes. Conforme Luís Frederico Antunes, enquanto os mercadores de grosso trato reforçaram o seu domínio como credores das transacções comerciais, acentuou-se a subalternização dos pequenos mercadores que negociavam a retalho140.
Tendo-nos desviado por momentos do nosso foco de análise, interessa esclarecer que conhecer as actividades e o percurso da comunidade baneane no continente fron- teiro não é de somenos, já que a sua intervenção foi decisiva para o devir da comunidade portuguesa da Ilha, em particular, da capitania de Moçambique, em geral. Ao longo da segunda metade de Setecentos, os baneanes alçaram-se a uma posição hegemónica. Com acesso às fazendas indianas essenciais no trato com a costa leste- africana acabaram por dominar o comércio praticado na capitania e assumiram-se como credores e interlocutores privilegiados dos demais agentes económicos.
Quanto aos portugueses, o comércio praticado com macuas e ajauas era então uma das suas principais fontes de rendimento. Dos 181 moradores e habitantes (homens cristãos) arrolados no Mapa dos moradores e habitantes da Ilha de Moçambique e terras firmes (1766) por ordem do governador-geral Baltasar Pereira do Lago para “examinar os modos por que viviam” e conhecer “a razão por que não exercitavam os oficios com que foram criados” cerca de 29% estavam envolvidos neste comércio. Especificamente, 23% participavam no “negócio de mojão” (ou seja, negociavam com os ajauas) e 6% no “negocio de mojão e macua” (com ajauas e macuas)141.
Dada a proximidade geográfica, os trânsitos comerciais com a Terra Firme eram mais fáceis, mais seguros e menos dispendiosos, por isso, mas não menos pela exigui- dade e a esterilidade da Ilha, entre ambas havia-se desenvolvido um intenso fluxo co-
138 Carta do capitão-mor da Terra Firme Francisco de Santa Teresa para o governador-geral José
Vasconcelos de Almeida, 21.Dez.1779, AHU, Cons. Ultr., Moç., cx. 30-A, doc. 35.
139 “Denuncia do serviço de Sua Magestade no Estado de Mosambique anno de 1790 por Manoel do
Nascimento Nunes”, 10.Jun.1790, AHU, Cons. Ultr., Moç., cx. 60, doc. 35; Hoppe, 1970: p. 179; Antunes, 2001: p. 137-138.
140 Antunes, 2001: p. 143-151, 153-158.
141 Mapa dos moradores e habitantes da Ilha de Moçambique e Terra Firme, 30.Mai.1766, AHU, Cons.
mercial assegurado pela deslocação diária de numerosas barquinhas. De Mossuril e das Cabaceiras chegavam alguns alimentos cultivados nos palmares e fazendas dos moradores, sobretudo frescos e outros produtos de consumo diário142. A produção agrícola e a criação de gado nas povoações portuguesas, porém, nunca foram suficientes para alimentar a população residente e, por maioria de razão, os que ali permaneciam em trânsito. De acordo com o citado Mapa dos moradores e habitantes de 1766, 43 dos 181 indivíduos listados dedicavam-se à exploração agrícola das suas fazendas (ou seja, 24 %) e dois à exploração dos seus palmares (1%). Actividade que a maioria desenvol- via em paralelo com o comércio, não raro, em articulação com ele. Destes 45 somente oito (18%) viviam exclusivamente das suas terras (7 fazendas e um palmar). Os demais acumulavam a exploração agrícola com a prática de algum negócio (sobretudo “negócio de mojão”) ou ofício (ver Gráfico 1)143.
Gráfico 1 – Moradores e habitantes portugueses dedicados à agricultura (1766)
Em 1782, conforme o governador-geral Pedro Saldanha de Albuquerque, este era “o único meio, com que [os habitantes cristãos] podiam manter-se e reparar-se dos precisos mantimentos para o seu sustento”144.
142 Hoppe, 1970: p. 184; A.Lobato, 1989: p. 187-189; Rodrigues, Rocha e Nascimento, 2009. p. 127. 143 Mapa dos moradores e habitantes da Ilha de Moçambique e Terra Firme, 30.Mai.1766, AHU, Cons.
Ultr., Moç., cx. 26, doc. 82. Na categoria Outros reuniram-se os moradores e habitantes não agrupáveis, tais como aqueles que se dedicavam à “fazenda, maneio e ofício” (1), “fazenda e soldo” (1), “fazenda e ofício” (1), “fazenda e arte” (1), “fazenda, arte e negócio” (1).
144 Bando do governador-geral Pedro Saldanha de Albuquerque, 16.Out.1782, AHU, Cons. Ultr., Moç.,
Uma parte significativa do provimento da Ilha era obtida pelos seus habitantes junto das referidas populações africanas que se dirigiam à Terra Firme onde estabele- ciam feiras (também chamadas de bandicos ou bazares) para o efeito145. Habitando o sertão próximo, os primeiros eram presença regular e continuada ao longo do ano. Le- vando três a quatro meses de viagem e tendo que atravessar território macua para chegar até ao litoral, a presença dos ajauas era sazonal. Em condições normais, estanciavam anualmente no continente fronteiro durante a estação seca, grosso modo, entre os meses de Maio a Outubro. Quanto aos portugueses, participavam quase todos nas feiras da Terra Firme. Segundo o testemunho de Frei Bartolomeu dos Mártires, mesmo os mora- dores com residência na Ilha, naquele tempo, passavam “impreterivelmente” para as suas propriedades do continente para fazerem negócio146.
Desde c.1767 que estas feiras se fixaram em Sancul e Mossuril onde o governa- dor-geral Baltasar Pereira do Lago mandou assinalar duas praças como os únicos locais onde seria permitido o comércio de alimentos147. A feira de Mossuril, em particular, tor- nou-se bastante afamada e concorrida tendo estado na base, conforme Edward Alpers, daquela que na década de 1780 ficou conhecida como a “feira dos mujaos”, animada não apenas pelo comércio de alimentos mas sobretudo pelo comércio de marfim e es- cravos. Nas décadas seguintes, segundo José Capela, ter-se-á estabelecido como o mais constante entreposto de exportação da capitania de Moçambique mantendo-se activa, com algumas interrupções, até ao século XIX148.
Cerca de 1750, os ajauas eram reconhecidamente os principais fornecedores de marfim da região. Por via da referida rota entre as imediações do lago Niassa e o Mossuril, passando pelo rio Lúrio e atravessando a Macuana, chegava mais de 90% do total do marfim transaccionado no continente fronteiro. A pretexto do marfim, os ajauas traziam também alguns escravos. Este último, um comércio praticado em menor escala até meados de Setecentos mas com procura crescente nas últimas décadas do século. De tal forma que, segundo José Capela, os ajauas se tornaram “os primeiros e provavel- mente os maiores abastecedores da costa em escravos provenientes do interior pro-
145 Requerimento do capitão-mor da Terra Firme Joaquim do Rosário Monteiro, ant. 30.Jun.1803, AHU,
Cons. Ultr., Moç., cx. 100, doc. 47.
146 Cit. Joaquim José Varela, “Descrição da Capitania de Moçambique…” (1788): p. 295-296 e Frei
Bartolomeu dos Mártires, “Memoria Chorografica da Provincia ou Capitania de Mossambique…” (1822): p. 143-144, respectivamente; Hoppe, 1970: p. 71-73.
147 Bando do governador-geral Baltasar Pereira do Lago, AHU, Cons. Ultr., Moç, 13.Jan.1768, cx. 28,
doc. 4 e Rodrigues, Rocha e Nascimento, 2009: p. 134.
fundo”149. Desde as suas terras no planalto entre os rios Lugenda e Lucheringo, teceram relações comerciais com várias populações do interior como os maraves e os bisas, alar- gando a sua influência até áreas próximas do Zambeze e abrindo rotas alternativas até vários portos da costa moçambicana. Ao longo do século XVIII, controlaram o comér- cio de marfim entre o interior e o litoral substituindo-se aos maraves que no século ante- rior se constituíram como os principais abastecedores da Ilha de Moçambique por meio da designada “rota da Macuana” que a ligava ao Zambeze150.
Durante o tempo em que estanciavam na Terra Firme, os mercadores ajauas eram acolhidos pelos negreiros, tanto portugueses como baneanes, com quem estabele- ciam negócio. O mesmo acontecia com os escravos adquiridos para exportação que eram mantidos em armazéns situados no recinto insular ou nas propriedades da Terra Firme onde aguardavam, por vezes longo tempo, o embarque para os portos de destino. Também os navios transportadores eram obrigados a deter-se na Ilha até completarem a sua lotação com os escravos que, de forma desfasada, iam chegando do interior e dos portos dependentes. Ambas as situações exigiam grande disponibilidade de alimentos, quer para manter os escravos, quer para o aprovisionamento dos navios151.
No que se refere ao aprovisionamento alimentar, afora os macuas e ajauas que se dirigiam à Terra Firme, os moradores abasteciam-se nos portos e baías do litoral mais ou menos próximo, junto tanto dos mesmos macuas como das populações suaílis vizi- nhas. De entre estes últimos, destacavam-se os xecados vizinhos de Sancul e Quitango- nha com os quais os portugueses mantinham relações particularmente próximas. Ao longo da costa, os habitantes da Ilha são explicitamente referidos por Joaquim Varela a comprar mantimentos no rio Curé a “cafres [macuas] e mouros seus habitantes” e arroz e milho em um bandico localizado perto do rio Mocambo, quatro léguas a sul152.
Tendo o capital necessário e estando dispostos a correr os riscos de viagens mais longas e incertas, os moradores enviavam ainda as suas embarcações resgatar alimentos a Madagáscar, às ilhas Comores, à ilha de França e aos portos dependentes como Sena,
149 Alpers, 1975: p. 64, 104-113 e cit. Capela, 2002: p. 233.
150 Rita-Ferreira, 1982: p. 122, 154-156; Alpers, 1975: p. 15-22; Antunes e M.Lobato 2006: p. 269-270. 151 Henry Salt, A voyage to Abyssinia (1814): p. 35-36; Alpers, 1970: p. 201-203, 208; Capela, 2002: p.
256-258; Rodrigues, 1998.
152 Joaquim José Varela, “Descrição da Capitania de Moçambique…” (1788): p. 284, 297. Segundo
Varela o rio Curé situar-se-ia entre os rios Pemba e Pinda; v. “Plano hidrográfico desde Cabo Delgado ao Rio Mocambo para localizar os referidos elementos hidrográficos”, s.d. [séc.XVII], SGL, 1-G-47.
Quelimane, Inhambane e Sofala153. Embora deva ser encarado como uma excepção na comunidade portuguesa, atente-se no caso de João da Silva Guedes, dono do patacho S. Vicente Formidável e um dos principais homens de negócios da Ilha de Moçambique, a quem pelo menos nos anos de 1801 e 1803 foi dada autorização para ir a Quelimane carregar mantimentos154. Ao contrário de Silva Guedes, contudo, para os pequenos mercadores portugueses o trato com o continente fronteiro foi sempre a única fonte pos- sível de rendimento e de abastecimento regular155.
Quantificar o total de alimentos, marfim e escravos transaccionados pelos portugueses afigura-se como uma tarefa inexequível atendendo às características do pró- prio comércio que, a maioria das vezes, escapava ao controlo das autoridades portugue- sas156. Dada a extrema dependência dos abastecimentos externos, o comércio alimentar constituir-se-ia como um significativo segmento de negócio. Os dois mais lucrativos e pretendidos segmentos do comércio praticado no continente fronteiro na segunda metade de Setecentos seriam, porém, o marfim e os escravos.
2.2.1. “Reduzidos a huma nesecidade bem cruel” ou a dependência alimentar da Ilha
Em 1766, a preferência dos súbditos portugueses pelo comércio, em particular pelo comércio de escravos praticado com os ajauas, motivava os lamentos do governador-geral Baltasar Pereira do Lago: “aquy as nossas terras firmes produzem admiráveis palmares e como deste se tirão vários frutos com boa extracção, não se cuida de outra couza, passando deste contrato a fazer o do mujão (...) não tendo negação estas Terras para darem todos estes mantimentos em muita abundancia”157. Empenhados num comércio que, para muitos, se constituía como o principal sustento – ou, pelo menos, como o mais lucrativo e imediato –, os portugueses dedicavam pouco interesse à agricultura – como parecia acontecer também em relação aos demais ofícios mecâni-
153 Mapa dos moradores e habitantes da Ilha de Moçambique e Terra Firme, 30.Mai.1766, AHU, Cons.
Ultr., Moç., cx. 26, doc. 82; Hoppe, 1970: p. 221-224.
154 Passaportes passados a João da Silva Guedes para comerciar em Quelimane, 23.Out.1801, AHU,
Cons. Ultr., Moç., cx. 89, doc. 41 e 12.Mar.1803, cx. 97, doc. 25. O percurso de João da Silva Guedes será abordado no quarto capítulo.
155 Mbwiliza, 1991: p. 44.
156 Edital do Senado da Câmara proibindo a venda de mantimentos para fora da Ilha de Moçambique sem
licença camarária, 17.Mar.1802, AHU, Gov. Moç., cód. 1353, fls. 259-259v e Capela, 2002: p. 171 e ss..
157 Carta do governador-geral Baltasar Pereira do Lago para o secretário de Estado, 17.Ago.1766, AHU,
cos158. De resto, as condições edafoclimáticas do continente fronteiro tão-pouco se adequavam à produção de arroz e trigo, cereais que constituíam a base alimentar de eu- ropeus e asiáticos, nem os moradores portugueses se interessavam pelo cultivo dos ce- reais tradicionais africanos como a mapira e a mexoeira159. Em suma, ao nível alimen- tar, sobretudo no que respeitava ao cultivo de cereais, a Ilha de Moçambique não se bastava a si própria, pelo que a sua subsistência estava dependente de um conjunto de mercados exteriores.
Este estado de coisas afectava não apenas a generalidade da população mas tam- bém as próprias autoridades portuguesas, já que cabia ao governo-geral a responsabili- dade de prover as guarnições militares, o Hospital Real e as tripulações das embarca- ções da Coroa portuguesa estacionadas na Ilha. O governo-geral era, ainda, obrigado a intervir no sistema geral de abastecimento em ocasiões de carência extrema160, o que sucedia não raras vezes. Do mercado interno da capitania de Moçambique chegava uma parte das provisões. Quelimane, localizada no delta do Zambeze e com uma basta pro- dução de trigo, arroz e milho, algumas frutas e legumes, constituía-se como o principal mercado abastecedor sendo a ligação entre os dois portos conduzida em dois ou três navios anuais. Das ilhas Querimbas, também com uma periodicidade bianual, era ex- portado arroz e milho. Em função da maior distância à Ilha, a ligação aos portos de So- fala e Inhambane, de onde era remetido principalmente arroz, fazia-se em regra apenas uma vez ao ano161.
Mas, quer pelo insuficiente número de viagens, quer pela reduzida tonelagem da frota a que se somava o pouco espaço disponibilizado para o transporte de mantimentos preteridos em relação aos produtos destinados à exportação como o marfim e os escra- vos, as remessas dos portos dependentes eram manifestamente insuficientes. Por isso, o provimento da ilha-capital dependeu também de mercados externos à própria capitania, nomeadamente do Estado da Índia, das ilhas Comores, de Madagáscar e das ilhas Mascarenhas. Através dos navios da Carreira da Índia Moçambique era abastecido de vinho, manteiga, queijo, frutos secos e cacau e outros produtos de luxo direccionados
158 Carta do governador-geral Baltasar Pereira do Lago para o secretário de Estado, 15.Ago.1766, AHU,
AHU, Cons. Ultr., Moç., cx. 26, doc. 61.
159 Rodrigues, 1998.
160 Rodrigues, 1998 e Hoppe, 1970: p. 267.
161 Joaquim José Varela, “Descrição da Capitania de Moçambique…” (1788): p. 283, 300; Frei
Bartolomeu dos Mártires, “Memoria Chorografica da Provincia ou Capitania de Mossambique…” (1822): p. 146-147; Carta do governador-geral Isidro de Almeida e Sá para o secretário de Estado, AHU, Cons. Ultr., Moç., 25.Jul.1802, cx. 93, doc. 97; Hoppe, 1970: p. 241-243. Sobre a natureza dos produtos alimentares importados dos portos dependentes para a Ilha de Moçambique, v. Lobato, 1989: p. 187-189.
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