3. RELAÇÕES DE TRABALHO NOS EMPREENDIMENTOS DE
3.3. Sobre a Dinâmica de Funcionamento dos Empreendimentos
3.3.3. Relacionamento entre Cooperados e Rotatividade
Nos dois empreendimentos estudados o relacionamento entre os cooperados pode ser considerado um fator significativo para a efetivação dos princípios da economia solidária. Outra questão a se levar em conta é a alta rotatividade dentro das empresas
82 solidárias, nos dois empreendimentos encontramos cerca de 20% dos sócios que estão há mais de cinco anos na cooperativa, os outros são o reflexo desta rotatividade.
O empreendimento A está elaborando as regras de convivência, o que segundo a gerência, vai melhorar o ambiente e a produtividade. Percebe-se entre as cooperadas que existe um ambiente favorável, com discussões e disputas dentro de uma normalidade, como sinaliza uma delas: “Nós somos aqui uma família, às vezes a gente discute, mas é normal né, a gente acaba se entendendo” (Entrevista 02, Empreendimento A).
As pessoas novas que ingressam no empreendimento passam por um período de experiência, que nas duas cooperativas dura em torno de um a dois meses, se ela se adaptar ao ambiente e ao trabalho, passa a ser associada como destaca uma cooperada do empreendimento A: “A pessoa entra aqui e fica um mês aprendendo e fazendo a experiência junto com as cooperadas, depois de um mês ela decide se quer ficar ou não, aí ela já passa a ser uma cooperada” (Entrevista 04, Empreendimento A).
Os agentes trabalham onde se adaptam melhor e podem mudar de função dependendo da demanda, a divisão de tarefas é feita diariamente no início da manhã de acordo com as necessidades do dia: “(...) eu distribuo as tarefas no inicio do dia. É como uma família, às vezes a gente se desentende, mas cada um tenta dar o melhor de si" (Entrevista 01, Empreendimento A). Percebe-se na fala deste agente que em geral o ambiente é bom, mesmo que às vezes seja inevitável discutir. É recorrente nas conversas com os sujeitos o uso do termo família, comparando a empresa ao seu núcleo familiar. Observa-se também, a distribuição das tarefas, que é feita diariamente.
Apesar de a diretoria possuir tarefas diferentes daquelas da maioria dos cooperados também são considerados da “família”. É deles o papel de cobrar efetividade no trabalho, como podemos observar nesta fala:
Quando chega uma pessoa nova aqui, pelo contato boca a boca mesmo, agente vai vendo onde ela se adapta melhor, experimenta na costura simples, no corte, pra ver se ela sabe ou aprende rápido, nós trabalhamos em horário comercial (Entrevista 04, Empreendimento A).
O relacionamento entre os cooperados passa pela ideia de que produzindo juntos e produzindo mais todos ganham. É um ambiente favorável para o trabalho, já que muitos destacam que trabalhar sem a pressão de um patrão é melhor, como destaca esta cooperativada:
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Olha tem o negócio da Economia Solidária né, não tem patrão pra te fazer pressão, tá certo que aqui é mais largado, tem gente que falta muito e não dá nada, mas no fim é bom porque os lucros a gente divide, todo mundo trabalha e se todo mundo trabalhar direitinho a gente ganha mais (Entrevista 02, Empreendimento A).
Neste relato observa-se que mesmo que a produção seja mais “largada” a não pressão de um patrão supõe um ambiente de trabalho que destaca o fazer coletivo e consequentemente o ganho coletivo. As questões sobre as normas internas de convivência são discutidas geralmente em assembleia, mas há algumas decisões, que provem da diretoria, como indica a fala da associada a seguir:
Nós temos uma diretoria, é a diretoria que toma as decisões referentes a pedidos e vendas grandes. Nas assembleias são tomadas decisões como regras que estamos colocando agora aqui, o café é horário? Que horário se toma o chimarrão? Que horário é o intervalo? Essas coisas. (Entrevista 04, Empreendimento A).
Constata-se que nas assembleias são tomadas decisões que interferem diretamente no relacionamento entre os cooperados, mas cabe à diretoria do empreendimento as decisões referentes à dinâmica de vendas.
Outro fator a se destacar é a alta rotatividade dos agentes, que existe dentro dos empreendimentos de economia solidária de Chapecó. De acordo com a observação feita, a causa eminente desta realidade é a remuneração baixa, após um período na cooperativa, a tendência é ele voltar a trabalhar em empresas privadas. Para Moisés (2009) essa rotatividade dentro da empresa exerce uma força que prejudica o processo de produção, seja pela diminuição de agentes, seja pela saída de trabalhadores experientes na função.
Sendo isto significativo na organização do trabalho, elencarei alguns fatores responsáveis pela rotatividade nos empreendimentos de economia solidária de Chapecó, a partir das observações feitas in loco.
O primeiro fator a se destacar é a dificuldade em exercer a autogestão, muitos associados não exercem efetivamente a gestão delegando decisões à diretoria e preocupando-se em gerir os conflitos interpessoais existentes. A presença da autogestão, como mencionado anteriormente, é o que dá identidade o empreendimento como solidário, e está presente fortemente nas falas dos trabalhadores como ideal.
84 Outro fator que promove a rotatividade é o descontentamento com as formas de remuneração. Nos dois empreendimentos as remunerações não são iguais para todos, existem diferenças, como destaca a cooperada a seguir:
(...) aqui tem quatro valores de hora, não posso te dizer quanto é, mas são quatro valores diferentes. É diferente o valor da hora da diretoria, vendas externas, vendas internas, corte e costura sofisticada e costura simples. Fecha o mês, paga as contas, paga as horas, mas fica um capital na cooperativa. (Entrevista 04, Empreendimento A).
Observa-se que há valores diferentes entre as cooperadas, o que causa descontentamento e consequentemente a saída de alguns agentes. Verifica-se que a divisão das sobras é feita por uma hierarquia de valores do trabalho, muitas vezes não entendida nem aceita por alguns sujeitos.
Ainda pode-se apontar um terceiro fator, a dificuldade na transmissão das informações referentes à gestão do empreendimento. Muitas vezes assuntos que deveriam ser tratados em assembleia são decididos no pequeno grupo e não chegam ao conhecimento de todos os envolvidos, causando disparidades na informação. Vale ressaltar que a falta de informação é um grande problema para empresas solidárias, pois é a comunicação a grande ferramenta para a efetivação do processo democrático. Desta forma muitas informações acabavam sendo omitidas, de modo que a desconfiança vai se propagando até levar ao desligamento de alguns cooperados.
Contudo os cooperados que permanecem são aqueles que além de motivações econômicas aderem ao empreendimento por convicções ideológicas e buscam dar continuidade e autenticidade às relações de produção, Para exemplificar isto resgato novamente o depoimento de uma cooperada: “A cooperativa vai crescer, já temos o galpão novo que você viu e agora vamos abrir a estamparia, a cooperativa vai crescer muito ainda. Que isso aqui dê mais frutos, mais trabalho pra mais gente” (Entrevista 01, Empreendimento A).
O depoimento mostra que aqueles agentes que estão vinculados ao empreendimento não só por motivações econômicas ao serem indagados quanto ao futuro da empresa se posicionam como membros do processo de crescimento. Vale ressaltar que “a solidariedade só é verdadeira se nasce da adesão voluntária. Ela não pode se dar de cima para baixo (...). A sócio-economia solidária depende,
85 primariamente, da adesão das pessoas aos princípios da solidariedade, igualdade, democracia e responsabilidade” (LISBOA, 2005, p.06).