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Resiliência, adaptabilidade e transformação

CAPÍTULO 5: ATRIBUTOS DE UM SISTEMA RESILIENTE

5.1 Resiliência, adaptabilidade e transformação

O conceito de resiliência na Ecologia foi formulado a partir do estudo da dinâmica entre populações, como predadores e presas, e das suas interações e relações funcionais (Folke, 2006). Holling (1973) concluiu que um sistema natural pode ter múltiplos estados de equilíbrio (também designados estados estáveis, estados funcionais ou regimes) entre os quais transita, contrariando a perspetiva vigente até então de um único ponto de equilíbrio para cada sistema. Nesta perspetiva, as variáveis92 do sistema não se fixam num valor ótimo mas flutuam ao longo de intervalos de valor que definem cada estado funcional.

Em cada um desses estados alternativos o sistema apresenta uma configuração específica, com diferentes implicações para a sociedade (por exemplo, diferentes serviços prestados pelo ecossistema). Por esta razão, do ponto de vista social, alguns estados do sistema podem ser considerados mais desejáveis do que outros e podem

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As variáveis mais importantes que são utilizadas para descrever o sistema, por exemplo e de forma simplificada, o número de peixes e o número de pescadores (Walker & Salt, 2006).

ser implementadas medidas para (tentar) manter o sistema num determinado estado preferencial (Walker & Salt, 2006).

No entanto, o sistema (que é aberto e dinâmico) está sujeito a perturbações, podendo verificar-se uma de três situações: i) o sistema resiste à perturbação, absorvendo os seus efeitos; ii) o sistema é perturbado mas recupera rapidamente; ou, iii) o sistema é de tal forma afetado pela perturbação que as suas funções essenciais e a sua identidade são alteradas, transitando para outro estado funcional (Walker, Holling, Carpenter, & Kinzig, 2004). Nos dois primeiros casos, em que o sistema permanece no mesmo estado funcional, o sistema mostrou-se resiliente. No último caso foi ultrapassado um determinado limiar (threshold), ou seja, as variáveis tomaram valores fora dos intervalos que definiam o estado funcional, e o sistema transformou- se.

Tome-se o exemplo de uma estepe ou pradaria, planície dominada por plantas herbáceas ou gramíneas, com poucas árvores, utilizada muitas vezes como área de pastagem. Com níveis relativamente baixos de pastoreio e fogos periódicos, o sistema permanece dominado por herbáceas, a estepe mantém-se. Se a pressão de pastoreio aumentar (número de animais ou frequência de pastoreio) e a precipitação for baixa, a densidade de herbáceas diminui e, consequentemente, a capacidade de propagação do fogo. Na ausência de fogo, a vegetação arbustiva torna-se dominante, impedindo o crescimento de herbáceas, transformando a área em matagal, menos adequada ao pastoreio (Walker & Salt, 2006).

A resiliência de um sistema pode ser definida como a sua capacidade de manter um elevado nível de consistência na sua estrutura comportamental, face a um ambiente dinâmico de mudança (Walker et al., 2004). Dito de outra forma, é a capacidade do sistema em absorver (os efeitos de) uma perturbação e/ou reorganizar- se, mantendo assim a sua função, estrutura e identidade (Schouten et al., 2012).

Como referido, esta consistência pode ser conseguida através da capacidade de recuperar (rapidamente) o estado de equilíbrio - ‘resiliência de engenharia’ (engineering resilience) - ou através da capacidade de absorver os efeitos da perturbação sem alterações na função do sistema - ‘resiliência ecológica’ (ecological resilience) (Brunetta, 2016).

Atributos de um sistema resiliente

A ‘resiliência de engenharia’ centra-se na velocidade de recuperação após a perturbação e, portanto, na manutenção do sistema o mais perto possível dos valores ótimos, privilegiando atributos como eficiência, estabilidade e controlabilidade. Estratégias de gestão que promovem este tipo de resiliência são mais apropriadas para sistemas previsíveis, sujeitos a baixos níveis de incerteza e a perturbações suaves (Gunderson & Holling, 2002; Ruhl, 2011; Walker et al., 2006).

Se o sistema, pelo contrário, é naturalmente dinâmico e sujeito a perturbações extremas com resultados imprevisíveis, atributos como variabilidade, robustez e persistência serão mais relevantes para a sua manutenção dentro do mesmo estado estável. Assim, a ‘resiliência ecológica’ traduz-se na magnitude de perturbação que o sistema é capaz de absorver, através de ajustamentos nos seus processos, sem que transite para outro estado (i.e., sem que a sua identidade se altere). Verifica-se maior flutuação do sistema dentro dos limites do estado estável em que se encontra, privilegiando-se a manutenção da função em vez da eficiência (Gunderson & Holling, 2002; Ruhl, 2011).

A ‘resiliência de engenharia’ e a ‘resiliência ecológica’ são duas visões contrastadas que implicam estratégias de gestão diferentes. Gunderson & Holling (2002) argumentam que a primeira reforça o mito de que a variabilidade dos sistemas naturais pode ser efetivamente controlada, referindo que as estratégias de comando e controlo para limitar essa mesma variabilidade acabam por reduzir a estabilidade do sistema, tornando-o mais vulnerável. Para além disso, o foco na eficiência tende a eliminar elementos redundantes, no entanto, o facto de o sistema dispor de diferentes opções para responder a uma perturbação (diversidade de resposta) pode ser essencial para a manutenção da sua função (Ruhl, 2011).

Assim, Gunderson & Holling (2002) defendem que a sustentabilidade das relações entre as componentes sociais e ecológicas do sistema requer abordagens de gestão mais próximas da ‘resiliência ecológica’ e que fomentem iniciativas adaptativas. Folke (2006) explica que, no contexto dos SSE, o conceito de resiliência deve ir além da persistência e robustez do sistema e incorporar as ideias de adaptação, aprendizagem e auto-organização. Na sua visão, a resiliência é uma forma de pensar (resilience thinking) que deve considerar também as oportunidades, geradas pela perturbação do

sistema, de recombinação das estruturas e processos, renovação do sistema e emergência de novas trajectórias (Folke, 2006).

Neste sentido, a resiliência implica capacidade adaptativa, isto é, a capacidade de o sistema se reconfigurar, quando sujeito a mudança, sem uma alteração significativa das suas funções cruciais (Folke, Olsson, Norberg, & Hahn, 2005). Essa capacidade de aprendizagem e adaptabilidade é sobretudo associada à componente social do sistema (apesar de os sistemas naturais também a possuirem) (Gibbs, 2009). Alguns autores chegam a definir adaptabilidade como a capacidade das pessoas (atores), através de ação colectiva, influenciarem a ou contribuirem para a resiliência do SSE (Folke, 2006; Walker et al., 2004).

Em termos gerais, a resiliência é encarada como uma característica importante nos SSE, no entanto pode também implicar que o sistema permanece num estado indesejável (do ponto de vista social) e resiste aos esforços encetados para o alterar (tome-se o exemplo de uma lagoa eutrofizada) (Walker & Salt, 2006). Quando as condições ecológicas, políticas, sociais e/ou económicas do sistema se tornam insustentáveis a acção colectiva deve fomentar a transformação do sistema, a criação de um SSE com uma identidade fundamentalmente diferente (Walker et al., 2004).

Nos casos em que o SSE desempenha funções e/ou presta serviços socialmente valorizados e cuja manutenção é desejada, podem/devem ser implementadas estratégias de gestão que promovam a sua resiliência.