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3 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA R EALIDADE E A TEORIA DAS

3.1 Representações Sociais e Policial Militar

Neste tópico apresentamos as pesquisas que vem sendo desenvolvidas na perspectiva da Teoria das Representações Sociais voltadas para a compreensão do trabalho do policial militar, atento para as características que envolvem seu trabalho.

No caso das polícias, as representações sociais a esta categoria profissional, tendem em diferentes contextos, a relacioná-las ao risco, ao enfrentamento à criminalidade e à aproximação com aspectos socialmente indesejáveis como o crime, a corrupção, a violência e a morte (SOUZA, 2009; FRAGA, 2006; MESQUITA NETO, 1999). Tal aproximação contribuiu para fazer do trabalho policial uma atividade carregada de pouco prestígio social, sendo, ao mesmo tempo, os agentes policiais indivíduos que lidam, diante dos sucessivos casos de abusos cometidos por outros policiais, com a desconfiança e temor da população7 em relação ao aparato policial (SOUZA, 2009).

As pesquisas desenvolvidas pelos autores supracitados enfatizam que o trabalho do policial militar se insere no rol das atividades de alto risco, pois estes trabalhadores/profissionais lidam diariamente com a violência e a brutalidade, uma vez que a função principal da policia ostensiva, tal como o combate à criminalidade, o que faz a profissão do policial militar uma das que mais sofre de estresse, já que trabalha sob forte tensão e pressão, muitas vezes, em meio a situações que envolvem risco de vida e desgastes que comprometem as condições psicológicas, físicas e sociais.

Podemos pensar que a representação do sujeito comum a respeito do que seja o policial é aquela que, em algum momento, protege a sociedade dos incômodos do coletivo, seja um sujeito violento, um assaltante, um vizinho barulhento e, em outros momentos, ele se vincula a imagem do sujeito truculento, violento e corrupto que ameaça mais que protege.

Em um breve levantamento acerca dos estudos que envolvem a segurança pública e, especificamente, o policial militar, destacamos os estudos das representações sociais como forma de perceber e apreender a atividade laboral do policial militar. Vale ressaltar que parte destes estudos direciona a ênfase na questão da violência e polícia, mas buscam analisar este

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Conforme Bittner (2003), os policiais tem clara consciência de que são percebidos como “aqueles que podem” e, de fato, podem intimidar a sociedade. Por “aqueles que podem” intimidar, entende-se, naturalmente, o acesso ao possível recurso a meios coercitivos – que incluem força física – para alcançar um fim pretendido. A relativa probabilidade do recurso real á força varia bastante de uma tarefa para outra embora, geralmente, seja baixa.

aspecto relacionado com a construção da imagem, análise institucional da corporação, condições de trabalho e saúde vinculadas ao exercício da profissão.

Neste sentido, o estudo desenvolvido por Maciel (2009) consistiu na discussão teórica sobre polícia, violência policial e identidade e, numa pesquisa de campo de cunho qualitativo, integrando as técnicas de entrevistas, desenvolvidas com 50 policiais militares e grupos focais com 34 policiais, distribuídos em 4 grupos, com amostra total de 84 policiais militares. A pesquisa enfatiza as questões da violência policial e da identidade policial por seus agentes e considera que estas representações estão relacionadas à construção de sua identidade profissional e construídas no contato das manifestações de violência, na interação e comunicação com os pares que são estabelecidas desde a formação nas unidades de ensino da PM até a atividade prática do policiamento ostensivo. Desta forma, os resultados se expressam na compreensão acerca do ingresso na corporação baseados em aspectos que vão desde a influência familiar, identificação com a profissão e colocação e manutenção no mercado de trabalho. Quanto à formação, são sinalizadas a falta de incentivo a profissionalização e a atualizações constantes, assim como falta de qualificação dos docentes. No caso da violência policial, refere-se que está associada a fatores psicológicos, educacionais e até culturais, vinculados ao emprego ilegítimo da força e a condutas de desvio. Para o autor, as representações elaboradas pelos policiais acerca de seu papel social se apresentam das mais diferentes formas de missão da ordem social.

Porto (2004) desenvolveu o estudo sobre Polícia e Violência: representações sociais de elites policiais do Distrito Federal, que analisa as representações sociais de elites policiais – civis, militares e do exército – sobre a violência policial, direcionadas para as relações entre cultura organizacional e as formas e modelos de estruturação organizacional e de gestão das atividades policiais, destacando a função policial e as relações entre polícia e sociedade. Uma das representações é a de que a sociedade brasileira é uma sociedade violenta, que essa violência não é específica ao contexto brasileiro, mas que, aqui, há particularidades que não podem ser subestimadas, uma delas é o fato de a população, em função de seus medos e inseguranças, ser uma população que se arma cada vez mais. As representações buscam organizar e dar sentido ao fenômeno da violência, o sujeito que as elabora, “definem” como violento o contexto no interior do qual se desenvolve a atuação policial, impregnada, ela mesma, de valores que informam práticas sociais e culturais do conjunto da sociedade.

Souza (2007) investiga as representações sociais dos policiais militares de Sergipe sobre violência policial. Este estudo estabeleceu um quadro comparativo com o contexto da década de 1980, visando constatar se os signos que, outrora, validavam o emprego da violência ainda estão presentes nos discursos dos agentes policiais. Mendonça (2010), no estudo sobre a construção das representações sociais na relação da policia militar e a sociedade aracajuana, teve como objetivo apreender as representações sociais da população de Aracaju acerca da instituição policial e da figura do policial militar no contexto contemporâneo. Os dados da pesquisa forma coletados a partir de entrevistas individuais, com a amostra de 48 participantes, escolhidos de forma aleatória. Um aspecto encontrado no estudo refere-se ao ressentimento da população com os policiais de Aracaju, pois a maioria dos entrevistados, tiveram, testemunharam ou viram na mídia experiência negativa com algum policial. Juntamente com o sentimento do medo, configura-se a generalização da imagem dos policiais como: arbitrário, corrupto, ignorante, violento, despreparado. Portanto, verifica-se um sentimento ambíguo em relação à instituição, ao mesmo tempo que a população desacredita na instituição policial, ela deseja recorrer a instituição mesmo quando permanece um sentimento de desconfiança na capacidade e competência da instituição em resolver problemas.

Amador (2002) enfatiza que a relação entre o trabalho e a violência em policiais de Porto Alegre, considerando os policiais como trabalhadores que sofrem o impacto do trabalho sobre a sua subjetividade e saúde. Tal interpretação, segundo a autora, deve ser promovida, acima de tudo, entre os próprios policiais, para que estes possam, através da inteligibilidade de seu sofrimento no trabalho, chegar à transformação de seu fazer na permanente busca de uma polícia de qualidade. As conclusões do estudo apontam para a existência de pressões e desafios nas esferas da organização prescrita do trabalho policial e do trabalho policial no cotidiano. Pressões e desafios que impõem rigorosos limites à expressão da subjetividade dos policiais no trabalho, oferecendo-lhes escassas possibilidades para encaminhar seu sofrimento de forma criativa. A partir dos dados, autora chega à conclusão que a violência empregada pelos policiais, expressa uma tentativa de manter sua subjetividade sob controle, de modo que ela não venha perturbar a execução de seu trabalho, prescrevendo a violência como defesa e impondo-a por coação. De acordo com a autora, como tentativas de gerenciamento do sofrimento psíquico decorrente da experiência laboral, os policiais, coletivamente, recorrem a mecanismos defensivos, visando à tentativa de clivagem entre corpo, pensamento e psiquismo, de maneira a continuar trabalhando nos limites entre a descompensação psíquica e

a saúde mental. A violência policial aparece como parte desses mecanismos, expressando o sofrimento psíquico dos policiais, constituído no território de violência da organização do trabalho.

Nesta mesma perspectiva, o estudo de Morais Junior (2010) sobre a violência contra policiais, panorama e propostas apresenta um visão geral das violências que atingem os profissionais de segurança pública, bem como as principais evoluções recentes em torno do tema “vitimização policial” e qualidade de vida para profissionais de segurança pública, concluindo sobre a necessidade de avançar nas discussões acerca dos profissionais de segurança pública, principalmente nas esferas da saúde mental e física.

Os estudos de Minayo, Souza e Constantino (2008) privilegiam uma investigação sobre a análise das condições de trabalho, saúde e qualidade de vida dos policiais militares do Rio de Janeiro. Para coleta de dados, participaram 1.120 policiais, foram aplicados 1.120 questionários, realizadas 8 entrevistas e 11 grupos focais. Nas considerações da análise, identificou-se que toda a categoria está exposta, até mesmo quando não está em seu ambiente de trabalho, considerando-se a atividade policial uma profissão-perigo, sendo percebido e vivenciado por seus agentes como um grande risco. As autoras pontuam o fato de, talvez, a violência maior e pouco visível é o fato de viver em uma profissão-perigo, perante o risco inerente ao trabalho de ser morto a qualquer momento, e isso coloca estes trabalhadores em situação de incerteza e tensão permanente. Silva e Sá (2006) estudam a polícia militar e a sociedade na representação social dos policiais militares do Rio de Janeiro e identificam que fatores como tempo de exercício profissional, nível de satisfação pessoal, reconhecimento institucional, evidenciado através da valorização do profissional quanto ao que lhe é oferecido em relação a melhores condições de trabalho, treinamentos mais qualificados e técnicos, e investimentos em novas tecnologias, parecem influenciar as representações construídas pelos policiais, e que irão afetar assim, suas práticas profissionais.

Após exposição dos objetivos da pesquisa e discussão do aporte teórico entre representações sociais e o contexto de trabalho do policial militar, descrevemos os aspectos metodológicos e os resultados.

CAPITULO 4

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