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2 MENTALIDADE E ENSINO SUPERIOR: NOBILITAR OU PROFISSIONALIZAR?

2.1 FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DE UMA MENTALIDADE

2.1.2 Religião e poder: o Ensino Superior instituinte do privilégio

Se, porém, esse ensino uniformizador dos padres da Companhia abafou a espontaneidade intelectual, embotou o gosto da análise e comprometeu, por séculos, o espírito crítico do brasileiro, na sociedade colonial, foi certamente, como reconheceu Gilberto Freyre, ‘utilíssimo à integração social do Brasil’: criando e espalhando por todo o país um sistema de cultura, não só contribuiu para consolidar

a religião cristã – uma das forças vivas da unidade espiritual na Colônia –, mas

concorreu para assimilar as elites brasileiras de norte a sul, fundindo na unidade da

cultura as diversidades regionais, sociais, econômicas e políticas (AZEVEDO,

1996, p. 275, grifos nossos).

A autoridade jesuítica, atuando na instância formadora, por excelência, do pensamento intelectual, acabaria por fechar Portugal às idéias de renovação científica da Renascença, apesar de sua incessante colaboração na aventura dos descobrimentos marítimos, dando o caráter formalista próprio de sua intelectualidade. Ou seja, “a retórica, o gramaticismo, a

erudição livresca são traços que herdamos da formação, dita humanista, derivada do século

XVI português” (COSTA, J., 1967, p. 23). Nesse aspecto, Sérgio (1924 apud COSTA, J.,

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O autor é também citado por Schwartz, S. (1979, p. 233). Outro importante estudo sobre a Universidade de Coimbra e sua influência na organização dos cursos jurídicos no Império é apresentado por Silva, M. (2003).

1967, p. 23), na sua Crítica do trabalho do Dr. M. Murias. O Seiscentismo em Portugal, escreve que

a filosofia do seiscentismo confina-se na escolástica, acarinhada nas Universidades de Coimbra e Évora, e nos colégios e seminários dos jesuítas, quando já em toda a Europa a impugnavam os discípulos de Bacon e de Descartes. Não há dúvida, portanto, que o pensamento filosófico do século XVII esteve apartado das correntes modernas que na França e na Inglaterra levavam de vencida o tomismo.

Em síntese, enquanto, no Renascimento, Portugal traz uma importante contribuição, tanto no campo político-econômico quanto científico, através das grandes navegações, o século XVII é marcado por sua decadência política e esterilidade do ensino universitário, coincidindo o início desse processo com os primeiros momentos da colonização do Brasil. Isto é:

De um mundo como fora aquele que preparara os descobrimentos marítimos, Portugal, e com ele a Península Ibérica, passa ainda em fins do século XVI e começo do século XVII para ‘um mundo escuro, inerte, pobre, ininteligente’. ‘Saímos duma sociedade de homens vivos, movendo-se ao ar livre: entramos num recinto acanhado e quase sepulcral, com uma atmosfera turva de pó de velhos livros, e habitado por espectros de doutores’ (COSTA, J., 1967, p. 29).

O domínio dos jesuítas sobre o Colégio das Artes5cessou duzentos anos mais tarde. A dificuldade em afastar a sua influência decorria exatamente do amplo poder exercido pelos religiosos sobre a consciência ou mentalidade portuguesa da época. Essa mentalidade jesuítica serviu-nos de herança, juntamente com a língua, os costumes e a religião e – por que não acrescentar –, uma determinada visão de homem e de mundo.

Os religiosos da mesma Companhia de Jesus também instalaram na Colônia os primeiros colégios, isto é,

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Dentre os vários colégios fundados em Coimbra, que tinham a estrutura de pensionato, prestando assistência e ministrando o ensino, o mais importante foi o Colégio das Artes, que teve seu funcionamento iniciado em 1548. Era o centro de ensino preparatório para a entrada nas Universidades (TORGAL, 2003).

o mesmo fito de fazer dos filhos-família mais católicos do que latinos, os leva a criar, já em 1533, na Bahia, as primeiras classes de latim. As pequenas elites de letrados, pertencentes todas às famílias a que a agricultura do açúcar dera certa opulência, freqüentavam os colégios da Companhia. À riqueza que representa a posse da terra, de engenhos, de escravaria, juntava-se, como já dissemos, como sinal de classe, de distinção, a posse de uma cultura humanística ministrada em colégio da Companhia. Forçoso é reconhecer que foi graças a essa cultura de eruditos, simplesmente ornamental, originada nos colégios dos jesuítas, que a tradição da cultura intelectual européia se foi firmando entre nós. Foram os letrados formados pelos jesuítas que estiveram a serviço dessa fixação de cultura. [...] letrados, feitos pelos moldes jesuíticos, [...] homens que se debruçavam à janela do Atlântico à espera do navio que lhes traria idéias e livros da Europa [...] (COSTA, J., 1967, p. 44, grifos nossos).

As nossas imitações do Colégio das Artes, de Coimbra, serão construídas pela Companhia de Jesus, no Rio de Janeiro, na Bahia, no Pará, onde serão ensinadas a filosofia escolástica, a teologia e as humanidades.

Freyre (1936, p. 269) resume, brilhantemente, a formação dada à elite brasileira, no período colonial, ao afirmar que

a filosofia era a dos oradores e a dos padres. Muita palavra, e o tom sempre o dos

apologetas que corrompe a dignidade da análise e compromete a honestidade da crítica. Daí a tendência para a oratória que ficou no brasileiro, perturbando-o

tanto no esforço de pensar como no de analisar as coisas. Mesmo ocupando-se de assuntos que peçam a maior sobriedade verbal, a precisão de preferência ao efeito literário, o tom de conversa em vez do discurso, a maior pureza possível de objetividade, o brasileiro insensivelmente levanta a voz e arredonda a frase. Efeito do muito latim de frade; da muita retórica de padre (Grifos nossos).

A instrução era um forte componente de acesso a níveis superiores da escala social, juntamente com o sangue enobrecido e a propriedade da terra, ou seja,

se a profissão ‘classifica’ e as classes a determinam, influenciando sobre a escolha das profissões, não podia atrair e classificar o que se tinha por ocupação de escravos, mas toda a atividade de preferência intelectual que, elevando aos cargos nobres, fosse capaz de suprir a propriedade da terra e os privilégios de nascimento. O sistema jesuítico de ensino, literário e retórico, não fez mais do que valorizar as letras e acentuar, com a distância entre a elite intelectual e a massa, o horror ao

trabalho manual e mecânico que provinha antes ‘desse pendor português para

viver de escravos’ (AZEVEDO, 1996, p. 276, grifos nossos).

A formação intelectual recebida era eminentemente literária, orientada para o cuidado da forma, adestrando a eloqüência e o exercício das funções dialéticas do espírito, tornando,

esses mestres em artes e licenciados, típicos letrados, imitadores e eruditos, cuja formação sofria influência direta dos velhos autores latinos. Não havia uma formação orientada para a técnica e a ação. As disciplinas que estudavam, resumiam-se às humanidades clássicas, quase exclusivamente latinas, que consistiam na base fundamental da instrução ministrada nos colégios de jesuítas e nos seminários. Fruto da herança escolástica e da cultura clássica, predominava o latim, a gramática e a retórica, até os fins do século XVIII,

[...] quando os frades franciscanos, em virtude da ordem régia de 1772, estabeleceram no Rio de Janeiro um curso de estudos superiores em que, pela primeira vez, figurava além do grego e do latim, o ensino oficial de duas línguas vivas (AZEVEDO, 1996, p. 274).

Tal interesse encontra justificativa numa sociedade de estrutura elementar, do tipo patriarcal, que ansiava por uma cultura que favorecesse o acesso da elite intelectual, se não à nobreza, ao menos aos chamados cargos nobres, com a criação de uma nova “aristocracia” – a dos bacharéis e doutores –, com um mínimo de especialização intelectual, dotados de uma cultura literária e abstrata, transmitida nos colégios de padres, através de uma metodologia que privilegiava a leitura, o comentário e a especulação, não a ação e o concreto.

Assim, formavam-se os mestres em artes, “espécie colonial dos bacharéis de hoje”, instruídos nas humanidades latinas e noções gerais de filosofia e de teologia, mais apropriada a formar pregadores, letrados e eruditos (AZEVEDO, 1996, p. 276). Essa é, talvez, uma explicação histórica da tendência intelectualista e literária que se desdobrou, por mais de três séculos, para o bacharelismo, a burocracia e as profissões liberais.

Numa tentativa de síntese, Bosi (1992) descreve o período colonial como uma formação econômico-social assentada numa camada de latifundiários, cujos interesses econômicos estavam diretamente vinculados a grupos mercantis europeus (o escravismo colonial vinculado ao capitalismo europeu) e baseados na força de trabalho escrava (GORENDER,

1977), regida pelo trinômio lei-trabalho-opressão ou alforria-liberdade-dependência. Na estrutura política, predominava o domínio dos senhores rurais, porém subordinados à Metrópole Portuguesa. Após a Independência, o poder se expressa pela via do mandonismo local, muitas vezes exercido por aqueles bacharéis que assumiam o parlamento e as assembléias provinciais (FAORO, 1958).

Em relação à representatividade política e ao exercício da cidadania, esta praticamente inexiste na Colônia, porque a noção de Cidadania emerge com o Estado Liberal. O clero vive acuado sob o poder dos proprietários de terra e da Coroa Portuguesa; é dependente, econômica e juridicamente, do sistema de Padroado, o que pode ser observado pelos papéis assumidos pelos capelães-de-fazenda e pelos padres-funcionários. Somente com a crise do pacto colonial é que vão surgir as figuras dos padres liberais e radicais, em fins do século XVIII e início do século XIX.

Como afirma Bosi (1992, p. 25),

em síntese apertada, pode-se dizer que a formação colonial no Brasil vinculou-se: economicamente, aos interesses dos mercadores de escravos, de açúcar, de ouro; politicamente, ao absolutismo reinol e ao mandonismo rural, que engendrou um estilo de convivência patriarcal e estamental entre os poderosos, escravista ou dependente entre os subalternos.

E mais adiante, o mesmo autor identifica, do ponto de vista cultural, algumas características que merecem destaque:

A cultura letrada é rigorosamente estamental, não dando azo à mobilidade vertical a não ser em raros casos de apadrinhamento que confirmam a regra geral. O domínio do alfabeto, reservado a poucos, serve como divisor de águas entre a cultura oficial e a vida popular. O cotidiano colonial-popular se organizou e se reproduziu sob o limiar da escrita (BOSI, 1992, p. 25).6

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Desse modo, a educação brasileira, desde os primeiros anos da colonização portuguesa, não se faz a partir de condicionantes endógenos, mas surge de adaptações de modelos importados de países ditos mais adiantados, que atendam a interesses da elite dominante, na construção de seus quadros políticos e na manutenção de seu poderio econômico.

Há, segundo alguns autores, íntimas relações entre o desenvolvimento da religião, no Brasil, e o da vida intelectual, nos três primeiros séculos (AZEVEDO, 1996; FREYRE, 1936; WEREBE, 1982). Em nossa formação social, quase toda a cultura que se desenvolveu nessa parte do continente, foi efetivamente de intenção, forma e fundamentos religiosos. Só mais tarde (séc. XIX), a cultura se desprendeu da Igreja, sem deixar de ser cristã em seu espírito e nas suas manifestações, para se ligar à vida profissional e às instituições destinadas à preparação para as profissões liberais:

[...] a princípio de iniciativa eclesiástica ou de conteúdo religioso, crescida à sombra de conventos, seminários e colégios de padres e, em seguida, de caráter utilitário, fomentada nas escolas superiores de preparação profissional... (AZEVEDO, 1996, p. 238).

Na armada de Pedro Álvares Cabral, já se registrava a presença de alguns franciscanos, cuja missão era a evangelização das tribos nativas e a conquista de almas, em meio à aventura marítima das descobertas.

Em 1549, chega ao Brasil, com o Governador Tomé de Sousa, o verdadeiro “estado-

maior” de homens de elite da Igreja – os jesuítas – para a obra de extensão do reino de Deus

no Novo Mundo, dirigidos pelo Pe. Manuel da Nóbrega, que fundou e organizou a catequese dos índios.

As primeiras escolas brasileiras são fundadas na Bahia e constituíam-se em estabelecimentos de ler e escrever, sendo Vicente Rodrigues o primeiro mestre-escola. Inauguram-se, então, os primeiros anos de trabalho com o padre Manuel da Nóbrega, com a

extensão do movimento educacional para o sul, partindo de Salvador em direção a Porto Seguro, Espírito Santo e São Vicente.

Com o segundo governador-geral, Duarte da Costa, em 1553, veio José de Anchieta, que fundou o Colégio de São Paulo, aprendeu a língua Tupi, fez alguns escritos, sendo o primeiro a desbravar os sertões de Porto Seguro, Jequitinhonha e São Francisco, expandindo as atividades educativas e missionárias.

Atraindo os meninos índios a suas casas ou indo buscá-los nas aldeias, associando, na mesma comunidade escolar, filhos de reinóis e procurando, na educação dos filhos, conquistar os pais, os jesuítas não estavam servindo apenas às obras de catequese, mas lançavam a base da educação popular, mais tarde reconhecida e elogiada pelos defensores da escola pública. Espalhando nas novas gerações a mesma fé, língua e costumes, eles começavam a forjar, na unidade espiritual, a unidade política de uma nova pátria.

Esse movimento foi fundamental para o processo de formação do futuro Estado Nacional brasileiro, fornecendo-lhe o seu aspecto de unidade e homogeneização, sob a herança da educação jesuítica, formadora e reguladora, decisiva na constituição de uma cultura brasileira, subjugando a cultura nativa, que foi descaracterizada ou substituída, à medida que avançavam as práticas evangelizadoras pelos sertões.

A obra de estender o “Reino de Deus no Novo Mundo” era levada às últimas conseqüências pelos religiosos, com projetos extremamente sacrificiais e missionários, apesar das inúmeras críticas acerca do violento processo de aculturação a que foram submetidos os nativos. É na cristianização da terra (conversão e assimilação cultural) que se encontram os esforços dos jesuítas por um minimum de unidade moral e espiritual entre os colonos portugueses e os povos nativos, assimilados à nova civilização em terras americanas.

A missão jesuítica, um dos mais poderosos agentes de colonização, não se limitava a doutrinar a todos com a palavra cristã, nem empregava somente os meios religiosos para

difundir o Evangelho: investia contra a prepotência e abusos dos colonos; desencadeava a ofensiva contra a dissolução dos costumes, com o desenfreado processo de abuso sexual contra índias e negras, que abalava a estabilidade social; abria escolas de ler e escrever, chegando até a construir, com suas próprias mãos, colégios como o da cidade de Salvador – o primeiro do Brasil, o de São Vicente (1554) e o de São Paulo, nos campos de Piratininga. Além disso, concentrava os índios em aldeamentos, onde, à sombra da igreja e das escolas, eram cultivadas as terras, ensinando-se-lhes novas técnicas de plantio e cultivo, embora segregando-os de sua cultura nativa. Assim, iniciava-se a penetração colonizadora que, mais tarde, atingiu o máximo, com a rota acelerada das bandeiras.

Dentre as principais descontextualizações cometidas pelos jesuítas, destaca-se o aspecto intelectual na educação dos colonos e, sobretudo, na formação dos índios, pois se preocupavam em fazer deles artífices e técnicos, ensinando-lhes ofícios mecânicos, sem, contudo, levar em consideração a realidade local e o contexto sociocultural em que estavam inseridos. A segregação dos indígenas em grandes aldeias, que se tornaram pequenas cidades prósperas e tranqüilas, implicava em criá-los em um meio social artificial, dificultando a transição entre a vida na selva e a civilização, constituindo-se em verdadeiros quistos étnicos e culturais na sociedade colonial.7

Entretanto, a sua autoridade e prestígio entre índios e colonos faziam ascender, ao primeiro plano da política colonial, os religiosos que assistiam ao governo como conselheiros, assegurando o sucesso das armas portuguesas.

Nesse aspecto, o Padre Manuel da Nóbrega pode ser considerado um exemplo da extrema força e prestígio político-religioso, levando o governador Mem de Sá a adotar novo sistema para a sujeição dos índios, além de induzir o rei de Portugal a expulsar os franceses do Rio de Janeiro e a Estácio de Sá a reagir contra o invasor associado aos tamoios. Sua

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postura era de defesa do sistema de mão forte – a paz imposta pela firmeza e pela força – para facilitar a catequese de índios, que foram se incorporando ao empreendimento civilizador, garantindo a vida dos colonos contra as pressões permanentes das incursões de tribos revoltosas.

Com o auxílio de outras ordens religiosas, como os beneditinos, franciscanos e carmelitas, que chegaram na armada de Frutuoso Barbosa (1580), a difusão das missões religiosas ocorreu de maneira rápida em todo o litoral, especialmente Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

Os religiosos estabeleceram mais sólidos pontos de apoio para essa vigorosa expansão missionária nas escolas e colégios, tanto que não há, na vida colonial, aldeia de índios, vila ou cidade em que, ao lado de um templo católico, não se encontre, ao menos, a escola de ler e escrever para meninos. A princípio, veio o ensino elementar, depois o de humanidades, nos colégios do Rio de Janeiro, de Pernambuco e da Bahia. Este último, reorganizado em 1557, passou a ministrar o Ensino Superior em suas faculdades de Teologia Dogmática, Teologia Moral e de Artes (Filosofia), formando mestres em artes, já em 1578.

Nesses colégios, em que foram instaladas as primeiras bibliotecas do país, passaram a ser formados os primeiros bacharéis e letrados do Brasil, sendo também preparados, para os estudos em Coimbra ou em outras Universidades européias, todos os jovens que preferiam as carreiras de direito ou medicina. É neles que se educaram Bento Teixeira, Frei Vicente de Salvador, Padre Antônio Vieira, Eusébio e Gregório de Matos, Santa Rita Durão, Basílio da Gama e Alvarenga Peixoto, dentre outros.

Nos três séculos do regime colonial, o ensino foi entregue inteiramente ao clero – jesuítas, beneditinos, capuchinhos, carmelitas e sacerdotes – em seus colégios, conventos e seminários, com predominância da Companhia de Jesus até 1759. Estes criaram e

mantiveram, por duzentos anos, os primeiros esboços do ensino público8 entre nós. Essa cultura dominada pela religião, orientada para a formação profissional de sacerdotes, com feição literária e escolástica, não possuía preocupações utilitárias e científicas, influenciando o interesse retórico e o gosto pelo diploma de bacharel. Era essa a formação dada, sobretudo, para os filhos dos colonos, visando a formação de uma elite letrada e culta, que auxiliaria a administração metropolitana nos postos de poder e comando.

Sobre esse aspecto, esclarece-nos Azevedo (1996, p. 273) que,

[...] além da nobreza e da propriedade da terra, o que determinava o acesso na escala social era a instrução exclusivamente a cargo do clero ou, mais particularmente, dos jesuítas. [...] Mas, do seio da sociedade colonial, heterogênea, dispersa e inculta, não tardou a surgir, com a instrução ministrada pelos jesuítas, uma nova categoria social – a dos intelectuais que, feitos os estudos e formados mestres nos colégios de padres, iam bacharelar-se em Coimbra, para adquirirem, com o título de licenciados e de doutores, o acesso fácil à classe nobre pelos cargos de governo (Grifos nossos).

Essa característica do ensino, tanto na Metrópole quanto na Colônia, possibilitou a formação de uma elite distanciada da massa ignorante dos colonos e a ela superposta. Os alunos formados em colégios de padres foram, entretanto, importantes elementos de urbanização e universalização, incutindo seus novos estilos de vida, com predomínio do espírito europeu, num ambiente influenciado, sobremaneira, pelos senhores de engenho, símbolo do tradicionalismo e da extrema diferenciação regional.

Seguindo a tradição, até a primeira metade do século XIX (1835), o primeiro filho, nas famílias patriarcais, sucedia ao pai, pela lei que dava ao primogênito a sucessão integral e a herança do patrimônio material, criando condições para o desenvolvimento da família do tipo patriarcal-paternalista. Ao segundo, caberia a carreira de letrado, indo estudar na Europa, e o

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O ensino é aqui referido como público no sentido de ser mantido pela Coroa Portuguesa, porém não como sinônimo de popular ou voltado aos interesses populares, uma vez que a maior preocupação da educação jesuítica não era propriamente com a educação e sim com “[...] a difusão de um credo religioso. A orientação do ensino caracterizava-se, assim, pelo dogmatismo e pela abstração, afastando os jovens dos verdadeiros

terceiro deveria entrar para a Igreja, professando aos quinze anos. Esse último era entregue aos cuidados do ensino jesuítico.

As cidades serviam, muitas vezes, como tristes palcos para lutas sangrentas entre famílias. As relações de parentesco e clientelismo, o exercício do autoritarismo, propiciado pelo regime de propriedade escravista, e a marginalização da maioria da população livre, do processo político, reforçavam, ainda mais, o poder absoluto exercido pelo grande proprietário rural. Dessa forma, as áreas urbanas funcionavam como verdadeiras extensões do domínio rural, cujo detentor exercia seu poder de mando também sobre os conselhos municipais, através da nomeação de seus membros (COSTA, E., 1979).

Numa sociedade essencialmente agrária e escravista, eram escassas as possibilidades do trabalho livre, havendo pouco lugar para instrução e cultura, o que justifica plenamente o fato