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Capítulo 3 Política Externa, risco comunista e crise institucional: Cuba, renúncia de

4. Renúncia de Quadros e crise institucional

Na noite do dia anterior à condecoração de Che, Lacerda se encontrou com o presidente da República no Palácio do Planalto. Lacerda, mais tarde, retomou a estratégia das denúncias públicas. No dia 22 de agosto, revelou, ao vivo pela TV, durante palestra que havia sido convidado a proferir no auditório da Excelsior, de que Quadros vinha articulando um golpe e o havia convidado a participar dele. Círculos udenistas em Brasília esperavam, de outro modo, que Lacerda renunciasse ao governo da Guanabara, pois vinha afirmando na véspera que iria tomar “uma atitude grave”.88

Se assim o fizesse, certamente iria inovar na trajetória de sua biografia política. Preferiu manter a linha já consagrada do lacerdismo: denunciar, plantar o medo comunista e, finalmente, implodir.

No Congresso Nacional nem mesmo o seu partido apoiou as denúncias. O deputado Adauto Lúcio Cardoso reafirmava ser indiscutível o apoio e a solidariedade da UDN à política exterior do presidente Quadros – tema que se apresentava como o primeiro alvo de críticas dos opositores ao governo. Mas nesse ponto afirmava não ceder no essencial, que era a luta contra o comunismo, só que sem o estilo de “opulento colecionador de devoções e inimizades” da agitada vida pública de Lacerda. Na mesma linha, a FPN divulgou manifesto em que apontava o episódio iniciado no auditório da Excelsior como pretexto de agitação emocional que visava a armar todo um sistema de reação contra a política progressista defendida pelos nacionalistas.89 Contudo, o pior da crise ainda estava por vir.

O governador da Guanabara se debatia publicamente contra Quadros e sua PEI. Chegou a proclamar-se ministro ad hoc, uma vez que o Rio de Janeiro era “o centro político, cultural, diplomático e militar do País”.90 Um ato tresvariado que evidentemente não passou da retórica, mas que no conjunto teve sentido político. No dia 24, na TV Rio, a líder de

87 Apud MARKUN; HAMILTON, 2011, p. 80.

88 Lacerda entrega a chave do Rio a anticastrista e anuncia “atitude grave”. Jornal do Brasil, 21/08/1961.

BENEVIDES, 1981, p. 117.

89 Adauto: apoio da UDN a Jânio é indiscutível. Jornal do Brasil, 24/08/1961. 90 Lacerda: só comunistas apoiam a política externa. Jornal do Brasil, 24/08/1961.

audiência, Lacerda revelou os detalhes dessa conversa que tivera com Quadros e, especialmente, com o ministro da justiça, Pedroso Horta. Segundo ele, o ministro Horta, homem da confiança do presidente, fora incumbido de buscar apoio entre alguns governadores, a começar por Lacerda, e que o presidente reclamava da dificuldade de governar com “esse Congresso” e que, “já que deseja „recesso remunerado‟, fique realmente em recesso remunerado”, refletindo o desprestígio do Congresso Nacional junto à opinião pública e o suposto desejo de Quadros por amplos poderes, acima da Constituição.91 A toda essa trama palaciana, o governador da Guanabara tentava revestir com traços sinistros que davam coesão aos passos de Quadros no plano internacional:

Vejam bem que nunca se fará, nem faria eu, a injustiça de supor que homem da inteligência e da lucidez do presidente Jânio Quadros seja capaz de cair de amores pela Bulgária somente pelo que a Bulgária nos possa comprar ou vender, tampouco verberar os Estados Unidos no momento exato em que eles corrigem seus erros e se aproximam do Brasil com uma linguagem franca que consiste afinal, objetivamente, num apoio efetivo ao nosso desenvolvimento. (...) Por trás da condecoração dada ilegalmente a esse aventureiro internacional, a esse apátrida especialista em oprimir a pátria alheia, que coisas se escondem, que aventuras, que tramas da madrugada, que torvas conversas, que sinistras combinações!92

As denúncias caíram como bomba em Brasília. Às 4 da madrugada, os líderes partidários na Câmara dos Deputados acertaram que aprovariam no plenário a convocação do ministro da justiça para responder ao governador guanabarino (Lacerda também deveria ser chamado em seguida). Pelos jornais, Horta defendera-se das acusações de Lacerda qualificando-as de fantasiosas e estranha uma conspiração com o “mais intransigente, o mais ousado adversário da política externa do governo federal” e, principalmente, “o mais boquirroto do País”. A experiência golpista de Lacerda (com Vargas e, em 1955, contra a posse de Juscelino Kubitschek) o fazia uma figura hostilizada e que reputava pouca confiança pela maior parte de deputados, inclusive de seu próprio partido.93 Havia, em princípio, uma

91

Apud MARKUN; HAMILTON, 2011, p. 83. SKIDMORE, 1982, p. 247. BANDEIRA, 2007, p. 563. Câmara cria comissão para recobrar o prestígio. Jornal do Brasil, 18/08/1961. Lacerda diz que recusou convite para uma reforma das instituições. Jornal do Brasil, 25/08/1961.

92 Apud MARKUN; HAMILTON, 2011, p. 84. 93

Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Adauto Cardoso (UDN-GB), em 26/08/1961. Nenhuma ação da UDN poderá ser dirigida contra Jânio, diz Levi. Jornal do Brasil, 25/08/1961. DICIONÁRIO Histórico Biográfico Brasileiro pós-1930. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001. BENEVIDES, 1981, passim.

tendência por aceitar as explicações e os esclarecimentos do ministro.94 De modo geral, portanto, o Congresso, tanto da parte da oposição como da base de apoio ao governo, não tomava naquele instante “as acusações como verdadeiras”95

e não aceitavam mais a colocação dos problemas políticos em termos de “Brasil lacerdista ou Brasil janista”,96

“esses dois políticos profissionais” que, em proveito próprio, queriam monopolizar todas as atenções no setor político e administrativo do País.97 Havia uma disposição a virar a página dessa crise.

A audiência com o ministro na Câmara fora marcada para as quatro da tarde do mesmo dia 25, uma sexta-feira. No Senado, pouco antes, Horta procurou o presidente do Congresso, Moura Andrade, entregando-lhe um ofício assinado por Quadros que dizia

Nesta data e por este instrumento, deixando com o ministro da Justiça as razões do meu ato, renuncio ao mandato de presidente da República.98

As razões de Quadros para a sua renúncia foram eivadas de um tom nacionalista, que lembrava a carta-testamento de Vargas de exatos 7 anos antes99, e uma espécie de manifestação do presidente “antipolítico” que havia, a contragosto e após árdua luta, sucumbido às forças da velha política:

Fui vencido pela reação e assim deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. (...) Mas baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação, que pelo caminho de sua verdadeira emancipação política e econômica era o único que possibilitaria o progresso efetivo e a justiça federal a que tem direito o seu generoso povo. Desejei um Brasil para os brasileiros, afrontando e denunciando a corrupção, a mentira e a covardia, que subordinam os interesses gerais às ambições de grupos dirigidos, inclusive do exterior. Sinto-me, porém, esmagado. Forças terríveis se levantam contra mim e me infamam ou me intrigam até com a desculpa de colaboração (...).100

Pouco depois, na Câmara, o deputado Dirceu Cardoso (PSD/ES) pedia um aparte para “um pronunciamento da mais alta importância para o país e para o mundo”. Cardoso leu o documento de renúncia de Jânio. Em seguida houve tumulto no plenário, dominado pela

94 MARKUN; HAMILTON, 2011, pp. 70, 86. País em calma espera chegada de João Goulart. Jornal do Brasil,

26/08/1961.

95 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Almino Afonso (PTB-AM), em 25/08/1961. 96

Discursos Câmara dos Deputados. Deputados Aurélio Vianna (PSB-AL) e Fernando Santana (PTB-BA), em 18/08/1961.

97 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Salvador Lossaco (PTB-SP), em 22/08/1961. 98 Apud MARKUN; HAMILTON, 2011, p. 98.

99

Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Padre Vidigal (PSD-MG), em 26/08/1961. BANDEIRA, 2007, p. 564.

surpresa e emoção.101 Nos dois primeiros apartes que se seguiram, surgiram as opções que mobilizariam o Congresso e o Brasil nos dias subsequentes. Osmar Cunha (PSD/SC) exigiu a posse imediata do presidente da Câmara: “que assuma Mazzilli imediatamente o governo, de acordo com a Constituição da República, para que se mantenha a legalidade neste país, para que se mantenha a ordem e para que não venha o golpe contra a nação”. Mendes Gonçalves (PSD/MT) propôs, de imediato, uma mudança no regime: “vamos imediatamente adotar o regime parlamentarista, com o objetivo de evitar que a aventura tome conta deste país”. Legalidade e parlamentarismo, pois, balizaram o debate acerca da sucessão presidencial, acrescido, mais tarde, de um terceiro ponto em decorrência da intervenção dos ministros militares, que era a recusa de o vice assumir a cadeira. No Senado, a reação foi semelhante à notícia trazida por Jefferson de Aguiar (PSD-ES), de muita apreensão e expectativa.102

O líder do governo na Câmara, Nestor Duarte, classificou a renúncia de “calamidade”. “É como um temporal!”, disse. Procurou apelar ao plenário para que a renúncia fosse rejeitada, “por amor à nossa terra, por amor ao regime”.103

Afonso Arinos, da mesma forma, fez gestões junto ao Congresso para que se rejeitasse a renúncia, sustentando que os ministros militares não poderiam conhecê-la antes que o Parlamento.104 Tão logo, a proposta não recebeu acolhida de nenhuma parte, mesmo dos mais conservadores e que não nutriam qualquer simpatia para o vice João Goulart:

O regime continuará na pessoa do sucessor. O regime não acabará. Há o sucessor constitucional.105

Por isso não é correta a afirmação de que anticomunistas, conservadores, americanistas, udenistas ou outra designação semelhante fossem, no geral ou em suas totalidades, contrários à posse de Goulart. Ao reverso, muitos dos parlamentares identificados com esses agrupamentos foram dos primeiros a defender a legalidade:

(...) minha posição em face da Constituição da República é invariável. Lutarei para que ela seja preservada. (...) digo que quaisquer que sejam os meus sentimentos de patriota, quaisquer que sejam os meus temores e apreensões por ver assomar à presidência um homem como o Sr. João Goulart, minha decisão inabalável é de lutar para que a

101 Câmara acompanhou hora a hora a crise que culminou com o gesto do Presidente. Jornal do Brasil,

26/08/1961.

102 Discursos Senado Federal. Senador Jefferson de Aguiar (PSD-ES), em 25/08/1961. 103

Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Nestor Duarte (UDN-BA), em 25/08/1961.

104 País em calma espera chegada de João Goulart. Jornal do Brasil, 26/08/1961.

Constituição seja cumprida, ainda que a República corra os mais graves riscos. (...) Defendo a necessidade de que se cumpra a Constituição e se dê posse aos eleitos, ainda que fosse o pior dos malfeitores, ainda que se tratasse do mais grave dos riscos para a República.106

Em suma, americanistas (radicais e moderados) e anticomunistas se colocaram a favor da posse de Goulart, alinhados com os antiamericanos. O que se discutia então era o cumprimento dos preceitos constitucionais e a defesa da legalidade e da democracia mais do que qualquer possível orientação política do novo governo. O sucessor legal, fosse ele quem fosse, deveria ser imediatamente empossado. As questões de linhas políticas pretendiam-se discutir, ponto a ponto e pormenorizadamente, assim que o governo as adotasse ou as sugerisse ao Congresso Nacional.107

De outra parte, repercutindo ainda as razões do gesto inesperado de Jânio, Almino Afonso, líder do PTB, partido ao qual cabia a vaga da presidência na ausência do titular, apontava a renúncia como um golpe em que o presidente pretendia retornar ao governo à maneira de um ditador, com mais força nos braços do povo, tese que ficaria consagrada entre os reais motivos que levaram Quadros à renúncia:

(...) sob pena de considerarem ingênuos, de aceitar que o documento [de renúncia] corresponda à verdade dos fatos. Por que não denunciar quais são as forças que neste momento comandaram a renúncia? São poderosas forças econômicas? (...) São forças políticas? Mas que forças são essas se a própria oposição sucessivas vezes aqui outra coisa não tem feito senão declarar que na manutenção do regime democrático não distinguiríamos qualquer limite de natureza partidária, mas, ao invés, nós nos entregaríamos à luta ombro a ombro com todas as forças democráticas deste País (...). Se não são as forças políticas que se levantam para derrubar o governo, se não o são as forças econômicas, que não são apontadas se as próprias forças militares o governo testemunha ainda neste instante estarem seguras, tranquilas e firmes na manutenção da ordem democrática, que força é, que mistério é que estranho poder, neste instante, derrubaria um governo como se arreia um castelo de cartas? O PTB (...) não pode aceitar esta renúncia senão como um golpe em que o presidente da República pretenda retornar o governo à maneira de um ditador, disfarçado ou não, seja sob que forma for. (...) Esta Câmara está

106

Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Adauto Cardoso (UDN-GB), em 26/08/1961.

107 Discursos Câmara dos Deputados. Deputados Antônio Carlos Magalhães (UDN-BA), em 26/08/1961, e

perplexa, é compreensível. Não é próprio da vida pública nacional o jogo de última hora, a farsa que engana, o engodo que confunde.108

A reação das autoridades norte-americanas não diferia muito disso. Quando se tornou pública, a embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro viu no documento de renúncia o “ápice de egocentrismo e demagogia, considerando-o cuidadosamente escrito para incitar as massas, com claro apelo nacionalista antiamericano”.109

Para a CIA, em memorando enviado a Kennedy, a atenção de Quadros a Che Guevara e a Gagárin, somada às tentativas de se aproximar do Bloco Socialista, despertou forte desaprovação do exército e de elementos conservadores no Brasil. Segundo essa avaliação, Jânio esperava provocar uma forte manifestação de apoio popular, em resposta à qual ele retornaria à presidência em melhor posição diante de seus adversários.

A Rádio de Moscou defendia a tese de que a renúncia havia sido resultado da intervenção dos Estados Unidos nos assuntos internos do Brasil: “mais de cem golpes de estado na América Latina encontram explicações nos arquivos do departamento de estado e do serviço secreto norte-americano, onde se refletem as maquinações dos trustes e monopólios internacionais”. China e Cuba acusavam, da mesma forma, as forças imperialistas dos EUA com o objetivo de depor um estadista que estava tentando livrar seu país do poder monopolístico e colonialista norte-americano, e Fidel Castro aproveitou para conclamar o povo brasileiro a seguir a experiência cubana e tomar em armas contra os reacionários. O governo norte-americano classificou de “absurdas” as acusações de Moscou, Havana e Pequim.110

O ato da renúncia do presidente surpreendeu a todos, inclusive a seus ministros de estado. Para muitos de seus colaboradores mais próximos, como Afonso Arinos, Jânio dava mostras de uma instabilidade nervosa que, por vezes, chegava a tangenciar o desequilíbrio mental.111 Por esse motivo, muitos reputaram ao seu temperamento pessoal e conhecido gosto por ações dramáticas a decisão pela renúncia, tese minoritária dentro do meio político daquele momento.

108 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Almino Afonso (PTB-AM), em 25/08/1961. 109 Apud MARKUN; HAMILTON, 2011, p. 321.

110

MARKUN; HAMILTON, 2011, pp. 26, 27, 322. CIA, Current Intelligence Weelky Review, 31 de agosto de 1961. Disponível em: www.foia.cia.gov. Acesso em: 20/fevereiro/2013.

Mesmo os deputados que compunham a base de apoio ao governo dividiam as desconfianças de que ele pretendia “voltar mais forte”, lembrando também que, durante as eleições presidenciais, Quadros já havia renunciado à sua candidatura com o mesmo objetivo.112 Esse fator contribuiu para criar no Congresso condições de agir preventivamente e evitar a implantação de um presidente com poderes sobrepujados por meio de uma manobra política ardil e conhecida.113 A urgência do acontecimento exigia do Congresso uma ação “antes que uma desgraça maior, na eventualidade de choques de paixões, jogue o País nas convulsões de uma guerra civil”.114

Era generalizada a noção de que se tratava de uma convulsão para o País, um momento de insegurança para as instituições.115

Para o líder do PTB, a renúncia estava aceita pelo Congresso e nada mais havia o que discutir a não ser cumprir o dispositivo constitucional. O deputado Gustavo Capanema procurou retificar a resposta do Congresso a uma renúncia do titular do Poder Executivo:

a renúncia não precisa ser aceita pelo Congresso; ela é ato unilateral, irretratável. Não temos competência constitucional para aceitá-la, recusá-la, a única coisa que nos cabe é tomar conhecimento que foi a renúncia. Nestas condições, o que se segue é a aplicação pura e simples da Constituição.116

Diante da confusão, o presidente do Congresso, Auro Moura Andrade, convocou sessão conjunta das duas casas legislativas para antes do fim da tarde. Com a maioria dos parlamentares presentes, Auro abriu a sessão informando que ao Congresso competia somente tomar conhecimento do pedido, ao mesmo tempo em que tocava em um dos pontos que supostamente maior oposição havia criado ao governo Quadros:

Claro, teríamos todos desejado que esta renúncia não se tivesse dado com os fundamentos que li. O Congresso vinha prestigiando a ação do presidente Jânio Quadros, particularmente no campo das relações diplomáticas.117

112

Discursos Câmara dos Deputados. Deputado João Mendes (UDN-BA), em 25/08/1961.

113 Além de Jânio, Carlos Lacerda e Juan Domingo Perón ensaiaram antes essa estratégia de ameaçar a renúncia

para, pelo clamor do povo, retornar com poderes ampliados.

114 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Almino Afonso (PTB-AM), em 25/08/1961. 115

Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Aurélio Vianna (PSB-AL), em 25/08/1961.

116 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Gustavo Capanema (PSD-MG), em 25/08/1961. 117 Apud MARKUN; HAMILTON, 2011, p. 103.