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5. PLÁGIO EM TELENOVELA E O CONTRIBUTO MÍNIMO

5.3 PLÁGIO E O CONTRIBUTO MÍNIMO DE ORIGINALIDADE

5.3.2 Repensando o conceito de originalidade nas obras de

A originalidade, como já manifestamos, é condição imprescindível para a configuração da obra intelectual. Tanto pode ser tida como equivalente a criatividade (criação intelectual ou contribuição pessoal do autor), como no sentido de originação da obra.

Concordamos quando defendem alguns a equivalência que há na prática entre os termos originalidade e criatividade361, eis que ambos

359

RAMOS, Op. Cit., p. 470.

360

GRAU-KUNTZ, Op. Cit., p. 52.

361

Neste sentido: “Se a obra intelectual é uma criação intelectual pessoal, pressupõe ela a existência de um grau mínimo de engenhosidade e de individualidade, o que distingue a obra protegida da banal ou comum. A estes atributos podemos chamar de criatividade ou originalidade.” (SANTOS, Manoel

pretendem denotar, para este fim, a existência da individualidade da criação.

O maior dilema sempre pairou acerca do quanto de originalidade ou criatividade seria exigido para possibilitar a proteção da obra, a tal ‘margem para criação pessoal’ que referia Padre Bruno362

.

Esse quantum criativo já foi visto tanto de forma bastante flexiva (bastava que não fosse cópia de outrem, como assentiu os Estados Unidos no passado), passou pelo esforço criativo e aporte intelectual do autor (na Europa) até formar um sútil consenso de que são as escolhas criativas adotadas na produção da obra que lhe asseguram a tutela autoral.363

Donde se conclui o caráter subjetivo que existe no requisito da originalidade, de toda e qualquer obra intelectual.

E especialmente quando se trata de obra intelectual de telenovela, esta análise requer um componente a mais, que é o fator vinculativo da indústria cultural, a exemplo do pensamento cunhado por Adorno e Horkheimer.

Já mencionamos anteriormente nosso posicionamento acerca da interferência da indústria cultural na produção da cultura. Não podemos crer que esta alcance toda e qualquer produção existente, ainda mais nos tempos de hoje, onde a sociedade informacional se comunica de forma instantânea e linear pelas suas redes364.

Contudo, nas obras de telenovela, ela é determinante. É um tipo de obra cultural que só existe porque existe a indústria cultural. Sua produção, altamente dispendiosa, requer a aposta das grandes emissoras de televisão ou produtoras de conteúdo, que só investirão nestes projetos se tiverem alto grau de expectativa do retorno financeiro. 365

Joaquim Pereira dos. A questão da autoria e da originalidade em direito de

autor. In SANTOS; JABUR, Op. Cit., p. 131-132)

362

HAMMES, Bruno Jorge. Op. Cit., p.45.

363

Conforme SANTOS, A questão Op. Cit. In SANTOS; JABUR, Op. Cit., p. 126-140.

364

Neste sentido CASTELLS, Op. Cit.

365

Cláudio Lins de Vasconcelos, em palestra proferida no VIII Congresso de Direito de Autor e Interesse Púbico na UFPR, foi assertivo em defender que cultura não é só indústria, mas que indústria também é cultura, já que determinadas manifestações culturais só existem de forma organizada. Entendemos que a telenovela é um exemplo típico deste tipo de cultura.

Se, como antes visto, a indústria cultural desempenha o papel de previamente ‘definir’366 o que será do ‘agrado’ do consumidor daquela cultura, e, portanto, baliza o que será produzido para satisfazê-lo, repetindo as velhas fórmulas de sucesso – o que reduz o risco do investimento –, ainda que sob nova embalagem, qual o quantum de originalidade que se pode esperar destas obras?

Sobre o padrão da indústria cultural e a originalidade de seus produtos reflete Staut:

Essa uniformização não é simples padronização, os bens culturais da indústria cultural devem parecer sempre novidades, embora as fórmulas sejam as mesma, o caráter estético delas deve sofrer variações. A concepção do produto segue as mesmas regras, o que muda são os detalhes que dão a ilusão do sempre novo, trata-se de uma falsa ou peseudoindividualização. 367

Numa análise mais acurada do produto cultural em estudo, é possível constatar que embora a telenovela traga com o passar do tempo um certo ‘que’ de novidade, notadamente à medida que insere as questões sociais pungentes para o diálogo público, não foge aos combalidos enredos folhetinescos (vinganças, revezes, rapto, inimizades, loucura, crimes de amor, adultério, amor proibido, etc.) e stock characters já abordados no item 4.2.2.

Pudemos conferir das decisões judiciais pesquisadas que a jurisprudência brasileira, quando desafiada a pronunciar-se sobre plágio em telenovelas, ainda que à falta de uma maior fundamentação técnica, operou, na prática, a separação entre ideia e forma de expressão da ideia. E uma vez segregadas, buscou analisar na forma interna o caráter de individualidade da obra dita plagiária, concluindo em praticamente todos os exemplos que, afora tratarem as telenovelas de obras maiores e mais complexas, abordando diversos temas paralelos, as semelhanças encontradas entre as obras ditas plagiadas e plagiárias, não apresentavam o caráter de originalidade368.

366

“(...) o mundo inteiro é forçado a passar pelo filtro da indústria cultural.” (ADORNO; HORKHEIMER, Dialética Op. Cit., p. 118)

367 STAUT JÚNIOR, Op. Cit., p. 157. 368

A conclusão extraída por nós acerca do entendimento assentado nos julgados examinados foi exposta ao longo do estudo individualizado de cada um dos casos e sintetizada ao trabalhar o item 4.2.

Assim, a reflexão que fazemos ao final deste trabalho é se não estaria a originalidade da obra intelectual de telenovela muito mais centrada no contributo mínimo que oferta à sociedade, do que no caráter propriamente criativo e individual da obra?

A propósito do discurso adotado nas cortes superiores sobre o tema, bem como do contexto cultural em que se inserem as obras de telenovela, foi possível concluir que o conceito de originalidade deste tipo de obra intelectual deve ser interpretado a partir do contributo mínimo, já que pela essência da obra, pouco se espera de individualidade.

E que, diante da premissa do contributo mínimo, deve ser segregando o fundo comum da dramaturgia e as ideias, para que se possa constatar a ocorrência de plágio, pela usurpação dissimulada da forma peculiar da expressão da ideia de outra obra.