Os subprodutos da produção de aves e suínos, resíduos sólidos e líquidos, por conterem nutrientes como nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) e tam-bém micronutrientes, apresentam elevado valor agronômico. O uso como fertilizantes, substituindo os adubos químicos, é o mais difundido, apesar de existirem outras rotas tecnológicas como a produção de biogás. Este anexo apresenta alguns procedimentos para sua valoração.
A legislação vigente permite que os dejetos dos animais possam ser usados como adubo orgânico ou organomineral. A aplicação de dejeto suíno líquido in natura no solo, no entanto, somente poderá ocorrer após período de 90 dias de armazenagem, para estabilização natural das reações bioquímicas.
Se os dejetos forem tratados, por biodigestão, por exemplo, para diminuir a carga de carbono, o tempo mínimo em lagoas de estabilização cai para 30 dias.
A viabilidade econômica do uso desses subprodutos depende do seu valor em relação aos adubos químicos, do custo do transporte entre a área de produção e a lavoura e dos custos da sua aplicação. Na década de 1990, anos de valorização cambial, o baixo valor do dólar frente ao real reduzia o custo da adubação química e inviabilizava o uso dos dejetos como fertilizan-te (Chiochetta; Santos Filho, 2000). A valorização do dólar a partir de 1999 elevou o preço dos fertilizantes químicos tornando o uso dos dejetos viável.
O valor do dejeto suíno como fertilizante depende da concentração de ma-téria seca e do teor de NPK, que resultam principalmente da qualidade das rações e do manejo da água na granja. A Tabela 1 apresenta dados sobre a relação entre NPK e concentração do dejeto, mostrando que com 5,74% de matéria seca conterá 0,467% de N, 0,422% de P e 0,225% de K, ou o cor-respondente a 4,67 kg de N, 4,22 kg de P e 2,25 kg de K por metro cúbico (Barcellos (1992) e Scherer, et al. (1995 a,b)). Considerando o valor de R$
1,36 por kg de ureia com 45% de N, R$ 1,44 por kg de superfosfato simples com 41% de P e de R$ 1,22 por kg de cloreto de potássio com 52% de K, o metro cúbico de dejeto suíno valeria R$ 34,20. Este é um exemplo e os cál-culos devem ser ajustados para os dados de cada região e tipo de produção.
Tabela 1. Dejeto suíno: teor de matéria seca e de nutrientes N, P e K, em kg/m3. Densidade (kg/m3) MS (%) N (kg/m3) P2O5 (kg/m3) K2O (kg/m3)
1.002 - 0,68 0,22 0,63
1.004 0,27 0,98 0,52 0,75
1.006 0,72 1,29 0,83 0,88
1.008 1,17 1,60 1,14 1,00
1.010 1,63 1,91 1,45 1,13
1.012 2,09 2,12 1,75 1,25
1.014 2,54 2,52 2,06 1,38
1.016 3,00 2,83 2,37 1,50
1.018 3,46 3,13 2,68 1,63
1.020 3,91 3,44 2,99 1,75
1.022 4,37 3,75 3,29 1,88
1.024 4,82 4,06 3,60 2,00
1.026 5,28 4,36 3,91 2,13
1.028 5,74 4,67 4,22 2,25
1.030 6,19 4,98 4,53 2,38
1.032 6,65 5,28 4,84 2,50
1.034 7,10 5,59 5,14 2,63
1.036 7,56 5,90 5,45 2,75
1.038 8,02 6,21 5,76 2,88
Fonte: Barcellos (1992) e Scherer et al. (1995 ab).
A mistura dos dejetos de suínos in natura, com adequada concentração de matéria orgânica ou sólidos voláteis, a um substrato, em geral maravalha, com posterior fermentação e secagem, tecnologia conhecida como compos-tagem, possibilita obter um fertilizante de boa qualidade. Vários modelos de máquinas estão disponíveis para diferentes escalas de produção, com altura, largura e velocidade de revolvimento que afetam o tempo de secagem da bio-massa, a área e o tipo da unidade de compostagem, com diferenças no custo, para unidades produtoras de leitões e de terminação, conforme Figuras 1 e 2.
100 120 140 160 180 200 220
500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000 3.500 4.000 4.500 5.000 5.500 6.000 6.500 7.000 7.500 8.000 8.500 9.000 9.500 10.000
R$/ton
Número de matrizes na UPL Maquina A Maquina B
Figura 1. Custo de produção do composto orgânico para dois modelos de máquinas (R$/t), unidade de produção de leitões (UPL).
Fonte: Oliveira et al. (2017).
Figura 2. Custo de produção do composto orgânico (R$/t) para dois modelos de má-quinas, unidade de terminação de suínos (UT).
Fonte: Oliveira et al. (2017).
100 150 200 250 300 350 400 450
500 1.000 1.500 2.000 2.500 3.000 3.500 4.000 4.500 5.000 5.500 6.000 6.500 7.000 7.500 8.000 8.500 9.000 9.500 10.000
R$/ton
Número de animais na UT Maquina A Maquina B
Em 2017, o valor da tonelada do composto situava-se entre R$ 100,00 e R$
145,00, valor afetado pela baixa disponibilidade do nitrogênio, pois grande parte é perdida no processo, e sem valorar sua contribuição como condicio-nador e melhorador do solo. O custo de produção do composto é maior que seu valor agronômico no caso das instalações e da máquina de composta-gem não serem incorporadas ao custo de produção dos suínos (Oliveira et al., 2017).
Estudos da Embrapa Suínos e Aves indicam que o custo do uso dos dejetos de suínos, da compostagem e da cama de aves depende dos equipamentos utilizados, da distância e relevo do solo no local de uso, forma de aplicação, entre outros, e deve ser subtraído do seu valor como fertilizante (Tabela 2).
Tabela 2. Custo do transporte e distribuição dos dejetos líquidos de suínos com dife-rentes equipamentos, em municípios selecionados.
Município/UF Equipamentos Cargas Custo estimado Tipo (m3/carga) Hora R$/h R$/m3
Cafelândia/PR2 C 8 2,50 75,00 3,75
Cascavel/PR2 C 15 1,00 105,00 7,00
Toledo/PR2 C 15 1,00 100,00 6,66
Palotina/PR2 C 12 1,50 105,00 5,83
Tupandi/RS3 C 15 1,50 98,00 4,35
Tupandi/RS3 C 15 1,00 98,00 6,53
Pres. Castello Branco/SC4 C 10 1,50 95,00 6,33
Cafelândia/PR2 FI 30* 1,00 36,00 1,60
Palotina/PR2 FI 30* 1,00 36,00 1,60
Concórdia/SC1 T 4 2,25 38,00 4,35
Concórdia/SC1 T 5 2,00 34,00 3,40
Concórdia/SC1 T 6 2,50 50,00 3,33
Concórdia/SC4 T 4 2,75 53,50 4,92
Arvoredo/SC4 T 4 3,25 55,00 4,47
Lindóia do Sul/SC4 T 5 3,00 55,00 3,67
Toledo/PR2 T 8 2,00 50,00 3,13
Tupandi/RS3 T 4 4,00 48,00 3,00
Município/UF Equipamentos Cargas Custo estimado Tipo (m3/carga) Hora R$/h R$/m3
Média ferti-irrigação --- 30* 1,00 36,00 1,60
Média trator --- 5 2,71 47,14 3,62
Média caminhão --- 13 1,43 96,57 5,78
C – Caminhão-tanque; FI – Ferti-irrigador (m³/hora); T – Trator-tanque
1 novembro 2010; 2 agosto 2011; 3 abril 2012; 4 fevereiro de 2013 Fonte: Sandi et al (2011); Sandi et al. (2012).
O custo do uso dos dejetos é calculado em função da distância, tempo gasto com deslocamento e distribuição, número de viagens e volume distribuído por hora. Com o valor do custo/hora dos equipamentos (dados dos grupos regionais de distribuição) e do volume distribuído, obtém-se o custo por metro cúbico. A cama de frangos, por ser menos úmida, tem valor mais elevado e pode ser transportada por maior distância (Correia; Miele, 2011), apresentan-do custo de transporte da tonelada de R$ 24,00, R$ 73,00 e R$ 87,00 para distâncias de 100 km, 500 km e 1.000 km, respectivamente.
Após sua retirada, inexiste período mínimo para estabilização da cama de frangos e sua composição química é variável, dependendo do substrato, número de reutilizações, qualidade da ração, manejo e desempenho do re-banho. Existem diferenças observadas por autores nos teores de N, P e K na cama de aviários com valores de: 25,9; 20,6 e 10,0 g kg-1 Castro et al.
(2005); 19,3; 16,5 e 41,1 g kg-1 Andreotti et al. (2005); e valores de 35,3; 30,7 e 30,0 g kg-1 Oliveira et al. (2006). Essa variabilidade mostra a importância de conhecer a composição da cama de aves para recomendar a quantidade a ser usada no campo.
O valor econômico da cama como fertilizante, para um mesmo volume inicial de substrato, maravalha, por exemplo, eleva-se após ser usada por vários lotes. Ocorrerá um aumento no teor de nutrientes e no peso, passando de 31,21 kg, 67,43 kg e 84,56 kg por metro quadrado de aviário, após o primeiro lote, o sexto e no décimo quarto lote, conforme Figura 3.
31,21 45,23 53,42 59,24 63,75 67,43 70,55 73,25 75,63 77,76 79,69 81,44 83,06 84,56 20
30 40 50 60 70 80 90
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14
Quilogramas
Número de lotes
Figura 3. Peso do metro quadrado da cama de maravalha após uso de 1 a 14 lotes.
Fonte: Adaptado de Correia et al. (2017).
Tabela 3. Teor de N, P, K em função do número de lotes de frangos criados.
Cama de frango Matéria seca (%) N Total (%) P2O5 (%) K2O (%) 3 a 4 lotes 75 3,2 (2,40) 3,5 (2,63) 2,5 (1,88) 5 a 6 lotes 75 3,5 (2,63) 3,8 (2,85) 3,0 (2,25) 7 a 8 lotes 75 3,8 (2,85) 4,0 (3,00) 3,5 (2,63)
Teor de nutrientes expresso em matéria seca com os respectivos teores em base úmida (matéria natural) entre parênteses.
Fonte: Nicoloso et al. (2016)
A Tabela 3 apresenta dados de Nicoloso et. al. (2016) para camas utilizadas por três a oito lotes de frangos. Considerando a cama utilizada por cinco a seis lotes, por exemplo, ela tem teores de 2,63% de N, 2,85% de P e 2,25% de K. Assim, uma tonelada de cama (matéria natural) tem 26,3 kg de N, 28,5 kg de P2O5 e 22,5 kg de K2O e, em consequência, com os preços usados ante-riormente para valorizar esses fertilizantes, obtém-se o valor de R$ 179,96 por tonelada da cama, calculada conforme fórmula a seguir:
𝑉𝑉𝑉𝑉𝑉𝑉𝑉𝑉(𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡𝑡, 𝑡𝑡𝑛𝑛𝑡𝑡𝑛𝑛)
= 𝑁𝑁% 𝑥𝑥 10
0,45 𝑥𝑥 𝑅𝑅$ 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑈𝑈 +
𝑃𝑃2𝑂𝑂5% 𝑥𝑥 10
0,41 𝑥𝑥 𝑅𝑅$ 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑆𝑆𝑉𝑉𝑆𝑆 + 𝐾𝐾2𝑂𝑂% 𝑥𝑥 10
0,60 𝑥𝑥 𝑅𝑅$ 𝑘𝑘𝑘𝑘 𝑉𝑉𝑃𝑃 Onde:
VACF: Valor agronômico da cama de frango U: Ureia
SFS: Superfosfato simples CP: Cloreto de potássio