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Capítulo XIV Responsabilidade Civil Profissional

5. CASUÍSTICA

5.2. Responsabilidade civil do advogado

Um outro apaixonante tema, relacionado à responsabilidade civil profissional, é a análise da atividade advocatícia.

Última das profissões liberais, a advocacia é também o mais nobre bastião da liberdade, na luta contra a opressão no Estado Democrático de Direito.

Dada a importância de tal ofício, a possibilidade de ocorrência de danos, seja pela utilização equivocada de técnicas inadequadas ao caso concreto ou simplesmente a omissão nos deveres de defesa dos interesses do cliente, é um elemento concreto que não pode ser desprezado.

Para compreender como tal responsabilização se materializa é preciso entender a natureza jurídica dessa atividade.

5.2.1. Natureza jurídica da obrigação de prestação de serviços advocatícios

A prestação de serviços advocatícios é, em regra, uma obrigação de meio, uma vez que o profissional não tem como assegurar o resultado da atividade ao seu cliente.

Assim, da mesma forma como o ofício médico, demanda uma responsabilidade civil subjetiva, com fundo contratual que, no caso do processo judicial, decorre do mandato.

Observe-se, porém, a advertência de VENOSA:

“No entanto, existem áreas de atuação da advocacia que, em princípio, são caracterizadas como obrigações de resultado. Na elaboração de um contrato ou de uma escritura, o advogado compromete-se, em tese, a ultimar o resultado. A matéria, porém, suscita dúvidas e o caso concreto definirá eventual falha funcional do advogado que resulte em dever de indenizar. Em síntese, o advogado deve responder por erros de fato e de direito cometidos no desempenho do mandato. O exame da gravidade dependerá do caso sob exame. Erros crassos como perda de prazo para contestar ou recorrer são evidenciáveis objetivamente. Há condutas do advogado, no entanto, que merecem exame acurado. Não devemos esquecer que o advogado é o primeiro juiz da causa e intérprete da norma. Deve responder, em princípio, se ingressa com remédio processual inadequado ou se postula frontalmente contra a letra da lei. No entanto, na dialética do direito, toda essa discussão será profundamente casuística. É fora de dúvida, porém, que a inabilidade profissional evidente e patente que ocasiona prejuízos ao cliente gera dever de indenizar. O erro do advogado que dá margem à indenização é aquele injustificável, elementar para o advogado médio, tomado aqui também como padrão por analogia ao ‘bonus pater familias’. No exame da conduta do advogado, deve ser aferido se ele agiu com diligência e prudência no caso que aceitou patrocinar”32.

O importante é perceber, todavia, que, embora exercendo uma atividade com potencial risco de dano, a responsabilidade civil será sempre subjetiva (CDC, art. 14, § 4.º, e Lei n. 8.906/94 — Estatuto da Advocacia — art. 32), distribuindo-se o ônus da prova do elemento culpa em função da natureza da obrigação avençada e geradora do dano, em benefício do consumidor do serviço.

5.2.2. Responsabilidade civil pela perda de uma chance

Na busca do diagnóstico da conduta do advogado que perpetrou um dano ao seu cliente, inevitável é a ocorrência de situações em que a lesão ao patrimônio jurídico do cliente tenha se dado por uma conduta omissiva do profissional.

A casuística é infindável: falta de propositura de ação judicial; recurso ou ação rescisória; não formulação de pedido; omissão na produção de provas; extravio de autos, ausência de contrarrazões ou sustentação oral; falta de defesa etc.

Como se trata da perda de uma chance, jamais se poderá saber qual seria o resultado do julgamento se o ato houvesse sido validamente realizado.

Nessas situações, há hipóteses extremas em que fatalmente se reconhecerá que uma ação ajuizada é fadada à procedência ou à rejeição como uma aventura processual. A imensa gama de situações intermediárias, porém, impõe admitir que só há possibilidade de responsabilização se for sobejamente demonstrado o nexo de causalidade e a extensão do dano.

Tentando estabelecer alguns parâmetros para essa questão tão complicada, SÉRGIO NOVAIS DIAS, em pioneira obra, traz alguns baremas de razoabilidade:

“Em casos cuja decisão envolve interpretação legal, em relação à qual o entendimento encontra-se sumulado pelo Supremo Tribunal Federal ou Superior Tribunal de Justiça, a probabilidade é de que o julgamento se faça no mesmo sentido da súmula, a não ser que se demonstre estar ela superada pela própria jurisprudência do tribunal.

Não sendo matéria sumulada, será considerado provável todo resultado que decorrer de uma interpretação razoável da norma legal, na esteira da Súmula 400 do STF. Tendo, porém, a jurisprudência do STF e do STJ já definido, dentre as interpretações razoáveis, respectivamente das normas constitucionais e das normas federais infraconstitucionais, qual a interpretação considerada correta, será provável o resultado que estiver em sintonia com essa jurisprudência predominante, uma vez que, mesmo se o tribunal de segunda instância adotasse interpretação razoável, porém dissonante daquela pacificação nas instâncias extraordinárias, era previsível que a parte vencida fizesse o processo chegar à terceira instância, mediante a interposição do recurso adequado, de maneira que o julgamento último esperado do caso seria de acordo com essa interpretação.

Quando a questão envolver valoração da matéria fática ou de prova, será provável o resultado que decorrer de uma avaliação razoável da questão”33.

Cuidado especial devem ter os advogados, por exemplo, quanto ao levantamento de valores de clientes e, também, ao manuseio de seus documentos.

Quanto aos valores, é interessante observar que os profissionais devem, para prevenir responsabilidade, evitar procurações de cunho genérico e com poderes amplíssimos.

No que se refere aos documentos, devem exigir recibo do seu cliente, ao devolvê-los, para evitar alegação de extravio.

A relação cliente/advogado deve sempre ser pautada pelo respeito e confiança, embora um pouco de cautela não faça mal a ninguém.

5.2.3. A ofensa irrogada em juízo e suas consequências

Por fim, vale tecer algumas considerações sobre as consequências das ofensas irrogadas em juízo pelo advogado.

De fato, tem o profissional da advocacia uma imunidade para sua conduta, conforme consta expressamente do art. 142, I, do vigente Código Penal brasileiro34.

Tal preceito é reforçado pelo § 2.º do art. 7.º da Lei n. 8.906/94, que estabelece que o “advogado tem imunidade profissional, não constituindo injúria, difamação ou desacato puníveis qualquer manifestação de sua parte, no exercício de sua atividade, em juízo ou fora dele, sem prejuízo das sanções disciplinares perante a OAB, pelos excessos que cometer”35.

A pergunta que não quer calar é: tais dispositivos dão uma imunidade absoluta ao advogado para qualquer manifestação em Juízo? Pode ele, por exemplo, ofender dolosamente a parte contrária, o representante do Ministério Público ou o magistrado?36

Na visão de RUI STOCO, seria “odiosa qualquer interpretação que conduzisse à conclusão de que o Estatuto da Advocacia instituiu para os advogados imunidade penal e civil ampla e absoluta, não o fazendo, contudo, com relação aos cidadãos, às partes no processo e aos Juízes e membros do Ministério Público. Em resumo, a ‘libertas convinciandi’ do advogado não se degrada em licença para irrogar ofensas em Juízo. Embora o art. 133 da Constituição Federal disponha que o advogado é indispensável à administração da Justiça, tenha-se em mente que será ele indispensável enquanto agir escorreitamente segundo as balizas que o mandato estabeleceu. A inviolabilidade por seus atos e manifestações no exercício da profissão, para que se estabeleça a imunidade judiciária, pressupõe a prática de atos lícitos permitidos e nos exatos termos da outorga e do âmbito de discussão da causa, até porque se, por um lado, o advogado é inviolável por seus atos, quando no exercício da profissão, por outro, toda e qualquer pessoa é inviolável em sua honra, segundo o art. 5.º, inciso X, da Constituição Federal, e tem o direito de não ser ofendida ou agredida verbalmente em detrimento de sua imagem e de sua honra”37.

Assim também vêm decidindo os tribunais:

“A inviolabilidade, de que trata o art. 133 da Constituição, não elide a responsabilidade penal do advogado por crime cometido no exercício da profissão, por isso que contida nos limites da lei. Não se pode dizer compreendida na imunidade judiciária do art. 142, I, do Código Penal, a ofensa que extrapola o âmbito da discussão da causa” (Superior Tribunal de Justiça, RHC, Rel. José Cândido, RSTJ, 38/236).

“A inviolabilidade judiciária penal do advogado está circunscrita nos limites da lei (art. 133 da Constituição da República). Não pode, assim, o animus defendendi ser transformado em licença para o ataque descomedido e desnecessário” (Superior Tribunal de Justiça, RHC, Rel. Edson Vidigal, RSTJ, 40/244).

Por isso, em uma interpretação constitucional, esperamos que o STF firme entendimento no sentido de dar justos limites às regras do Código Penal e do Estatuto da Advocacia, sem subtrair a necessária liberdade ao advogado, em prol da lisura e do respeito nas demandas judiciais.

Como já se disse, liberdade em demasia redunda em arbítrio...

1 Nesse sentido, pode-se inferir, por exemplo, as previsões da Consolidação das Leis do Trabalho, referentes à associação em sindicato, in verbis:

“Art. 511. É lícita a associação para fins de estudo, defesa e coordenação dos seus interesses econômicos ou profissionais de todos os que, como empregadores, empregados, agentes ou trabalhadores autônomos, ou profissionais liberais, exerçam, respectivamente, a mesma atividade ou profissão ou atividades ou profissões similares ou conexas.

§ 1.º A solidariedade de interesses econômicos dos que empreendem atividades idênticas, similares ou conexas constitui o vínculo social básico que se denomina categoria econômica.

§ 2.º A similitude de condições de vida oriunda da profissão ou trabalho em comum, em situação de emprego na mesma atividade econômica ou em atividades econômicas similares ou conexas, compõe a expressão social elementar compreendida como categoria profissional.

§ 3.º Categoria profissional diferenciada é a que se forma dos empregados que exerçam profissões ou funções diferenciadas por força de estatuto profissional especial ou em consequência de condições de vida singulares.

§ 4.º Os limites de identidade, similaridade ou conexidade fixam as dimensões dentro das quais a categoria econômica ou profissional é homogênea e a associação é natural”.

2 Sobre a atuação do advogado, recomendamos a leitura do excelente livro de Sérgio Novais Dias, Responsabilidade Civil do Advogado pela Perda de uma Chance, São Paulo: LTr, 1999.

3 Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho, Novo Curso de Direito Civil — Obrigações, São Paulo: Saraiva, 2002, v. II, p. 109.

4 “A cura não pode ser o objetivo maior devido à característica de imprevisibilidade do organismo humano — mormente em estado de doença, o que se reflete em limitações no exercício da medicina. Já não se pode dizer o mesmo quando estivermos frente a um atendimento médico por ocasião de uma cirurgia plástica estética (para os casos de cirurgia plástica reparadora cabe a afirmação de caracterizar-se como uma obrigação de meios). A doutrina e a jurisprudência brasileira são unânimes, pelo menos até o presente momento, em considerar os casos de cirurgia plástica estética como um contrato cujo objeto é uma obrigação de resultado. Assim, há presunção de culpa, se o médico cirurgião plástico não adimplir integralmente a sua obrigação (o adimplemento parcial é considerado uma não execução da obrigação pela qual se comprometeu com o paciente contratante)” (Neri Tadeu Camara Souza, Responsabilidade Civil do Médico, Jornal Síntese, Porto Alegre: Síntese, mar. 2002, p. 22).

5 Confira-se o Capítulo XI (“Responsabilidade Civil por Ato de Terceiro”).

6 Maria Helena Diniz, Curso de Direito Civil Brasileiro — Responsabilidade Civil, 16. ed., São Paulo: Saraiva, 2002, v. 7, p. 243.

7 Ruy Rosado de Aguiar, Obrigações e Contratos — Projeto de Código Civil, disponível no site do Conselho da Justiça Federal: www.cjf.gov.br.

8 Art. 14, § 4.º, do CDC: “A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada mediante a verificação de culpa”.

9 “Ação de indenização — Danos morais e materiais — Nulidade do julgado — Inocorrência de culpa. 1 — Rejeita-se a alegação de nulidade do julgado quando a matéria foi amplamente examinada, não estando o juiz obrigado a examinar todas as alegações das partes, desde que já tenha encontrado motivo suficiente para o deslinde da controvérsia. 2 — Mostrando-se adequado o tratamento médico para a espécie, tendo o médico prestado os esclarecimentos necessários, não se vislumbra culpa capaz de autorizar condenação por danos morais e materiais. 3 — A assistência médica não é uma obrigação de resultado, mas sim de meio, responsabilizando-se o médico tão só pelo tratamento adequado. 4 — Recurso não provido. Maioria” (TJDF, Ap. Cível 20000750026364A/DF, registro do acórdão n. 156071, j. 11-3-2002, 5.ª Turma Cível, Rel. Asdrubal Nascimento Lima, Rel. Desig. Haydevalda Sampaio, DJU: 26-6-2002, p. 66).

10 “Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras reparações:

I — no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral e o luto da família;

II — na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia, levando-se em conta a duração provável da vida da vítima.

Art. 949. No caso de lesão ou outra ofensa à saúde, o ofensor indenizará o ofendido das despesas do tratamento e dos lucros cessantes até ao fim da convalescença, além de algum outro prejuízo que o ofendido prove haver sofrido.

Art. 950. Se da ofensa resultar defeito pelo qual o ofendido não possa exercer o seu ofício ou profissão, ou se lhe diminua a capacidade de trabalho, a indenização, além das despesas do tratamento e lucros cessantes até ao fim da convalescença, incluirá pensão correspondente à importância do trabalho para que se inabilitou, ou da depreciação que ele sofreu.

Parágrafo único. O prejudicado, se preferir, poderá exigir que a indenização seja arbitrada e paga de uma só vez.”

11 Sílvio de Salvo Venosa, Direito Civil — Responsabilidade Civil, 3. ed., São Paulo: Atlas, 2003, v. 3, p. 101.

12 “Responsabilidade civil. Anestesia. Encargo da prova. Na relação que se estabelece entre o especialista e o paciente, ou responsáveis, incumbe àquele, por senhor da ciência, as providências, prévias e incidentais, adequadas para o pleno sucesso. Age com culpa anestesista que, em cirurgia de pequeno porte, jamais tendo discutido a opção com os responsáveis por paciente de menor idade, e ignorando exames prévios, elege a anestesia geral e os meios a ela conducentes, resultando definitivamente ofendida a integridade física do anestesiado. Ei desacolhidos” (Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Embargos Infringentes n. 597078641, 3.º Grupo de Câmaras Cíveis, Rel. Des. Antônio Janyr Dall’Agnol Júnior, j. 1.º-8-1997).

“Civil. Responsabilidade civil. Erro Médico. Anestesia. 1. O anestesiologista responde pelo dano causado ao paciente, em razão do procedimento anestésico, quando não obteve, previamente, anuência para realizar a anestesia geral (imprudência), não realizou exames pré-anestésicos (negligência) e não empregou todos os recursos técnicos existentes no bloco cirúrgico (imperícia). Valor da indenização. Voto vencido, que não localizou culpa na conduta do anestesiologista. 2. Apelação desprovida por maioria” (Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Ap. Cível 597009992,

5.ª Câmara Cível, Rel. Des. Paulo Augusto Monte Lopes, j. 20-3-1997).

13 Jurandir Sebastião, Responsabilidade Médica Civil, Criminal e Ética, 2. ed., Belo Horizonte: Del Rey, 2000, p. 90.

14 “Indenização. Cirurgia de laqueadura tubária. Insucesso. CDC. Ausência de informação. Obrigação de meio e de resultado. — Embora possa ser considerada obrigação de meio ou mesmo de resultado, em caso de cirurgia de laqueadura tubária, a responsabilidade pelo insucesso deve ser apurada mediante culpa, podendo essa ser caracterizada pela ausência de informação de percentual mínimo de insucesso. — A ausência de informação dos riscos e de consentimento do paciente atribui o dever de indenizar ao facultativo. — Sendo de fim o contrato para prestação de serviço médico — cirurgia de ligadura de trompas — para efeito de esterilização, e, não havendo prova de que o médico sequer alertara a paciente para o possível insucesso da cirurgia, ainda que em percentual mínimo, a obrigação de indenizar a paciente pelo médico é mero corolário jurídico” (TJMG, número do processo: 0338950-2, órgão julgador: Sexta Câmara Cível, data do julgamento: 11-4-2002, Rel. Juiz Belizário de Lacerda).

15 “Médicos indenizarão mulher por darem esperanças de cura

Dois médicos paulistas terão de pagar uma indenização a uma paciente por terem dado a ela falsas esperanças de cura. Com a decisão da 4.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), M.B.F. vai receber R$ 147 mil como reparação por danos materiais e morais.

Ela propôs ação de indenização contra os dois médicos que a atenderam depois de realizar uma cirurgia considerada inócua. M.B.F. perdeu a visão em 1980. Depois de consultar vários especialistas que a desenganaram, passou a ser tratada por S.T.G. que lhe incentivou a realizar um tratamento. A paciente foi convencida a se submeter a uma cirurgia nos olhos realizada pelo médico A.G.F.

Apesar da operação, a visão não foi recuperada. Na petição inicial, a autora da ação diz que foi ludibriada pelos médicos, em um suposto conluio.

Iludida com a perspectiva de cura, ela vendeu imóveis e veículos para custear as despesas de tratamento médico. Mas tudo teria sido em vão. Por isso, ela pediu uma indenização no valor de R$ 500 mil.

Em 1.ª instância, o juiz concluiu que os dois médicos foram negligentes e imprudentes e os condenou ao pagamento dos danos materiais, na quantia gasta pela paciente com o tratamento e a cirurgia (R$ 67.054), e dano moral no valor equivalente a 100 salários mínimos, ou R$ 20 mil. A autora da ação e o segundo réu (o médico que realizou a cirurgia) apelaram no Tribunal de Alçada Civil de São Paulo (Agência Brasil).

16 Em atenção à acentuada carga de solidarismo social que a atuação médica contém, já tivemos oportunidade de anotar, em nosso volume I, que consideramos espúria e imoral a exigência do “cheque caução” ou a assinatura de fiança, como condição sine qua para o atendimento médico de emergência: “Não há como não se reconhecer a ocorrência deste vício no ato de garantia (prestação de fiança ou emissão de cambial) prestado pelo indivíduo que pretenda internar, em caráter de urgência, um parente seu ou amigo próximo em determinada Unidade de Terapia Intensiva, e se vê diante da condição imposta pela diretoria do hospital, no sentido de que o atendimento emergencial só é possível após a constituição imediata de garantia cambial ou fidejussória.

É perfeita a incidência da norma: premido da necessidade de salvar pessoa próxima, de perigo de grave dano conhecido da outra parte, o declarante assume obrigação excessivamente onerosa.

Não se pretende justificar o tratamento clínico em hospital particular de pessoa desprovida de recursos.

Entretanto, a prestação de serviços médicos emergenciais é obrigação, não apenas jurídica, mas principalmente moral, decorrente do sublime juramento de Hipócrates. Prestado o serviço emergencial, que se providencie a transferência do paciente para um hospital da rede pública. E para este tipo de atendimento de emergência, qualquer exigência imposta como condição sine qua non para a pronta atuação médica é descabida, podendo, inclusive, gerar a responsabilização criminal dos envolvidos”.

17 Constituição Federal de 1988: “Art. 5.º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) VI

— é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.

18 Sobre o tema, na ótica da proteção dos Direitos da Personalidade, confira-se, inclusive, o capítulo próprio do volume I (“Parte Geral”) desta obra.

19 “Cautelar. Transfusão de sangue. Testemunhas de Jeová. Não cabe ao Poder Judiciário, no sistema jurídico brasileiro, autorizar ou ordenar tratamentos médico-cirúrgicos e/ou hospitalares, salvo casos excepcionalíssimos e salvo quando envolvidos os interesses de menores. Se iminente o perigo de vida, é direito e dever do médico empregar todos os tratamentos, inclusive cirúrgicos, para salvar o paciente, mesmo contra a vontade deste, e de seus familiares e de quem quer que seja, ainda que a oposição seja ditada por motivos religiosos. Importa ao médico e ao hospital demonstrar que utilizaram a ciência e a técnica apoiadas em séria literatura médica, mesmo que haja divergências quanto ao melhor tratamento. O Judiciário não serve para diminuir os riscos da profissão médica ou da atividade hospitalar. Se transfusão de sangue for tida como imprescindível, conforme sólida literatura médico-científica (não importando naturais divergências), deve ser concretizada, se para salvar a vida do paciente, mesmo contra a vontade das testemunhas de Jeová, mas desde que haja urgência e perigo iminente de vida (art. 146, par. 3, inc. I, do Código Penal). Caso concreto em que não se verificava tal urgência. O direito à vida antecede o direito a liberdade, aqui incluída a liberdade de religião. É falácia argumentar com os que morrem pela liberdade, pois, aí se trata de contexto fático totalmente diverso. Não consta que morto possa ser livre ou lutar por sua liberdade. Há princípios gerais de ética e de direito, que aliás norteiam a Carta das Nações Unidas, que precisam se sobrepor às especificidades culturais e religiosas; sob pena de se homologarem as maiores brutalidades; entre eles estão os princípios que resguardam os direitos fundamentais relacionados com a vida e a dignidade humanas. Religiões devem preservar a vida e não exterminá-la” (Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Ap. Cível 595000373, 6.ª Câmara Cível, Rel. Des. Sérgio Gischkow Pereira, j. 28-3-1995).

20 “Indenizatória — Reparação de danos — Testemunha de Jeová — Recebimento de transfusão de sangue quando de sua internação — Convicções

20 “Indenizatória — Reparação de danos — Testemunha de Jeová — Recebimento de transfusão de sangue quando de sua internação — Convicções

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