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POST SCRIPTUM 271 REFERÊNCIAS

4.1 PRIMEIRA PARTE: O CONTEXTO INSTITUCIONAL

4.1.5 Resultado das entrevistas individuais

4.1.5.4 Relatos sobre a classe da professora Maria

Este tema trata das características da classe pesquisada, presentes nas falas da diretora Joana e da professora Maria, nas entrevistas semiestruturadas e em diálogos espontâneos da professora e dos profissionais que trabalhavam na instituição.

Ao sugerir a classe da professora Maria para participar da pesquisa, a diretora Joana apresentou-a como uma classe com características especiais, por ter sido formada com alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem. A classe não era formalmente denominada como “classe especial”, mas reuniu os alunos que não estavam alfabetizados ao final da segunda série, bem como alunos com diagnóstico de problemas mentais e alunos com problemas de inadequação comportamental. E a diretora disse:

Essa sala se formou no ano passado com alunos que apresentavam sérios problemas de aprendizagem. No final de 2007, reunindo todas as salas de segunda série, as professoras indicaram que 25 alunos seriam reprovados porque não haviam sido alfabetizados. Você tem noção do que é isso? Uma sala toda sendo reprovada? Eu não podia aceitar isso e fui atrás da Secretaria da Educação propor que esses alunos fossem aprovados sob a condição de que fosse realizado um trabalho diferenciado com eles na terceira série. A Secretaria (da Educação) me apoiou e, mesmo com a resistência dos professores, eu consegui formar essa sala. Em 2008, na atribuição de salas, eu estava com medo, porque ninguém queria pegar essa turma, mas eu pude contar com a professora Maria, que já havia trabalhado com eles o reforço no ano anterior e sabia do potencial de aprendizagem que eles traziam. Combinamos que ela faria um trabalho diferenciado com eles e deu muito certo.

Ainda segundo a diretora Joana, a classe da professora Maria desenvolveu-se no decorrer do ano de 2008, e os alunos foram alfabetizados. O sucesso da experiência foi creditado ao trabalho diferenciado da professora com projetos pedagógicos, tanto que:

Hoje eles nem parecem os mesmos alunos. Claro que eles ainda apresentam dificuldades, mas estão quase todos alfabetizados. Ela trabalhou com vários projetos. Construiu com os alunos um jornal. Eles tiraram fotos, fizeram parceria com um jornalista da cidade que veio até aqui fazer uma palestra para a classe e ficou encantado com o trabalho.

Para a diretora Joana, um aspecto importante foi o vínculo estabelecido entre a professora Maria e a sala de aula, de modo que atribuiu a mesma turma à professora no ano seguinte, para darem continuidade ao processo de aprendizagem iniciado em 2008 entre a professora e a turma. E prosseguiu dizendo: “E o melhor é que ela continuou com a classe em 2009. Faz dois anos que ela trabalha com a mesma turma. Eles já se conhecem, se respeitam e o trabalho tem uma continuidade. Acho que essa classe seria perfeita para sua pesquisa”.

Ao falar sobre sua turma, a professora Maria relatou sua experiência anterior como professora do reforço escolar, atendendo alguns dos alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem. Essa experiência suscitou a empatia entre eles e alimentou o desejo de assumir a classe no ano seguinte. E continuou: “Tudo começou em 2007. No período da manhã, eu era professora de quarta-série em outra escola e, no período da tarde, eu trabalhava aqui com turmas de reforço escolar. Era um trabalho diferenciado com alunos que apresentavam dificuldades de aprendizagem”.

A experiência como professora do reforço foi importante para a sensibilização e para a tomada de atitude da professora Maria em defesa dos alunos. Segundo ela, os professores humilhavam os alunos e preferiam que eles permanecessem fora da sala de aula, pois não possuíam condições de aprender. A fala da professora foi a seguinte:

O reforço acontece no mesmo período das aulas, porque é difícil para muitos alunos comparecerem em outro turno. Muitos participam de algum projeto, como a APAE e, na maioria das vezes, é difícil convencer os pais. Então os professores encaminhavam os alunos que necessitavam do reforço e eu passava nas salas recolhendo-os e levando-os para uma sala específica. O pior você não sabe: os professores humilhavam esses alunos o tempo todo. Diziam: ‘pode levar esse caso perdido’, ou então: ‘você pode tentar de tudo, mas esse aí é burro, não aprende de jeito nenhum.

Nesse trecho da fala da professora Maria, observa-se que ela foi tocada não apenas pela situação de humilhação e descaso a que os alunos eram submetidos, mas que assumiu para si própria a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso da aprendizagem dos alunos diante de seus colegas de profissão. E continuou:

Eles falavam isso o tempo todo. Até hoje, que eles não dão mais aula para esses alunos, eles falam. E os meninos chegavam para mim arrasados, com baixa autoestima, sentindo-se incapazes. Até que um dia eu dei um basta! Falei: ‘na minha frente ninguém fala mal de aluno! Se o aluno tem dificuldade para aprender é porque o professor é incapaz de ensinar!

Antes mesmo de assumir oficialmente a classe, a professora Maria já havia adotado os alunos para si, e esse sentimento era recíproco por parte dos alunos. E ela prossegue, dizendo:

Mas eu estava te contando a minha história com essa turma. Houve uma hora em que as professoras já não queriam mais os alunos com dificuldade na sala de aula e eles também preferiam ficar comigo. Eu pedi para a diretora Joana deixar assim, pois eles aproveitavam mais comigo do que jogados na sala de aula.

Este trecho demonstra a opinião da professora Maria sobre as consequências negativas da reprovação para os alunos e a parceria estabelecida entre ela e a diretora, ao aprovarem os alunos sob a tutela da professora Maria:

Chegou o final do ano e a diretora fez um levantamento com os professores do conselho e verificou que 25 alunos seriam reprovados na 2ª série. Ela perguntou minha opinião e eu respondi que isso só contribuiria para perdermos de vez esses alunos. Assim, decidimos que eles seriam aprovados e eu seria a professora que trabalharia com eles na 3ª série.

A professora Maria relatou que as dificuldades enfrentadas, ao assumir a sala de aula, iniciaram-se pela resistência do próprio corpo docente, que era contrário à aprovação dos alunos. Contudo ela se mostrou confiante, pois contava com o apoio da direção e da administração escolar referendando o seu trabalho, e complementou:

Mas para isso foi preciso comprar uma briga terrível com as professoras e até hoje sou crucificada por isso. Elas me ameaçaram dizendo que só não seria o fim da minha carreira porque eu sou concursada. Mas não admitiam aprovar para a 3ª série alunos que não sabiam ler, escrever ou fazer contas básicas. E ainda diziam que eu nunca conseguiria mudar essa situação porque esses alunos são burros, não têm capacidade para aprender. Mas eu não me preocupava com os comentários porque tinha o apoio da minha diretora e da Secretaria da Educação.

O discurso da professora Maria ressalta sua concepção de aprendizagem como uma condição inerente a qualquer indivíduo diante da sua singularidade, dizendo: “As crianças não são culpadas. Elas querem aprender, têm condições de aprender, mas cada uma tem seu ritmo, seu tempo e sua maneira”.