4 REPERCUSSÕES DO CONCEITO DE TRANSTORNOS GLOBAIS DO

4.3 Repercussões sobre a nomenclatura da legislação

Ainda em relação às orientações técnico-legais sobre a inclusão de alunos com transtornos globais do desenvolvimento, identifica-se que uma das repercussões relativas à transposição do conceito do campo da Psiquiatria para o campo da Educação refere-se à proliferação de nomenclaturas nos documentos legais da Educação Especial Inclusiva, utilizados para especificar quem, de fato, seriam os alunos com transtornos globais do desenvolvimento.

Nos campos da Educação Especial e da Educação Especial Inclusiva, a evolução terminológica verificada no capítulo anterior, a partir de Marchesi (2004), e utilizada para denominar as deficiências e as patologias relativas à saúde mental de crianças e jovens, cujo tratamento foi entendido como pertinente à interlocução entre o viés da Medicina e o da Educação, por si só evidencia o quanto estes dois campos de saber têm caminhado em uma consonância histórica. Contudo, o rebaixamento conceitual verificado no campo da Psiquiatria para definir a categoria dos transtornos globais do desenvolvimento parece ter propiciado a pluralidade de expressões e nomenclaturas que vimos emergir para designá-la, assim como para nomear as entidades clínicas que a compõem (APA, 2002; OMS, 2003). Quando o conceito de transtornos globais do desenvolvimento é trazido para o corpo dos documentos regentes da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2010) com todas as diversas nomenclaturas utilizadas para designar os fenômenos comuns ao Autismo, esta questão parece se potencializar. Para designar os fenômenos que se tornam alvo de queixas dos educadores, nos documentos legais observa-se a utilização da designação da categoria psiquiátrica em questão. Porém, nestes documentos, observam-se variações na nomenclatura utilizada para identificar as entidades clínicas que compõem esta categoria psiquiátrica.

Sendo assim, no documento que inaugura a atual política de inclusão brasileira, por exemplo, encontramos os alunos com transtornos globais do desenvolvimento especificados como aqueles que apresentam “[…] autismo, síndromes do espectro do autismo e psicose infantil” (BRASIL, 2008, p. 08). Já no documento que institui diretrizes para a operacionalização do atendimento educacional especializado na Educação Básica, sob a modalidade Educação Especial (BRASIL, 2009), consideram-se os alunos com transtornos globais do desenvolvimento como aqueles diagnosticados com “[…] autismo clássico, síndrome de Asperger, síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância (psicoses) e transtornos invasivos sem outra especificação […]” (BRASIL, 2009, p. 1).

Ocorre que estes documentos não apresentam as bases referenciais das quais estes termos são retirados, restando ao conhecimento do educador, leigo nas questões psicopatológicas infantis, o exercício de uma dedução que pode ser realizada apenas por aproximação, caso ele não aprofunde suas pesquisas. Entretanto, ele caso se decida por proceder de forma contrária a uma arriscada e simples dedução, poderá verificar que são os códigos classificatórios (APA, 2002; OMS, 2003) as bases conceituais utilizadas pelos consultores da Câmara de Educação Especial do Conselho Nacional de Educação – CEB/CNE para descrever a atual categoria inserida nos textos educacionais voltados para inclusão escolar (BRASIL, 2008, 2009, 2010). Por outro lado, a confrontação destas designações com os seus referenciais - os códigos classificatórios da psiquiatria traduzem especificações que também não encontram consonância direta ou imediata em nenhum deles e cuja correspondência somente pode ser realizada a partir da consulta à literatura especializada sobre a categoria. Nela, verificam-se variações de terminologias provenientes de entendimentos diversos ou mesmo de variações de tradução de uma língua a outra (KAPLAN, 1992; ASSUMPÇÃO JR.; CURATÁLO, 2004; RIVIÈRE, 2004; KLIN, 2006; LIMA, 2006; STUBB, 2008; SADOCK; SADOCK, 2011; DUMAS, 2011).

Contudo, deve-se lembrar que, se são os códigos classificatórios (APA, 2002; OMS, 2003) que constituem as bases referenciais conceituais utilizadas pelos consultores da CEB/CNE (BRASIL, 2008; 2009; 2010) para a construção de diretrizes e resoluções da área, estes não são os primeiros materiais de consulta técnica utilizados pelos educadores. Sendo assim, no campo da Educação, a proliferação de nomeações produzida pelo campo da Psiquiatria das Classificações Internacionais, ao invés de promover esclarecimentos ao educador, seguramente também gera uma pluralização de nomes que são aplicados de forma aleatória a alguns alunos que recebem diagnóstico psicopatológico, assim como nos indicará um dos casos a serem apresentados nesta dissertação. Como desdobramento desta questão, uma primeira consequência desta pluralização sobre a prática da inclusão de alunos, cujos impasses com a aprendizagem e com o ambiente escolar não encontram ressonância nem nas deficiências físicas nem nas altas habilidades, diz de uma sucessão de dúvidas conceituais dos educadores, colocadas reiteradamente em questões tais como: “Conduta típica é o mesmo que transtorno global do desenvolvimento?”, “Esquizofrenia é transtorno global do desenvolvimento?”, “O que é, afinal, transtorno global do desenvolvimento?”. Estas questões, que foram inaugurais em nossas pesquisas de campo, refletem parte das inquietações experimentadas pelos educadores nos casos estudados.

Para elucidar minimamente esta confusão taxonômica, estabelecemos uma tabela comparativa (Quadro 2) em que fazemos coincidir os termos utilizados para especificar a categoria dos transtornos globais do desenvolvimento.

Quadro 2 – Designações técnico-legais para os transtornos globais do desenvolvimento

Denominações dadas pela CID- 10

Denominações dadas pelo DSM-IV-TR

Brasil, 2008 Brasil, 2009

Autismo infantil Transtorno autista Autismo e psicose infantil

Autismo clássico

Síndrome de Rett Transtorno de Rett Síndromes do espectro do autismo

Síndrome de Rett

Outro transtorno desintegrativo da infância, Psicose Desintegrativa, Psicose Simbiótica, Síndrome de Heller

Transtorno desintegrativo da infância

Psicose infantil Transtorno desintegrativo da infância (psicoses)

Síndrome de Asperger Transtorno de Asperger Síndromes do espectro do autismo

Síndrome de Asperger Transtorno global do

desenvolvimento sem outra especificação – TGD-Soe

TDG-Soe (incluindo autismo atípico)

Síndromes do espectro do autismo

TGD-Soe

Autismo atípico - Síndromes do espectro

do autismo

-

Transtorno com hipercinesia associada a retardo mental

- Síndromes do espectro

do autismo

-

Outros transtornos globais do desenvolvimento

- Síndromes do espectro

do autismo

-

4.4 Investigação das repercussões teóricas e técnico-legais sobre os processos de inclusão

No documento Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: da categoria psiquiátrica à particularidade do caso a caso nos processos de inclusão escolar (páginas 90-92)